A preocupação do Fed

Mudanças no arcabouço da política monetária norte-americana anunciadas na quinta-feira mostram a preocupação do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) em evitar que economia do país atole na "estagnação secular".

Fernando Dantas

28 de agosto de 2020 | 13h20

O anúncio de mudanças no arcabouço da política monetária realizado hoje por Jerome Powell, presidente do Fed, BC norte-americano, não deixa dúvida: a pandemia acentuou o temor, que já existia antes do coronavírus, de os Estados Unidos atolarem na “estagnação secular”, o ambiente econômico de baixos juros (ou negativos), baixa inflação (ou deflação) e baixo ou nenhum crescimento, cujo espectro já atormenta os países ricos, especialmente Europa e Japão, há muito tempo.

O presidente do Fed anunciou as mudanças em seu pronunciamento nesta quinta-feira para a famosa conferência anual de Jackson Hole, que está sendo realizada virtualmente este ano. Simultaneamente, o comitê de política monetária do Fed, o FOMC, divulgou uma atualização da sua Declaração de Objetivos de Longo Prazo e Estratégia de Política Monetária.

Como explica José Júlio Senna, especialista em política monetária do Ibre/FGV, “embora as mudanças [anunciadas pelo Fed] desenhem como funcionará a política monetária no futuro, é evidente que uma das grandes motivações por trás delas tem a ver com o momento presente”.

Para o economista, “do ponto de vista prático, de curto prazo, as mudanças funcionam como um ‘forward guidance’ sofisticado”.

Forward guidance, expressão traduzida recentemente pelo BC do Brasil como “prescrição futura”, é o uso da comunicação pela autoridade monetária para sinalizar para o mercado e a sociedade quais serão as suas prováveis decisões de política monetária num horizonte futuro.

Com o anúncio hoje das novidades na política monetária dos Estados Unidos, Powell sinalizou para o mercado que o intervalo da taxa básica americana, os Fed Funds, deve permanecer no nível atual, de zero a 0,25%, por um bom período à frente.

Basicamente, o Fed indicou que dois gatilhos, percebidos tradicionalmente, de provável elevação da taxa básica deixaram de valer. O primeiro deles é a inflação do PCE (deflator das despesas de consumo do PIB) ameaçando subir acima de 2%.

E o segundo é a taxa de desemprego menor que a do nível de equilíbrio – que é aquela compatível com o que o Fed chama de “nível máximo” de emprego, já que, em seu mandato dual, o BC norte-americano, além da estabilidade de preços, deve buscar o “máximo emprego”.

Os Estados Unidos não têm um sistema formal de metas de inflação, como o Brasil e grande número de países hoje em dia. Porém, como o próprio Powell disse no discurso de hoje, o Fed adotou várias características dos sistemas flexíveis de meta de inflação. Dessa forma, foi definido em 2012 que o parâmetro de estabilidade de preços seria um objetivo de longo prazo da inflação em 2%.

No pronunciamento de hoje, Powell notou que, apesar desse objetivo, a inflação nos últimos anos ficou persistentemente abaixo de 2%, o que puxa para baixo também as expectativas inflacionárias. E as expectativas abaixo de 2% dificultam ainda mais que a inflação chegue na meta de longo prazo.

Por isso, o Fed avisou que agora está com o objetivo de uma inflação que, na média, fique em 2%. Como a inflação ficou por muito tempo abaixo de 2%, isso significa que, se ela passar moderadamente de 2%, isso não compromete o objetivo de estabilidade de preços – e não é preciso subir os Fed Funds.

Senna chama a atenção, entretanto, que, também no pronunciamento de hoje, Powell deixa claro que o Fed não está se comprometendo com qualquer fórmula matemática que defina o que é a média de 2%.

“Vi com muitos bons olhos esse trecho, porque banqueiro central nenhum gosta de amarrar suas decisões a fórmulas, porque tem que ter liberdade para reagir a mudanças de cenário, inovações, surpresas; o Fed mostrou agora, em particular, que não quer se amarrar nem numa simples média”, apontou o economista.

Em relação à questão do emprego, Powell disse em seu pronunciamento que “a reação débil da inflação ao aperto [aquecimento] do mercado de trabalho, ao qual nos referimos como o achatamento da curva de Philips [que correlaciona, de forma inversamente proporcional, o desemprego e a inflação], também contribuiu para os resultados de baixa inflação”.

Dessa forma, o Fed diz que as expectativas de inflação bem ancoradas lhe dão latitude para dar apoio ao mercado de trabalho quando necessário, sem comprometer a estabilidade de preços.

Assim, as decisões de política monetária passam a ser informadas por avaliações de que o emprego está abaixo do seu nível máximo, e não por “desvios” em relação ao nível máximo.

Novamente, trata-se de introduzir uma assimetria em relação à forma tradicional de a política monetária reagir ao mercado de trabalho. Emprego desaquecido pode indicar corte de juros (embora, atualmente, com a taxa básica de praticamente zero, não há muito o que cortar, a não ser que se decidisse ir para o território nominal negativo), mas emprego aquecido não significa alta da taxa básica de agora em diante.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/8/2020, quinta-feira.