A resiliência da polarização

Espaço para terceira via parece cada vez menor, e depende de que algum candidato se torne competitivo o suficiente para tirar votos antibolsonaristas de Lula e votos antilulistas de Bolsonaro.

Fernando Dantas

15 de fevereiro de 2022 | 22h54

A impressão geral é de que o espaço para a “terceira via” nas eleições presidenciais deste ano fica menor a cada dia que passa. É verdade que ainda faltam sete meses e meio para o primeiro turno e a campanha oficial está longe de começar. Ainda assim, a aposta num segundo turno entre Bolsonaro e Lula, com vitória do segundo, só faz crescer.

Para Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, existe hoje no Brasil o que chama de “resiliência da polarização”.

Em outras palavras, está difícil algum outro candidato se estabelecer como alternativa factível diante do campo magnético criado por Bolsonaro e Lula.

Cortez vê razões estruturais e conjunturais para a polarização.

As primeiras têm a ver com o arcabouço institucional político, com eleições nacionais e conjuntas para a presidência e Câmaras federal e estaduais; com voto majoritário e em dois turnos para presidente; e com financiamento partidário público proporcional ao resultado da última eleição.

É, a seu ver, um sistema que restringe o número de candidaturas potencialmente competitivas para a presidência por diversas razões. O caráter nacional e coordenado com os Estados e os recursos públicos proporcionais ao desempenho passado reforçam o status quo da política na eleição.

O sistema de dois turnos, observa Cortez, funciona bem quando gera um máximo de três candidaturas fortes. Mas a terceira depende da força e da competência dos postulantes para surgir.

Tal como se dá a eleição presidencial brasileira, há uma tendência ao afunilamento de candidaturas competitivas, pela possibilidade de voto útil do eleitor no primeiro turno e também porque os próprios partidos muitas vezes não querem disputar a presidência com candidato próprio se tiverem muito pouca chance.

No segundo caso, recursos públicos que poderiam reforçar campanhas para governos estaduais e Câmaras Federal e estaduais seriam desperdiçados num azarão para a presidência sem possibilidade de ganhar. E há interesses de caciques regionais em jogo, como o apoio de Renan Calheiros a Lula, que vai contra uma eventual candidatura de Simone Tebet à presidência pelo PMDB.

Assim, diferentemente do que ocorre em eleições presidenciais mais fragmentadas, em que as preferências dos eleitores circulam entre um número maior de candidaturas potencialmente competitivas por mais tempo, num pleito como o do Brasil seria muito importante que as forças em busca da “terceira via” coordenassem entre si uma candidatura comum. Sem isso, é bem possível que os votos se dispersem em níveis não competitivos entre os diversos candidatos.

É interessante que, justamente nesse ponto, a análise de Cortez difere daquela realizada por Carlos Pereira, cientista político da Ebape-FGV. Pereira considera que os próprios eleitores da terceira via tenderão a fazer uma escolha estratégica ainda no primeiro turno, votando no candidato com mais condição de tirar Bolsonaro do segundo turno.

O pesquisador da Ebape frisa que vê Lula com forte favoritismo. Mas ele prevê que os eleitores de candidatos de terceira via, como Moro e Doria – mesmo Ciro, ou até eventualmente uma entrada surpresa no certame eleitoral, como Joaquim Barbosa – até maio ou junho tenderão a despejar seus votos em quem dentre esses nomes esteja na frente e com mais chance de ultrapassar Bolsonaro.

Pereira vê potencial de eleitores de Bolsonaro mais antipetistas do que bolsonaristas também migrarem para um terceiro nome quando perceberem que o atual presidente não tem chance de bater Lula no segundo turno. Mesmo entre os que dizem hoje que votarão em Lula há, para o cientista político, um contingente que vai além da base lulopetista tradicional, sendo mais antibolsonarista do que petista, e que poderia também migrar para uma terceira candidatura que se tornasse competitiva.

Aí, porém, reside a dificuldade, para Pereira. Mesmo que algum candidato de terceira via cresça, não é certo que tire Bolsonaro do segundo turno. E se o atual presidente for ao segundo turno com Lula, vai perder, na visão do pesquisador.

O cientista político da Ebape aponta como melhor estratégia para o candidato de terceira via a de tentar ser, na verdade, “a segunda via”. Isto significa substituir Bolsonaro como um dos polos da política, caracterizando o atual presidente como alguém que traiu suas bandeiras anticorrupção (aderiu ao Centrão) e liberal (não privatizou nada), além de fazer péssima gestão da pandemia e ameaçar as instituições democrática.

Curiosamente, Pereira não vê como necessário que os candidatos de terceira via concentrem fogo em Lula, que já será atingido pela campanha negativa do próprio Bolsonaro.

Mas é aí que se encaixam os fatores conjunturais da “resiliência da polarização”, apontados por Cortez, da Tendências (o colunista não se esqueceu deles).

O analista político observa que os dois candidatos principais da terceira via pela centrodireita apoiaram Bolsonaro, seja eleitoralmente, no caso de Doria, seja até participando do governo, no caso de Moro. Dessa forma, fica mais difícil montarem um discurso antibolsonarista eficaz e coerente.

Outro fator, finalmente, que reforça a polarização, segundo Cortez, é o fato de que Lula e Bolsonaro são nomes extremamente fortes e conhecidos na política brasileira, uma disputa entre dois ocupantes da presidência – o que por si só ofusca a presença eleitoral de outros candidatos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/02/2022, terça-feira.