As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A “velha” normalidade de volta?

Sinais de inflação nos EUA agitam os mercados e sinalizam que o anúncio da morte das leis da economia pode ter sido precoce. Para o Brasil, é mais uma preocupação.

Fernando Dantas

25 Abril 2018 | 10h10

Recentemente, vários sinais nos mercados internacionais enfraqueceram a narrativa da “estagnação secular”.

Há diversas variantes dessa história pelo lado da demanda e da oferta, mas um bom resumo talvez fosse o de que o cenário de lento crescimento e inflação e juros excepcionalmente baixos no mundo desenvolvido pós-crise global é mais estrutural – uma espécie de “nova normalidade” – do que cíclico.

Uma narrativa adicional retira o baixo crescimento, já que as economias avançadas estão em expansão sincronizada, mas aponta que, por razões variadas (algumas ligadas à tecnologia), as leis da economia já não se aplicam tão bem à nova realidade global e a inflação não vai subir como no passado diante do aquecimento dos mercados de trabalho.

Seja lá como se monte a história, diante da teia de ideias e teorias que circulam, a implicação é a mesma, e bastante favorável a economias emergentes como o Brasil. Os juros internacionais subirão pouco, a liquidez global abundante permanecerá – e, junto com ela, a complacência com os fundamentos frágeis de países que oferecem retornos maiores do que os das economias centrais.

Acontece que, desde setembro do ano passado, a rentabilidade dos títulos de dez anos do Tesouro norte-americano saltou quase um ponto porcentual, de ligeiramente mais que 2% para quase 3% nas negociações de hoje (23/4, segunda-feira, quando a coluna foi escrita; hoje, quarta, a taxa estava em 3,01% quando esta coluna foi postada no blog). Nesta segunda-feira (23/4), o mercado futuro dos Fed Funds precificou uma chance de quase 50% de que haja quatro elevações da taxa básica de juros dos Estados Unidos em 2018. Boa parte do mercado apostava em apenas três há até pouco tempo.

No Boletim Macro Ibre de abril, recém-divulgado, o economista Samuel Pessôa escreve que “na margem, se confiamos nos parâmetros de sazonalidade, o núcleo da inflação (dos EUA) tem rodado no primeiro trimestre de 2018 a 3% anualizado, acelerando de 2,1% no segundo semestre (de 2017)”. O pesquisador associado do Ibre/FGV acrescenta no texto que “ou seja, começam a aparecer alguns sinais de inflação”.

A política fiscal expansionistas de Donald Trump, principalmente pela redução de impostos, joga mais lenha na possível fogueira inflacionária, é claro.

Na Europa, por sua vez, hoje (23/4) foi divulgado o PMI da IHS Markit, um índice de confiança empresarial, que se mostrou estável depois de quedas no início do ano – num sinal que foi interpretado como de continuação da retomada europeia, embora possivelmente com alguma perda de ritmo.

De qualquer forma, Pessôa considera que a continuidade da recuperação da Europa pode vir a produzir os mesmos efeitos que nos Estados Unidos – com o progressivo aquecimento do mercado de trabalho, em algum momento a inflação ressurgirá, levando o Banco Central Europeu (BCE) a um ciclo de aperto monetário.

No Brasil, finalmente, o dólar está cotado hoje a R$ 3,44 (23/4; na quarta era cotado a R$ 3,49 quando esta coluna foi postada no blog), o que não foi antevisto pelo mercado. Há a explicação da queda do diferencial de juros, tanto pela redução doméstica quanto pela normalização em curso nos Estados Unidos, assim como o fato de que a campanha eleitoral “entrou nos preços” finalmente, e há preocupação com a debilidade do principal candidato centrista, Geraldo Alckmin, do PSDB.

Por enquanto, os movimentos no mercado doméstico estão ordeiros. Em termos de juros, por exemplo, não há sinais de estresse, embora nos prazos muito longos o juro real já bem elevado tenha ficado ainda mais salgado recentemente.

A história econômica, porém, indica que processos de elevação dos juros para combater a inflação nem sempre são tão pacíficos, já que surpresas podem ocorrer, levando os BCs a movimentos mais drásticos, que geram turbulências e azedam o apetite por risco. O Brasil segue em berço esplêndido contando com a bonomia internacional, como de hábito, mas há a possibilidade (não a certeza) de que a situação externa possa estar se complicando – e o câmbio seja o primeiro sinal de alarme. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/4/18, segunda-feira.