A retomada da indústria e as incertezas

Produção industrial de julho foi bom sinal sobre recuperação brasileira, mas desempenho da economia em 2021 ainda depende de imponderáveis, como o timing da vacinação e o que as pessoas farão com a poupança acumulada este ano. Conversei com Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco.

Fernando Dantas

04 de setembro de 2020 | 11h11

A produção industrial de julho, divulgada na quinta-feira, 3/9, foi mais uma boa notícia sobre a retomada, e mais uma confirmação de que a recuperação se dá em duas marchas diferentes: varejo, construção e indústria, em boa velocidade; serviços, bem lentamente.

O resultado da indústria em julho ficou perto ou exatamente no teto da estimativas de mercado nos dois tipos de comparação: ante junho, com ajuste sazonal, e ante julho do ano passado. No primeiro caso, cresceu 8% (o teto era 8,4%) e, no segundo, caiu 3%, precisamente a melhor estimativa do mercado, segundo o Projeções Broadcast.

O bom resultado espraiou-se pelos diferentes setores e subsetores da indústria, e pelas chamadas “categorias de uso”: bens de capital, intermediários e de consumo (duráveis e semiduráveis).

Os insumos típicos da construção civil cresceram 3,3% em relação a julho do ano passado, indicando veloz normalização do setor.

“O dado [da produção industrial de julho] foi superbom em todos os aspectos”, sintetiza Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco.

Ele aproveita para retomar o resultado do PIB do segundo trimestre divulgado em 3/9, e que veio algo abaixo das expectativas do mercado.

“O PIB veio pior, mas não mudamos nem um milímetro nossa projeção [de queda de 4,5% em 2020]”, acrescenta Barbosa. A produção industrial de julho reforça essa posição.

Em relação ao PIB, o economista nota que a queda foi muito concentrada em abril, com indicadores proprietários (não divulgados publicamente) do Bradesco indicando reação a partir de maio.

E há questões metodológicas na mensuração do PIB, em plena fase de quarentena, em setores de serviços. A educação infantil, por exemplo, pode em tese ter ido a zero com o fechamento das escolas. É um tipo de efeito que pode ter reduzido o PIB sem necessariamente significar um dinâmica negativa duradoura na economia.

Barbosa frisa que não está apontando qual foi a metodologia específica no exemplo acima, e muito menos criticando (ele pensa que provavelmente o IBGE fez o melhor, nas circunstâncias). Ele apenas indica fatores que o fazem não ler o resultado do PIB do segundo trimestre com pessimismo.

O economista acrescenta que o nível de utilização da capacidade instalada da indústria (NUCI) da FGV já voltou ao nível pré-crise, e que o emprego formal está indo bem, segundo os dados do Caged. Na PNAD Contínua, esse resultado do trabalho formal é pior, mas Barbosa nota que “em geral é a PNADC que converge para o Caged, e não o contrário”.

Até certo ponto, o emprego formal, em que protocolos mais rígidos podem ser estabelecidos para prevenir o contágio da Covid-19, tem condição melhor de voltar neste ponto da pandemia.

No caso do trabalho informal, o economista aponta que o forte desalento está associado ao grande números de pessoas em casa pelo medo do contágio. O auxílio emergencial ajuda esse contingente a manter, ao menos parcialmente, o consumo.

Timing da vacina é decisivo

E aqui entra uma questão decisiva, que é o timing da vacinação contra o coronavírus no Brasil. Quando isso ocorrer, muitas pessoas vão voltar às suas atividades, especialmente no segmento informal. Nesse sentido, o fim do auxílio emergencial pode ser compensado pela volta da renda do trabalho.

Supondo que o auxílio emergencial se extinga a partir do início do ano que vem, faz muita diferença uma vacinação, por exemplo, em fevereiro, em que as duas fontes de renda – auxílio e renda do trabalho – quase se emendam, ou a vacina, digamos, em maio, que possivelmente provocaria um tombo mais contundente no consumo.

O exemplo é do colunista. Barbosa diz apenas que espera a vacinação “no primeiro semestre”, e mesmo essa afirmação não significa certeza.

Outro ponto de interrogação importante para definir os rumos da economia em 2021, segundo o economista-chefe do Bradesco, é o que ocorrerá em função da poupança acumulada este ano, durante o qual o consumo deve cair, mas a renda total (incluindo benefícios) está projetada para subir.

Uma hipótese é que muitas pessoas desfaçam total ou parcialmente esse acúmulo atípico de poupança, gastando mais no ano que vem, o que seria mais um estímulo à demanda.

“Não é óbvio que o fim do auxílio emergencial levará ao colapso da demanda, porque tudo vai depender dessa equação em que entram fatores como o timing da vacina e o que vai acontecer com essa poupança”, diz Barbosa.

Ele frisa que a equação é, efetivamente, incerta. Por enquanto, calibrando os diversos fatores, o Bradesco projeta crescimento de 3,5% em 2021 “sem viés”, isto é, o economista considera que a previsão está bem equilibrada.

Um gestor de recursos no Rio considera que os últimos indicadores econômicos, como o PIB do 2º tri e a produção industrial de julho, indicam que a síndrome da “economia em duas marchas” está se aprofundando.

Não é que os serviços não estejam tendo nenhuma retomada, mas sim que ela é muito mais lenta do que a do comércio, indústria e construção.

Diante desse quadro, o gestor traça duas “histórias”.

A primeira, mais pessimista, é de que setores que estão indo bem e se beneficiando do auxílio emergencial, especialmente varejo e construção, vão sofrer com o fim do auxílio emergencial. Quando isso ocorrer, com os serviços rodando a um ritmo muito mais lento pela persistência da pandemia, a economia toda vai sofrer.

A história otimista é que os setores que vão bem já ganharam alguma tração, e os serviços vão andar mais rápido à medida que a pandemia, mesmo sem acabar, vá diminuindo de ritmo (desde um pico na última semana de julho, a média semanal dos óbitos divulgados diariamente caiu cerca de 20%).

Esse cenário é reforçado se houver uma vacinação mais para o início do ano que vem, e se a poupança extra de 2020 for “desrepresada” em 2021. Em suma, a reabertura da economia, especialmente dos serviços, ocuparia o lugar do auxílio emergencial como motor da demanda.

A análise, como se vê, é semelhante à de Barbosa, inclusive pela ênfase na incerteza e no papel decisivo do timing da vacina. Ambos, é claro, trabalham com o cenário de que não haverá loucura fiscal.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/9/2020, quinta-feira.