ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

A retomada e as reformas

Durante seminário de perspectivas Ibre-Estadão do quarto trimestre, realizado ontem (12/12), na FGV de São Paulo, analistas foram otimistas sobre momento econômico e céticos sobre capacidade política do governo.

Fernando Dantas

13 de dezembro de 2019 | 19h53

O seminário de perspectivas Ibre-Estadão do quarto trimestre, realizado ontem (12/12) de manhã na FGV de São Paulo, indicou alguns pontos de quase consenso entre os diversos participantes.

O Brasil engrenou uma retomada cíclica que deve garantir um crescimento de 2% a 2,5% (ou levemente mais pós 2020) até a eleição de 2022, salvo acidentes de percurso que poderiam vir de duas áreas: piora do cenário externo ou alguma crise política mais séria do governo Bolsonaro, para cuja possibilidade contribui o temperamento imprevisível, polarizador e agressivo do próprio presidente e de seu círculo íntimo.

Nenhum dos debatedores considerou esses ricos iminentes ou muito prováveis. Mas são sombras que se projetam sobre o cenário.

No caso do cenário externo, associado à saúde da economia americana e à guerra comercial entre Estados Unidos e China, Samuel Pessoa, pesquisador associado do Ibre, viu alguma distensão nos últimos meses. Os economistas do Ibre Silvia Matos e Bráulio Borges, no entanto, consideraram que o comunicado do Copom de ontem talvez tenha sido muito suave em relação ao risco externo.

Outro ponto consensual no seminário foi o de que as perspectivas de avanço da agenda de reformas econômicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, no segundo ano de mandato de Bolsonaro não são promissoras.

Houve uma discussão pormenorizada sobre reformas específicas e fraquezas específicas da articulação política do governo, que poderia ser resumida em alguns poucos pontos.

O que passar deve depender mais da ação de lideranças do Congresso, como Rodrigo Maia, presidente da Câmara, do que das iniciativas do Executivo. Uma pauta mínima de prioridades fiscais muito urgentes tem chances porque, nas palavras de Claudio Couto, cientista político da FGV/EAESP, “a ninguém interessa promover o caos”. Medidas impopulares ou que atinjam grupos de interesse poderosos terão mais dificuldade num ano eleitoral.

Pessoa vê chances de aprovação de algum gatilho de medidas de contenção de despesas (relativo ao teto de gastos e/ou à regra de ouro) e talvez a inclusão de Estados e municípios na reforma da Previdência, mas não muito mais.

É esse cenário previsto de minimalismo reformista – contrabalançado pela aprovação da reforma da Previdência e pelos avanços contínuos e ainda em curso da gestão fiscal e monetária e da pauta microeconômica nos últimos anos – que deságua na prevista retomada cíclica. Mas fica aquém do lançamento de um novo ciclo de crescimento sustentado e mais acelerado, que exigiria sucesso numa pauta reformista ambiciosa.

Um ciclo deste último tipo necessitaria da ação de um Executivo funcional e politicamente eficaz, e é isto que nenhum participante dos dois painéis do debate (o primeiro mais econômico, o segundo mais político) enxerga no governo Bolsonaro.

Couto, da EAESP, que participou do painel político ressaltou o caráter fortemente singular da presidência de Jair Bolsonaro.

Segundo o pesquisador, o presidente não é um “outsider”, mas sim uma personalidade “marginal” ao sistema político, no sentido de que, na sua longa carreira parlamentar, nunca se destacou nem no contexto do baixo clero.

Essa característica ajudou Bolsonaro, presidente de um extremismo político sem paralelo na história brasileira, na visão de Couto, a se vender como candidato “antissistema”. No entanto, essas inclinações levaram-no, no governo, a rejeitar a formação de uma maioria parlamentar formal.

Seu próprio partido, o PSL, esfarelou-se com a ajuda do presidente, que partiu para formar uma nova agremiação, a Aliança pelo Brasil.

É um projeto bizarro, na visão do analista, quando se sabe que há um risco considerável de que o partido não esteja pronto para disputar as eleições municipais do próximo ano. Neste caso, viver-se-á a situação inédita na democracia brasileira de uma eleição sem partido do governo.

Em resumo, a atuação do governo é tão insólita que, de acordo com Couto, qualquer projeção com base nos padrões tradicionais da vida política brasileira é arriscada.

Daí chega-se nas chances de reeleição de Bolsonaro em 2022. A discussão seria precipitada se o próprio presidente já não tivesse lançado a sua recandidatura e iniciado informalmente a campanha.

Há inicialmente um aspecto econômico nessa questão, sobre o qual Pessoa e o economista Fernando Veloso, pesquisador do Ibre, apresentaram visões diferentes: um crescimento de 2,5% ou ligeiramente maior, de 2020 até 2022, reelege o presidente?

Pessoa, ressalvando que é apenas um palpite, acha bem possível, especialmente num contexto polarizado de um segundo turno entre Bolsonaro e um candidato petista. O desemprego ainda estará alto, porque muita gente vai entrar na força de trabalho, mas o emprego terá crescido bastante. Depois de uma recessão com queda de mais de 6% do PIB e três anos de recuperação anêmica a um ritmo de pouco mais de 1% ao ano, a retomada econômica já contratada poderia reeleger o presidente.

Veloso é mais cético. Além da fraqueza do mercado de trabalho, ele nota que o clima de polarização política extrema insuflado por Bolsonaro aumenta a incerteza (como registrado no índice de incerteza da FGV), o que trava o investimento. Isso, por sua vez, vai limitar a melhora da economia e da sensação de bem-estar da população.

Couto, o participante mais equipado academicamente para fazer uma previsão desse tipo, também  é cauteloso em relação ao favoritismo de Bolsonaro em 2022.

A razão para isso volta a um ponto bastante repisado pelo cientista político durante o debate. Bolsonaro é capaz de criar crises e comoções que não estão no mapa dos analistas. Dessa forma, os eventos econômicos e políticos até 2022 e as interações entre estas duas esferas podem reservar enormes surpresas.

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