A taxa de participação e o desemprego

Alexandre Ázara, da Modal, analisa efeitos da forte queda da taxa de participação em anos recentes na taxa de desemprego.

Fernando Dantas

05 Maio 2015 | 13h16

Alexandre Ázara, economista-chefe da gestora Modal, fez alguns exercícios para tentar limpar o efeito na evolução do desemprego da forte queda da taxa de participação (população economicamente ativa, PEA, sobre população em idade ativa, PIA), a partir de um pico recente em novembro de 2012, de 57,8%. O mergulho da taxa de participação foi de fato intenso: dois anos após o ponto mencionado, em dezembro de 2014, ela registrou um mínimo de 55,6%. Oscilações mensais da taxa de participação são normais, mas a intensidade do movimento recente superou de longe as variações ocorridas desde pelo menos 2004 (quando se inicia a análise de Ázara).

Depois de testar qual teria sido a evolução da taxa de desemprego da Pesquisa Mensal de Emprego (PME, que abrange as seis principais regiões metropolitanas) em diferentes cenários alternativos de trajetória da taxa de participação, que arbitrou como pertinentes para se pensar contrafactualmente – não houve intenção de fazer um exercício cientificamente rigoroso –, Ázara concluiu que o mercado de trabalho não foi tão bom quanto se pensava nos últimos anos, e agora pode piorar rapidamente, à medida que a taxa de participação se aproxime de um padrão mais próximo do seu histórico.

O economista trabalhou com a taxa de desemprego dessazonalizada que, segundo seus cálculos, alcançou 5,7% em março (o dado oficial sem dessazonalização, divulgado em 28/4/15 (terça-feira) pelo IBGE, é de 6,2%).

Supondo uma taxa de participação constante em 56,8%, o que é um pouco abaixo da média histórica de 57% (Ázara preferiu ser conservador e reduzir um pouco a média histórica), o desemprego dessazonalizado da PME teria atingido um mínimo de 3,9% em novembro de 2012, e, a partir daí, teria subido de forma constante até 7,4% em março de 2015.

Já com a hipótese de uma taxa de participação constante de 56,8% até o fim de 2012, e uma queda permanente para 56,4% daí em diante (para incluir uma hipotética queda estrutural e duradoura que tenha ocorrido neste ponto), a mínima do desemprego ocorre em janeiro de 2013, com 3,4%, com a taxa crescendo a partir deste ponto até chegar a 6,8% em março de 2015.

O economista também calculou a trajetória do desemprego com a média móvel de 18 meses da taxa de participação. Neste caso, a menor taxa de desocupação recente ocorre em maio de 2012, de 4,5% – daí em diante, depois de uma oscilação inicial, o desemprego cresce até 6,2% em março de 2015. Já se utilizando as taxas de participação efetivamente ocorridas, a mínima do desemprego salta à frente algo como um ano e meio a dois em relação às outras medidas, e ocorre em abril de 2014, com 4,6%. A partir daí, cresce até o nível atual (março) de 5,7%.

Ázara deixa claro que nenhuma das trajetórias alternativas da taxa de participação que ele testou corresponde à evolução “correta”, que limparia perfeitamente oscilações transitórias. Ele também não acha que o desemprego muito mais elevado em março de 2015 assinalado por algumas dessas medidas corresponda a um retrato preciso do atual estado do mercado de trabalho.

Na verdade, foi um exercício um tanto arbitrário mas, ainda assim, como observa o economista, “essas três medidas dialogam melhor com o que de fato ocorreu na economia em termos de atividade do que a trajetória do desemprego com a taxa de participação real”. Isto é, com o desemprego crescendo a partir de 2013, as medidas alternativas refletem melhor a desaceleração de fato ocorrida na economia – depois do pico de 2010, o PIB cresceu pouco (com oscilações) nos três primeiros anos do governo Dilma, e em 2014 a economia parou. Agora, em 2015, o crescimento será negativo, agravando o desemprego.

“O que está acontecendo agora é um ajuste, e acho que a taxa de desemprego (dessazonalizada) vai subir rapidamente para 7% nos próximos 12 a 18 meses”, prevê o economista.

José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, e especialista em mercado de trabalho, projeta uma taxa de desemprego (sem dessazonalização) subindo para 7,4% em setembro deste ano.

Também trazendo o foco para a taxa de participação, ele nota que ela está estável neste primeiro trimestre (55,8%, segundo os dados de Ázara), o que significa que a alta do desemprego tem a ver com a queda da taxa de ocupação. “As pessoas estão procurando emprego e não saindo do mercado de trabalho, e assim se tornam desempregadas”, diz Camargo.

As hipóteses sobre a queda nos anos recentes da taxa de participação (que é PEA dividida pelas pessoas em idade de trabalhar) incluem temas como o efeito do FIES, programa de financiamento a estudos universitários e a elevação da renda das famílias desde o início da década passada, o que teoricamente cria menos pressão para que mais membros da família trabalhem. Fatos recentes como um FIES mais restrito e a queda da renda, portanto, podem precipitar uma volta da taxa de participação a níveis mais próximos da média histórica. Por enquanto, porém, como observado acima, houve apenas a estabilização de pouco meses num nível ainda baixo.

Camargo nota que a expressiva queda da renda real do trabalho na PME, concentrada em fevereiro e março, está em boa parte ligada à aceleração inflacionária. Mas a queda também do salário nominal indica que o desaquecimento do mercado de trabalho já está afetando a renda. Um fator adicional que pode influenciar a queda da renda, segundo Camargo, seria que o escândalo da Petrobrás e suas ramificações na cadeia de produção da petroleira podem estar levando desproporcionalmente à demissão de pessoas com qualificação acima da média, o que reduziria a renda média do trabalho. Ele ressalva, entretanto, que não há dados para corroborar essa hipótese. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/4/15, terça-feira.