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Uma boia na tempestade

Tudo parece ruir, mas inflação segue controlada e muito baixa.

Fernando Dantas

30 Maio 2018 | 22h06

A sensação nesta segunda-feira (28/5, quando a coluna foi publicada) é de que tudo está ruindo no Brasil, mas pelo menos num front macroeconômico as conquistas recentes parecem estar resistindo: a disparada do dólar ainda não mexeu de forma muito preocupante com as expectativas inflacionárias, que estão muito baixas e, em vários casos, bem abaixo das metas oficiais.

É verdade que a expectativa mediana do mercado do IPCA em 2018 subiu de 3,50% para 3,60% de uma semana para cá. Por outro lado, chama a atenção que a expectativa mediana do IPCA para 2018 e 2019 dos Top Five de médio prazo, que expressam as melhores projeções para prazos acima de três ou quatro meses, apontam inflação de, respectivamente, 3,24% e 3,75%.

Há um mês, essas projeções eram de 3,56% para 2018 e de 4,00% para 2019. E mesmo considerando a evolução no prazo bem mais curto da última semana, quando a desvalorização cambial e o início da recente deterioração política já estavam presentes, as últimas projeções do IPCA apontam a crença dos analistas de inflação ancorada em níveis bastante baixos: há uma semana, a previsão mediana dos Top Five de médio prazo para o IPCA de 2018 era de 3,27% (houve queda, portanto) e para o de 2018 era de 3,75% (igual à última leitura).

Na verdade, o último IPCA-15, relativo a maio, trouxe sinais de que os componentes da inflação mais sensíveis à política monetária estão em níveis muito baixos.

A média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada dos cinco núcleos de inflação acompanhados pelo Banco Central em maio ficou abaixo de 2%, assim como o mesmo tipo de leitura dos chamados “serviços subjacentes” – indicador especialmente prezado pelo BC pela sua sensibilidade à política monetária.

Adicionalmente, em maio, pela primeira desde 1999, os serviços subjacentes dessazonalizados apresentaram deflação, no caso, de 0,13%. Na verdade, foi uma deflação maior do que as duas vezes em que o mesmo ocorreu em 1999, nos meses de setembro e dezembro, quando o recuo do indicador foi de 0,03%.

A possibilidade de inflação relevantemente abaixo da meta em 2018 e 2019 ainda alimenta a visão de alguns analistas de que o Banco Central errou ao não fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic na última reunião, que levaria a taxa básica para 6,25%. Independentemente dessas águas passadas, se persistirem projeções inflacionárias tão baixas, com a economia em desaceleração (o que pode ser piorado pelas consequências diretas e indiretas da greve dos caminhoneiros), não é de se descartar que o BC sofra pressões (inclusive políticas) para mudar o novo plano de voo de manter a Selic no atual patamar pelos próximos meses.

Por outro lado, alguns analistas, como Carlos Thadeu Filho, veem a possibilidade de que a surpresa baixista do IPCA em maio seja a última da longa série que levou a inflação brasileira para os patamares mais baixos em quase duas décadas. Ele nota que parte relevante do repasse cambial se dá com alguma defasagem, em função do cronograma de compras das empresas. Thadeu Filho acrescenta que, com o anúncio do acionamento da bandeira vermelha de nível 2 em junho pela Aneel, o IPCA em junho deve ser superior a 0,7%.

O BC, portanto, provavelmente vai continuar alerta quanto à deterioração recente da economia brasileira, e sobre qual vai ser (e em que sentido será) o eventual impacto nos preços. Eventuais piques de preço em função da falta de produtos devem ser “devolvidos” quando a normalidade da logística nacional se restabelecer. Já a resultante entre uma economia cada vez mais combalida (que ajudar a derrubar a inflação) e a forte desvalorização cambial (que atua no sentido contrário) continuará difícil de precisar por mais algum tempo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/5/18, segunda-feira.