A produtividade no pós-pandemia

Pesquisa da McKinsey indica que, como ocorreu depois da segunda guerra, as dificuldades da pandemia podem ter empurrado empresas a adotarem inovações que, se forem disseminadas, podem levar à aceleração da produtividade.

Fernando Dantas

03 de maio de 2021 | 21h08

A retomada da economia global pós-pandemia tem aspectos cíclicos – a reabertura do setor de serviços somada a megaimpulsos fiscais, como no Estados Unidos – mas também pode envolver mudanças mais estruturais ligadas a avanços de produtividade.

Segundo artigo publicado hoje no site VoxEU, do think tank europeu Centro para Pesquisa de Política Econômica (CEPR, na sigla em inglês), há evidências de que a pandemia induziu empresas a adotarem processos inovadores que já eram possíveis, mas grandemente subutilizados antes da Covid-19.

Segundo os autores do trabalho – Hans-Helmut Kotz, economista de Harvard e da Universidade Goethe, em Frankfurt; e Jan Mischke e Sven Smit, do Instituto Global McKinsey –, “essas melhoras há muito tempo devidas na forma como as empresas operam podem render um substancial dividendo de produtividade, trazendo a esperança de uma nova fase de dinamismo econômico depois que as economistas reabrirem”.

Eles notam que o economista Robert Gordon identificou um processo desse tipo depois da segunda guerra mundial. A ideia é que a pressão de circunstâncias muito difíceis, como guerra ou pandemia, faz com que uma perene tendência histórica de resistir a fazer as coisas de forma diferente dá lugar a um comportamento mais ousado por parte das empresas.

Segundo recém-divulgada pesquisa do Instituto Global McKinsey, abrangendo oito setores econômicos na América do Norte e Europa, há potencial para se acelerar o crescimento anual da produtividade em 1 ponto porcentual por ano até 2024, o que seria o dobro da velocidade registrada após a crise financeira global de 2008-2009.

Isso resultaria num aumento de renda per capita nos países avançados até 2024 que iria de US$ 1,5 mil na Espanha a US$ 3,5 mil nos Estados Unidos.

As duas condições para que isso ocorra são que essa adoção de processos mais produtivos se espalhe rapidamente para um grande número de empresas e que a demanda seja robusta.

De acordo com a pesquisa, os setores em que há maiores ganhos de produtividade a serem colhidos, chegando a 2% ao ano, são em saúde, construção, tecnologia da informação e comunicação (ICT, na sigla em inglês) e varejo.

Dentre as principais tecnologias inovadoras que foram estimuladas pela pandemia, os autores citam digitalização, robótica e o uso de processos de controle com base em algoritmos.

Outra pesquisa do Instituto Global McKinsey, de outubro de 2020, mostrou que a pandemia levou empresas a digitalizar atividades num ritmo de 20 a 25 vezes mais rápido do que elas consideravam possível antes da Covid-19.

Na saúde, um dos maiores avanços impulsionados pela pandemia foi o da telemedicina, que pode chegar a 20% de todos os atendimentos médicos, segundo especialistas. Já em termos de varejo, nos dois primeiros meses da Covid nos Estados Unidos as vendas online saltaram de 16% para 33%. A previsão pré-pandemia é de que só atingiram 25% em 2024.

Levantamento da McKinsey de 2020 mostrou que 75% das empresas dos Estados Unidos consultadas esperavam acelerar substancialmente o investimento em novas tecnologias entre 2020 e 2024, comparado a 55% que afirmaram ter feito isso entre 2014 e 2019.

Um obstáculo que pode impedir o aumento geral de produtividade visualizado pelos autores é que a onda de inovações produzida durante a pandemia não se propague para um número maior de setores da economia.

E eles citam estudo indicando que, efetivamente, até o terceiro trimestre de 2020, os avanços pareciam estar concentrados no grupo de 10% das maiores empresas em termos de faturamento e lucro. Eles dizem que a questão do grau de disseminação ainda não está definido.

Os autores estão um pouco mais otimistas quanto aos Estados Unidos nesse quesito (comparado com a Europa), porque a participação das grandes empresas, em que se concentrou a inovação da pandemia, na economia norte-americana é maior. E nos Estados Unidos também houve uma aceleração da criação de novos negócios na pandemia, com o efeito contrário ocorrendo na Europa meridional.

Também em relação à outra condição para que a onda de inovação se transforme em aumento consistente de produtividade, a de que haja forte demanda, a situação dos Estados Unidos, com os trilionários pacotes fiscais de Joe Biden, parece melhor que a da Europa, segundo o trabalho.

Há um ponto, contudo, em que pode haver um freio proveniente das próprias inovações. As pesquisas setoriais da McKinsey indicam que 60% dos ganhos potenciais de produtividade derivam de empresas tentando cortar custos laborais e de produção por meio, por exemplo, da automação. O que, ao reduzir o emprego, pode atingir a demanda.

Resumidamente, os autores enxergam um papel para o governo no pós-pandemia de incentivo à inovação e de impulsionador da demanda. O que está em linha com a visão de um maior papel do Estado na economia que ficou patente nos planos econômicos de Joe Biden.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/5/2021, segunda-feira.