A Selic e a Previdência

Ata da reunião do Copom de abril indica que BC está mais preocupado com a reforma da Previdência e que este pode ser um fator decisivo para o Copom acelerar ou não o ritmo de corte da taxa básica de juros.

Fernando Dantas

18 de abril de 2017 | 23h33

No importante parágrafo 22 da ata da reunião do Copom de abril, menciona-se de início que o trecho trata do “grau de antecipação do ciclo desejado”. Em seguida, afirma-se que “a evolução da conjuntura econômica já permitiria uma intensificação do ritmo de flexibilização monetária maior do que a decidida nessa reunião”.

Se permitia, por que não foi feito? A resposta está no último período do parágrafo, que menciona “incertezas e fatores de risco que ainda pairam sobre a economia”. Só que, aparentemente já estendendo a explicação da não aceleração no Copom de abril para as próximas reuniões, o mesmo trecho termina dizendo que a continuidade das incertezas e dos fatores de risco tornaria a manutenção do ritmo (isto é, de corte de 1 ponto porcentual) “mais adequada”.

O uso do futuro do pretérito nesse caso (“tornaria”), um tempo verbal ligado a incertezas e condicionamento, pode sugerir que o Copom quer dizer que a aceleração do ritmo depende da redução da incerteza – e aí com muita probabilidade o que está em jogo é a aprovação de uma reforma da Previdência aceitável em maio na primeira votação na Câmara.

Sérgio Vale, economista da MB Associados considera de fato que a principal incerteza é a reforma da Previdência. Sintomaticamente, saiu da ata de abril, na comparação com a de fevereiro, o trecho em que o Copom afirmava que “o processo de aprovação das reformas fiscais tem sido positivo”.

Assim, da mesma forma que o mercado, o BC deve estar enxergando um cenário mais complicado para a reforma da Previdência. Isto pode ser dividido em dois componentes. Se for aprovada, a reforma pode incluir diferentes níveis de recuo em  relação às economias fiscais planejadas no texto original. O segundo é a possibilidade de que a reforma simplesmente não seja aprovada, o que ainda é considerado remoto pelos analistas, mas não pode ser sumariamente descartado.

Para Vale, “se não fosse essa questão fiscal tão premente, o Copom não se eximiria em acelerar o processo de redução da Selic”.  Evidentemente, a megadenúncia da Odebrecht, que atinge várias figuras de proa do governo e o próprio presidente Michel Temer, complicam ainda mais o cenário político e, em consequência, o prognóstico de aprovação da reforma da Previdência.

A Previdência também é importante para determinar a taxa de juros estrutural brasileira, que baliza até onde irá o atual ciclo de cortes (é possível em tese ir até abaixo do juro neutro, se houver intenção de estimular a demanda – ainda assim, o juro neutro é o referencial).

Roberto Padovani, economista-chefe da corretora Votorantim, destaca três pontos importantes na ata da reunião de abril. O primeiro é que, no curto prazo, isto é, levando-se em conta a inflação de 2017, o BC vê espaço para aumentar o ritmo dos cortes. “Os investidores vão manter as portas abertas para essa possibilidade”, diz o analista.

Mas ele considera que o Copom está menos seguro em relação a 2018 e ao médio prazo, pelos riscos que emanam do cenário externo e interno – neste segundo caso, claro, o fator decisivo é a aprovação de reformas, especialmente a da Previdência. Um terceiro ponto destacado por Padovani é a insistência do BC em indicar que uma aceleração do ritmo de cortes é uma antecipação da duração do ciclo, e não um aumento da sua extensão (a extensão, como já mencionado, depende da taxa de juros estrutural).

Para Padovani, “o medo do BC é de que o mercado financeiro trabalhe com cenário de juros baixos por muito tempo, o que pode acabar gerando estímulos excessivos e aumentando a insegurança em relação à trajetória da inflação no médio prazo”.

Solange Srour, da gestora ARX, considera que, com a ata, as possibilidades de o BC manter o ritmo de corte de 1 ponto porcentual na próxima reunião ou de aumentá-lo já não são simétricas – a chance de acelerar agora é maior. Segundo a economista, isto deve acontecer porque, mesmo com o alerta do Copom sobre as incertezas, ela prevê uma evolução favorável do cenário para a intensificação dos cortes: inflação e expectativas ainda em queda, incertezas expressivas sobre a recuperação econômica e a reforma da Previdência aprovada no primeiro turno na Câmara com mudanças aceitáveis pelo mercado antes de 30 e 31 de maio, próxima reunião do Copom. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/4/17, terça-feira.