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A sincronia econômica da Covid-19 e o Brasil

Nunca uma recessão global foi tão sincronizada, com projeção pelo Banco Mundial de queda do PIB per capita de 90% do países em 2020. Será que a recuperação também vai ser sincronizada e vai levar junto o Brasil?

Fernando Dantas

09 de junho de 2020 | 19h43

A recessão global causada pela atual pandemia deve ser a quarta mais intensa nos últimos 150 anos (e a mais forte desde a segunda guerra mundial), segundo o ‘box’ “Quão profunda será a recessão da Covid-19?”,  do recém-divulgado “Panorama Global – Pandemia, Recessão: A Economia Global em Crise”, do Banco Mundial.

Porém, em um aspecto, a atual recessão é a pior dos últimos 150 anos: nunca nesse período uma recessão atingiu uma proporção tão grande dos países do mundo. Segundo o estudo, mais de 90% dos países devem experimentar contração do PIB per capita em 2020, o que supera a cifra de 85% no pico da Grande Depressão do início da década de 30.

Essa altíssima sincronização da recessão da Covid-19 também está fazendo com que ela seja particularmente “bem distribuída” entre o mundo avançado e as economias emergentes.

Em ambos os casos, o ano de 2020 deve registrar a maior queda do PIB dos últimos 60 anos: -7% nas nações desenvolvidas, e -2,5% nas emergentes.

Segundo o relatório do Banco Mundial, as economias emergentes devem ter um desempenho em termos de crescimento muito pior nesta recessão (da pandemia) do que na que foi causada pela grande crise financeira de 2008 e 2009 . Uma das razões é que, no atual episódio, esse grupo de países apresenta situação fiscal e das contas externas pior em média, o que significa que tem menos espaço de manobra para políticas anticíclicas.

De qualquer forma, a extrema sincronia da atual recessão também levanta questões sobre como será a retomada.

Será que, da mesma forma como a atividade econômica está desabando no mundo inteiro neste primeiro semestre de 2020 (com o pior momento acontecendo no primeiro ou segundo trimestre, de acordo com a trajetória da pandemia, que começou na Ásia), os processos de retomada também serão sincronizados?

Uma resposta positiva a essa pergunta provavelmente seria uma boa notícia para o Brasil. A retomada na China, em outros países da Ásia, e mesmo em algumas nações na Europa tem surpreendido positivamente em relação às estimativas dos analistas no momento mais pessimista.

Até nos Estados Unidos, em que a pandemia ainda não está controlada, os números do mercado de trabalho de maio surpreenderam fortemente no sentido positivo.

Embora parcela desse resultado seja devida a problemas de classificação de pessoas como parte ou não da força de trabalho, e não à melhora efetiva no front do emprego (como analisado em artigo de Marcel Balassiano e Daniel Duque no Blog do Ibre – ambos são pesquisadores do instituto), ainda assim a surpresa positiva se mantém.

Em relação ao Brasil, a péssima gestão sanitária da pandemia e o turbilhão político constante provocados pelo governo Bolsonaro criaram a impressão de que boa parte da piora do País, refletida no câmbio e no risco, era “produto da casa”.

O forte recuo do dólar, a alta da bolsa e o alívio no risco nos últimos dias, entretanto, são um sinal de quão poderosa é a onda mundial na determinação do que está acontecendo em todos os países, e o Brasil não é nenhuma exceção.

Porém, mesmo se admitindo que o Brasil possa ser “carregado” por uma retomada global pós-pandemia melhor do que a prevista nos momentos mais pessimistas, restam algumas dúvidas bem perturbadoras.

Não há dúvida de que a intensidade do mergulho inicial da atividade econômica, provocado pela pandemia, está diretamente ligada à estratégia sanitária do isolamento social “horizontal”, isto é, de toda a população.

Os países asiáticos e europeus que já superaram a “primeira onda” da Covid-19 fizeram um trabalho no front da saúde pública que efetivamente conteve o vírus.

Agora, com testagem maciça, isolamento vertical de infectados e pessoas por eles contactadas e protocolos de distanciamento e prevenção em ambientes públicos de trabalho e lazer, é possível retomar a atividade econômica sem uma segunda grande onda de Covid-19.

No Brasil, porém, já se iniciou a flexibilização da quarentena sem nenhum sinal de que a pandemia tenha retrocedido, o que é agravado pela tentativa do governo de ocultar os dados da população e dos especialistas.

Se houver uma segunda onda de contaminação forte o suficiente para levar de novo o sistema médico e hospitalar ao colapso, governadores e prefeitos não serão impelidos a decretar novas quarentenas, com novos impactos na economia? Uma parte substancial da população não irá fazer isolamento social espontaneamente, por medo, mesmo que os governos não se mexam?

Assim, embora a retomada relativamente robusta pós-pandemia em alguns países (na Ásia, especialmente) seja positiva para o Brasil, a incompetência do governo e a falta de empenho de parte da população durante a quarenta ainda podem impedir, ou no mínimo atrapalhar, o acoplamento do Brasil à eventual recuperação global.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/6/19, terça-feira.

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