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A revolta contra as elites

Maior risco para o Brasil da onda de populismo de direita no mundo rico é o de aumento do protecionismo, no momento em que o País deveria tentar um nova rodada de abertura comercial e integração internacional.

Fernando Dantas

28 Julho 2016 | 10h57

Um dos fenômenos característicos da nossa era é a revolta contra as elites no mundo desenvolvido, que está dando margem ao crescimento do populismo de direita. O tema é frequente e quase obsessivo entre os comentaristas mais prestigiados dos países ricos, sejam colunistas dos principais órgãos de imprensa, sejam intelectuais se manifestando em blogs e na profusão de plataformas da internet.

Existe sempre a conotação irônica de que se trata de representantes da elite intelectual, sofisticada e cosmopolita criticando não só os seus novos inimigos, como Donald Trump, mas também o comportamento desta própria elite – da qual fazem parte –, que teria aberto o caminho para a ascensão do populismo.

Os dois eventos recentes mais emblemáticos dessa revolta contra as elites são o Brexit, o voto britânico pela saída da União Europeia, e a ascensão de Trump como candidato com chances de se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos. Trump, evidentemente, nasceu em berço de ouro e teve todas as oportunidades e privilégios da elite, mas é um ator político que consegue se comunicar como poucos com a maioria branca ressentida que se sente excluída do círculo privilegiado. Outra manifestação deste gênero de populismo está no crescimento da extrema-direita na Europa, exemplificada pelas chances reais de Marine Le Pen nas eleições presidenciais francesas de 2017.

Há certo consenso de que o populismo de direita, assim como o crescimento de partidos de extrema-esquerda em alguns países europeus, está ligado à crescente desigualdade nas nações ricas, fenômeno que se exacerbou – pelo menos na percepção pública – a partir da grande crise de 2008 e 2009, que deixou patente o que seria a irresponsabilidade e a ganância do chamado “1%”.

Existe uma grande discussão sobre o aumento da desigualdade no mundo desenvolvido, e não foi à toa que o livro “O Capital no Século XXI”, do economista francês Thomas Piketty, tornou-se uma das maiores sensações editoriais da atual década. Entretanto, mais que as teorias de Piketty sobre o efeito concentrador da maior taxa de retorno do capital em relação ao crescimento econômico (e, portanto, à renda do trabalho), outras ideias têm estado mais em foco para explicar a desigualdade nos países ricos: a pressão competitiva sobre a classe trabalhadora do mundo desenvolvido exercida pelos baixos salários do mundo emergente, especialmente asiático; e certas características tecnológicas e mercadológicas do capitalismo avançado, como a de remunerar cada vez melhor e mais agressivamente os talentos excepcionais – um traço capturado na expressão “winner takes all”, ou “o vencedor leva tudo”.

Paralelamente, ocorrem grandes movimentos migratórios dos países pobres e de renda média para o mundo desenvolvido, turbinados pela turbulência geopolítica e religiosa no Oriente Médio e partes da África e da Ásia Meridional. Estas ondas migratórias aparecem para a maioria etnicamente europeia nos países ricos, mas excluída da elite cosmopolita, como uma desvalorização e uma ameaça ao que é percebido como seu valioso patrimônio histórico: a cidadania de uma nação desenvolvida e o acesso a empregos de qualificação média ou baixa bem remunerados. Neste ambiente, cresce a aversão aos imigrantes, que muitas vezes toca no racismo explícito, e que é explorada pelo populismo de direita.

Evidentemente, nos Estados Unidos a pressão migratória principal vem do México e de outros países latino-americanos. No contexto global, entretanto, incluindo a América do Norte, o chauvinismo vem sendo particularmente fortalecido pelo padrão cada vez mais mortífero, alucinado e niilista do terrorismo de grupos e indivíduos que se intitulam islâmicos.

Curiosamente, na América Latina assiste-se hoje a um recuo do populismo de esquerda em países como Brasil, Argentina e mesmo Venezuela, onde o chavismo ainda está no poder, mas em estado aparentemente terminal. É uma boa questão para os cientistas políticos a de especular se, seguindo a onda do mundo desenvolvido, a maré na América Latina pode pender também para o populismo de direita, como representado, por exemplo, por Keiko Fujimori, derrotada por uma margem ínfima de votos por Pedro Pablo Kuczynski na recente eleição presidencial peruana.

De qualquer forma, o risco mais evidente para o Brasil da “revolta contra as elites” no Norte rico é uma onda adicional e mais potente de protecionismo, liderada pelos Estados Unidos, em caso de vitória de Trump. O danoso desvio da política econômica brasileira representado pela “nova matriz” também significou um aprofundamento do protecionismo em termos de políticas comerciais e industriais.

Agora, com a guinada liberal e ortodoxa iniciada com Joaquim Levy na Fazenda, e reforçada com Henrique Meirelles, seria um momento adequado para uma nova rodada de abertura comercial e de integração internacional da economia brasileira. Será um azar se esta oportunidade ocorrer exatamente num momento em que o resto do mundo resolve se fechar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/7/16, quarta-feira.