A transição chinesa e os serviços

Uma corrente de analistas acha que, apesar das turbulências, China prossegue transição para uma economia com maior peso dos serviços, que ainda não são tão acompanhados como os indicadores de indústria e comércio exterior.

Fernando Dantas

26 de agosto de 2015 | 20h29

A corrente de analistas mais otimista em relação à transição da economia chinesa diz que agora é o momento de olhar para o que está acontecendo no setor de serviços do país asiático. Segundo editorial da agência de notícias oficial Xinhua News, que considera “completamente desnecessárias” as preocupações do mercado com a atual crise nas bolsas chinesas, “apesar do fraco desempenho da indústria e do mercado imobiliário, o rápido crescimento do setor de serviços está se tornando o novo ponto alto da economia chinesa”.

O economista Stephen Roach, de Yale, e ex-chairman do Global Stanley na Ásia, nota que está ocorrendo na China “uma transferência estrutural da indústria e da construção para o setor de serviços”. Em 2014, os serviços já eram 48,2% do PIB, comparados a 42,5% do setor secundário, e a mudança continua a ocorrer, já que o ritmo de crescimento de cada setor no primeiro semestre de 2015 foi de, respectivamente, 8,4% e 6,1%.

Esse processo é parte essencial da transição de modelo econômico que as autoridades chinesas vêm tentando empreender. O país foi palco nos últimos 30 a 40 anos do maior episódio de crescimento econômico e de redução de pobreza da história humana, graças à acelerada transferência de trabalhadores da agricultura tradicional para a indústria, num modelo baseado no investimento e na exportação de produtos manufaturados. Como nota Roach, a população urbana saltou de menos de 20% em 1978 para 55% hoje e deve atingir o nível entre 65% e 70% nos próximos 15 anos.

Agora, segundo o economista, a expansão dos serviços é a etapa natural de criação da infraestrutura de uma verdadeira sociedade de consumo, com serviços públicos, comunicações, varejo, saúde, serviços financeiros, etc. Como os serviços são intensivos em mão de obra, a economia chinesa desacelera-se mais a criação de empregos continua forte.

O economista Lívio Ribeiro, especialista em China do Ibre/FGV, concorda com a análise de Roach, mas acrescenta que agora há um problema de acompanhamento e interpretação do que está ocorrendo no país asiático. Por muito tempo, os analistas acostumaram-se a ler a situação chinesa a partir dos indicadores industriais, de comércio exterior e de construção civil. Ribeiro observa, por exemplo, que a divulgação que deu início ao atual episódio de mau humor foi uma prévia do índice do índice de confiança da indústria – e considera que a reação foi exagerada.

O problema de acompanhar o setor de serviços, prossegue, é que as séries são relativamente recentes e os analistas não estão habituados a segui-las e interpretá-las. “A mudança de modelo vai exigir também uma transição da análise da China, desviando em parte o foco do setor secundário para o terciário”, diz Ribeiro.

Mas há riscos na transição em si, como o próprio Roach – um dos analistas tradicionalmente mais otimistas sobre a China – deixa claro em seu artigo. Ele nota que as autoridades chinesas estão tentando gerir muitas mudanças ao mesmo tempo – modernização do sistema financeiro, internacionalização do yuan, controlar as bolhas acionárias, imobiliárias e de crédito, combater corrupção e implementar uma política internacional mais nacionalista e assertiva.

Roach não diz diretamente, mas é evidente que o sistema político autoritário, se por um lado dá uma margem de manobra que a China não teria se fosse democrática, por outro pode criar dificuldades em se lidar com uma sociedade de consumo afluente e plena de demandas. E é evidente que manter um ritmo vigoroso de crescimento, mesmo que bem menor do que o da fase recente de boom econômico, é fundamental para garantir o suporte social ao governo num regime político fechado.

Analistas mais otimistas como Roach e Ribeiro não veem ainda sinais de “hard landing”. O economista do Ibre nota que a queda das bolsas é a devolução de altas injustificadas iniciadas no final do ano passado, e acredita que a China deve crescer este ano 7% ou quase isto. Por outro lado, a complexidade crescente da agenda de modernização chinesa – como nota Roach – cria dificuldades também crescentes para o governo.

Segundo Ribeiro, por exemplo, que o corte de juros anunciado ontem (25/8/15) é um estímulo ao chamado “shadow banking”, o sistema financeiro paralelo que oferece retornos mais condizentes com os fundamentos de mercado. Já a redução de compulsório é mais adequada, na sua visão, porque com saída de capitais não há necessidade de esterilização financeira.

Existe de fato entre as elites governamentais e acadêmicas da China um grande receio de que o País falhe na tentativa de continuar se desenvolvendo do atual patamar para o nível dos países mais adiantados – é a chamada “armadilha de renda média”. Em recentes contatos de acadêmicos de uma importante instituição chinesa com colegas brasileiros, ficou muito claro que os representantes da China veem a América Latina e o Brasil como um importante contraexemplo de países que não conseguiram superar a armadilha da renda média.

Mesmo que os eventos dos últimos dias não sejam o início da grande crise chinesa que alguns vem prevendo há anos, a transição de modelo deve prosseguir como um processo difícil e sujeito a surtos de turbulência e pessimismo. Para países exportadores de commodities como o Brasil, que dependem crucialmente da continuidade do crescimento chinês, esta é mais uma dificuldade a enfrentar nos anos à frente. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 25/8/15, terça-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: