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A Selic e o choque

Escândalo envolvendo Michel Temer afetou a trajetória da taxa básica de juros projetada pelo mercado, mas, por enquanto, não de forma muito dramática.

Fernando Dantas

25 de maio de 2017 | 00h03

A bomba atômica que atingiu em cheio o mercado financeiro nessa quinta-feira (18/5/17) naturalmente afetou as projeções sobre a trajetória da Selic.

Na sua comunicação desde que Ilan Goldfajn assumiu a presidência em meados do ano passado, o BC tem enfatizado o quão importante é a reforma da Previdência para derrubar o juro real neutro da economia, que baliza até quanto a Selic pode cair. Agora, o cenário básico é de que a reforma da Previdência não seja aprovada num horizonte de vários meses, para dizer o mínimo, ou bem possivelmente até o fim do atual mandato presidencial.

Além disso, há a questão de curto prazo. O choque nos mercados em tese poderia levar a duas situações. A primeira, ruim, mas menos temível, é de representar basicamente uma nova pancada numa demanda que mal começa a se reestabelecer após uma das piores recessões da história. Nesse caso, no curto e médio prazo o BC teria a arma do afrouxamento monetário já em andamento para se contrapor ao efeito do choque.

Mesmo que o juro real neutro se elevasse com a saída de cena da reforma da Previdência, o ciclo de corte poderia não mudar tanto, já que o BC talvez fosse levado a compensatoriamente trazer a Selic para um nível mínimo mais abaixo do neutro do que no cenário contrafactual em que o choque não tivesse ocorrido. Mais a longo prazo, o juro real neutro sem reforma da Previdência com certeza afetaria a política monetária. Mas se for para pensar em prazos realmente longos, aí é possível recolocar também a possibilidade de novas conjunturas políticas em que a reforma da Previdência seja retomada.

Em termos de curto prazo, a outra possibilidade, a pior possível para o Banco Central, seria um quadro estagflacionário, em que simultaneamente a demanda sofresse o baque e o dólar disparasse até o ponto em que provocasse novas pressões inflacionárias sérias e desancorasse as expectativas. Neste caso, o BC teria que ser muito mais contido em relação ao corte dos juros, e o País poderia voltar à recessão, em vez de sair dela.

Essa última e mais terrível possibilidade não está muito no radar do mercado por enquanto. A disparada do dólar teria que ser muito extrema para que ocorresse. Segundo estimativas preliminares de Carlos Kawall, do Banco Safra, mesmo na hipótese de que o câmbio feche este ano em R$ 3,5 e 2018 em R$ 3,8, a meta de inflação de 4,5% em ambos os anos poderia ser cumprida considerando-se o seu cenário de Selic, de 8% e 7% ao final de, respectivamente, 2017 e 2018. Contribui para isso o cenário de demanda ainda combalida (que pode ser acentuado pelo choque) e muita capacidade ociosa e desemprego.

Quanto à decisão sobre a Selic no final de maio, Kawall, que projetava corte de 125 pontos base antes dos eventos da quinta-feira, agora vê possibilidade de 100, mas ainda está em dúvida sobre se muda a projeção.

A visão de Kawall é particularmente otimista em relação à trajetória da Selic em face do choque, mas outros analistas ouvidos pela coluna tampouco veem um efeito estagflacionário agudo que interrompesse de vez ou limitasse drasticamente o ciclo de queda da Selic. Em relação à decisão de maio, ainda há muita dúvida, com alguns até falando na possiblidade de desaceleração do ritmo (isto é, 75 pontos ou menos), mas está claro que isto dependerá de como evolua o mercado e a cena política nos 12 dias até lá.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX no Rio, diz que “125 não existe mais”, mas considera que ainda há incerteza demais para definir uma projeção tanto para a reunião de maio quanto para o “orçamento” total de cortes do ciclo. Seu cenário pré-choque é de que a Selic caia para 8% este ano e fique neste nível até o fim de 2018.

Já Alexandre Ázara, economista chefe da gestora Mauá Capital, considera que o mais provável em maio é um corte de 75 pontos base, mas acrescenta que “100 é mais possível que 50”. Em termos do ciclo total, ele considera que a retirada do cenário da reforma da Previdência e de seu efeito redutor sobre o juro real neutro deve fazer com que a Selic atinja um mínimo em torno de 9% ou pouco abaixo, comparado ao nível de 7,5% que previa antes do choque da quinta-feira. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/5/17, sexta-feira.

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