A poupança “circunstancial” ajuda o PIB

Há certo otimismo nas projeções do PIB, de menor queda este ano e maior avanço em 2020. Alexandre Ázara, da Mauá Capital, explica como o fator poupança, causado principalmente pela impossibilidade de consumir serviços, ajudou a balança a pender para o lado dos menos pessimistas.

Fernando Dantas

13 de novembro de 2020 | 19h29

Há certo otimismo com as projeções de crescimento do PIB no Brasil, em relação não só aos piores momentos da pandemia, mas também ante o que se vislumbrava em períodos mais recentes.

No Credit Suisse, a alta de 1,3% do IBC-Br de setembro foi um de vários elementos na decisão de aumentar a projeção de crescimento no PIB no terceiro trimestre de 7% para 9,1%, na comparação dessazonalizada com o segundo. Já para 2020, o banco reduziu a projeção de queda de 4,8% para 4,6%, mantendo a previsão de crescimento do PIB de 4,1% em 2021.

O Itaú, como reportou Maria Regina Silva, do Broadcast, melhorou a projeção de 2020, de -4,5% para -4,1%, e a de 2021, de +3,5% para +4%.

Alexandre Ázara, economista-chefe e sócio da gestora Mauá Capital, diz que já estava “no grupo dos mais animados”, com projeção de queda do PIB de 4,5% em 2020 e de crescimento de 3,5% em 2021. Se a projeção vier a mudar, a tendência – pelo menos pelo que se enxerga agora – é para melhor.

Ázara nota que o mercado se dividiu desde o início da pandemia entre uma turma mais pessimista e outra menos, e uma das principais razões pela qual o pêndulo da balança acabou pendendo para os primeiros foi a “poupança circunstancial”.

Quando a pandemia chegou, os analistas, naturalmente, se viram diante de um fenômeno inédito e tiveram que trabalhar com hipóteses sobre as consequência no consumo, a reação do governo etc.

Um dos fatos verificados a posteriori é que a “ajuda” concedida por governos a famílias e negócios (especialmente pequenos) em vários países acabou sendo maior que a perda de renda. O Brasil está claramente incluído aqui.

Mas o que as famílias fizeram com esse dinheiro extra? Por um lado, os recursos tenderam a fluir fortemente para a população mais pobre, que tem uma alta propensão a consumir.

Por outro, como observa Ázara, a teoria econômica ensina que as pessoas tendem a suavizar o consumo ao longo do tempo. Isto é, consomem não de acordo com a renda ocasional, mas com a expectativa de renda ao longo de muitos anos.

Especificamente no caso da pandemia, os serviços – restaurantes, pacotes de viagem, entretenimento fora de casa etc. – simplesmente fecharam, e não havia como consumi-los, mesmo que a família quisesse. Fica evidente que, pelo menos da classe média para cima, formou-se uma “poupança circunstancial”.

Esse tipo de poupança difere da poupança precaucional, por insegurança em relação ao futuro. O ponto não é de que não houve nenhum sentido de precaução na poupança a mais acumulada pelas famílias brasileiras em 2020, mas sim que o vetor fundamental foi circunstancial.

Assim, mesmo levando em conta que o fim do auxílio emergencial vai significar um grande tranco nas famílias mais pobres a partir do início de 2021, o gasto gradativo da poupança extra acumulada pelo conjunto das famílias deve ser uma expressiva força em sentido contrário.

No fundo, o que esteve em jogo foi o peso relativo desses fatores, e a melhora das projeções do PIB para este ano e 2021 sugerem que a poupança circunstancial acabou se revelando um fator mais potente do que os mais pessimistas julgavam.

Um gestor do Rio esquematiza a história de forma simplificada (ele ressalva que os números são apenas aproximações).

A renda cresceu 4% na pandemia, o consumo caiu 4%, e portanto formou-se uma grande poupança extra, cuja gradual desmontagem pode ajudar a economia a não cair no “abismo fiscal” – nome dado ao fim súbito do impulso fiscal dos auxílios – na transição de 2020 para 2021.

Existem, claro, dois riscos no horizonte. Um é uma possível “nova onda” da Covid, e outro é o impasse fiscal.

“Se algo pode impedir que essas projeções melhores de crescimento ocorram, são nossos amigos em Brasília fazendo algo bem destrutivo na política fiscal”, alerta o gestor.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/11/2020, sexta-feira.

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