A resiliência do populismo de direita

O favoritismo de Lula nas eleições não deve servir para tapar o sol com a peneira: a extrema-direita segue forte no Brasil e no mundo.

Fernando Dantas

13 de abril de 2022 | 22h06

O segundo turno da eleição presidencial francesa em 24/4, domingo, entre o atual presidente, Emannuel Macron, e Marine Le Pen –  no qual a candidata de extrema-direita pode ter uma parcela bem maior dos votos do que os 34% obtidos no embate entre os mesmos dois oponentes em 2017 – é um claro sinal de que a onda de populismo de direita no mundo ainda tem muito fôlego.

Com as pesquisas de opinião indicando um placar bem mais apertado do que o de 2017, quando Macron venceu com 66% dos votos, não é de descartar, inclusive, uma vitória de Le Pen, embora o atual presidente francês esteja na frente e seja o favorito.

Nos Estados Unidos, apesar de derrotado nas urnas, o ex-presidente Donald Trump continua dando as cartas no Partido Republicano, podendo vir a se recandidatar em 2024. Enquanto isso, Joe Biden amarga baixos índices de popularidade, com o risco de os Democratas perderem a maioria nas Casas do Congresso nas eleições parlamentares em novembro deste ano.

A invasão da Ucrânia pela Rússia também indica a força da agenda nacionalista e conservadora no Leste da Europa. Da parte russa, não há a menor dúvida de que Putin encarna o ideário de extrema-direita, a ponto de ter relações cordiais e às vezes cooperativas com essas forças nos países ocidentais.

O presidente da Rússia busca justificar a sua brutal e mortífera agressão ao país vizinho com o argumento de que “nazistas dominam o governo da Ucrânia”, o que é propaganda totalmente mentirosa e ridícula.

Ainda assim, como mostra longa e instrutiva entrevista recente do sociólogo ucraniano Volodymyr Ishchenko à publicação britânica New Left Review, o nacionalismo e a tentação do autoritarismo são também tendências presentes na política ucraniana – não poupando nem mesmo o atual presidente, Volodymyr Zelensky – antes e depois da “Revolução Maidan” de 2013/14.

Dois dos principais países da Europa Oriental, com posições quase opostas no atual conflito na região – a Polônia do presidente Andrzej Duda, firmemente do lado da Ucrânia, e a Hungria do primeiro ministro Viktor Orbán, numa espécie de neutralidade com sabor pró-Rússia –, têm em comum governos populistas de direita. No caso polonês, a ponto de o país ter um sério contencioso com a União Europeia (UE) sobre alegadas violações da democracia.

Na América Latina, a esquerda tem reagido de forma relevante recentemente, sendo a mais significativa conquista a vitória de Gabriel Boric no Chile em dezembro do ano passado.

Mas a direita populista não está, nem de longe, definitivamente derrotada como protagonista política na região. No Peru, por exemplo, o populismo de esquerda derrotou o populismo de direita por margem mínima em abril do ano passado, com o triunfo de Pedro Castillo, atual presidente, sobre Keiko Fujimori.

Castillo, entretanto, vem fazendo um governo caótico, com tentativa de impeachment, impopularidade nas alturas e uma maioria a favor de sua renúncia, pedida em protestos nas ruas. Naturalmente, Keiko Fujimori, arqui-adversária do atual presidente, só tem a ganhar com isso.

Mesmo no Chile, os 44% de votos dados a Kast no segundo turno são significativos, levando em conta que o candidato derrotado, embora não exatamente um populista, encarnava um discurso de direita quase que ineditamente duro no período pós-democratização no país, incluindo a defesa do detestado ditador Augusto Pinochet.

Outros exemplos da vitalidade da direita populista na América Latina são o do atual presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que encarna o figurino, e o sucesso da já lançada candidatura do “libertário” Javier Milei – defensor de um coquetel ideológico extravagante, mas com marca indiscutível de radicalismo de direita – para as eleições presidenciais de 2023 na Argentina.

E, finalmente, há o caso brasileiro. Embora o amplo favoritismo de Lula para as eleições deste ano possa dar a impressão de uma renascida hegemonia da esquerda, chama a atenção que, após um governo absolutamente desastroso – seja por demérito próprio, seja pela contingência do estrago econômico da pandemia –, Bolsonaro ainda seja competitivo e, segundo algumas avaliações, possa até estar reagindo.

A resiliência da direita populista, no Brasil e no mundo, é evidentemente um fenômeno complexo, de múltiplas e interconectadas causas.

No entanto, tanto para a esquerda quanto para o centro liberal, seus maiores adversários, algumas lições já são evidentes, e têm a ver com ilusões nutridas pelas elites, econômica ou culturais, insuladas em suas bolhas cognitivas.

Em relação aos liberais, fica claro que as reformas pró-mercado, mesmo que necessárias, são frequentemente impopulares, exigem enorme e competente esforço de convencimento da sociedade e não podem ser perseguidas apenas por “dixit” tecnocrático.

Mas não se pode cair tampouco na armadilha contrária de ignorar os limites macroeconômicos, porque o resultado pode ser inflação, terrivelmente corrosiva para a popularidade de qualquer governo, como os democratas nos Estados Unidos estão redescobrindo.

Dessa forma, a pauta econômica tem que buscar uma sintonia difícil não só entre eficiência e equidade, mas também entre o tecnicamente desejável, o tecnicamente necessário e o politicamente possível.

Pela esquerda, é preciso entender que a mentalidade da maioria silenciosa não muda na velocidade das modas – mesmo que plenamente justificadas – intelectuais. Assim, em temas de comportamento, valores, religião etc., é preciso encontrar um fino equilíbrio entre respeitar certo conservadorismo da maioria sem recair em posturas reacionárias ou abrir mão dos valores da democracia e dos direitos humanos.

É dos erros dos seus adversários, frequentemente derivados de uma visão elitista do mundo, que a direita populista se alimenta no conturbado cenário político global contemporâneo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/4/2022, quarta-feira.