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A verdadeira argentinização

Fernando Dantas

18 de março de 2014 | 09h09

Circula uma frase de efeito pela qual “a Venezuela está virando Zimbabwe, a Argentina está virando Venezuela e o Brasil está virando Argentina”. Não saberia atribuir a autoria original, mas qualquer observador desapaixonado pode constatar, no caso brasileiro, que os erros cometidos na política econômica nos últimos anos não se comparam em grau de intensidade aos desvarios kirchneristas, que chegaram ao ponto da falsificação de índices de inflação.

Há um outro sentido possível, porém, para a “argentinização”, e este de fato parece ameaçar o Brasil no momento. Como realçado em grande reportagem recente da The Economist, a Argentina é um raro caso de país que recuou na trilha do desenvolvimento. Tendo registrado, nas primeiras décadas do século passado, renda e padrão de vida semelhantes aos então exibidos pelos atuais países ricos, a nação platina chega ao início do século XXI como economia em desenvolvimento, e engolfada por crises que parecem comprometer seu futuro.

Por outro lado, descontado o que seria este recuo em termos socioeconômicos ocorrido há muito tempo, o que chama hoje atenção é que a Argentina é um caso extremo da chamada “armadilha da renda média”. O país caminha para uma parada secular no segundo grau do crescimento econômico, e não surge no horizonte nenhum sinal de que possa retomar o processo de convergência para o Primeiro Mundo.

O caso brasileiro guarda semelhanças, embora o nosso período “estacionado” seja bem menor, porque galgamos da pobreza para a renda média muito depois da Argentina. Os dirigentes chineses são extremamente preocupados com a “latinização” do seu milagre econômico, isto é, que, por alguma razão, como ocorreu com muitos países latino-americanos, o gigante asiático pare na renda média e não consiga evoluir para o padrão das economias avançadas.

Em sua entrevista para o Estado de São Paulo nesse último fim-de-semana, o economista Edmar Bacha, um dos “pais” do Plano Real e atual diretor da Casa das Garças, afirma com todas as letras que o Brasil está preso na armadilha da renda média. Ele nota que apenas um pequeno grupo de países conseguiu fazer a transição completa para o mundo rico, como os tigres asiáticos e os países da periferia do euro (hoje ameaçados por crise gravíssima, eu acrescentaria).

Ele inclui também Austrália, Nova Zelândia e Noruega, que de fato avançaram mais do que a média dos ricos nas últimas décadas, mas estes já estavam pelo menos bem mais próximos do ponto de chegada, e bem acima do nível em que se atola boa parte da América Latina.

Um dos grandes problemas do Brasil para enfrentar a armadilha da renda média, como ressalta Tony Volpon, responsável pela pesquisa de emergentes da Américas da Nomura em Nova York, é a ilusão de que o problema havia sido resolvido na fase de ouro de 2003 a 2010.

Em apresentação ontem (segunda, 17/3/14) na Canning House, em Londres, o economista reconta como a “maciça melhora dos termos de troca” naquele período, via alta das commodities puxada pela demanda chinesa, trouxe uma série de benefícios para boa parte da América Latina: redução do risco externo e o “efeito riqueza” das matérias-primas levando a mais crédito e investimento, puxando o crescimento e permitindo a expansão de programas sociais.

Ele menciona ainda que países latino-americanos menos especializados em matérias-primas, como o México e outras nações centro-americanas, não viveram o mesmo boom. Isto fica claro no recente estudo do Banco Mundial “Ganhos sociais na balança – o desafio da política fiscal para América Latina e o Caribe”. Assim, o chamado “Cone Sul Estendido”, que inclui Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, viu decrescer de 46% para 37% a sua contribuição para o total de pobres da América Latina e do Caribe. No mesmo período, os pobres da região Andina saíram de 24% para 22% do total. Já os pobres do México e da América Central, que eram 30% do total da região em 2000, agora representam 41%.

Candidatos têm de se posicionar

Para Volpon, governos de esquerda no Brasil, na Argentina e na Venezuela “disseram à sua população que as melhoras da última década são permanentes e deveram-se às políticas domésticas que eles implementaram”.

Essa visão, em resumo, é de que a aceleração do crescimento em muitos países latino-americanos no período 2004-2010 foi causada pelo mundo, e não pelos méritos da governança nessas nações. Findo o boom e reinstaurada a fase de normalização da política monetária dos países ricos (com gradativa alta dos juros internacionais e consequente redução da liquidez para os emergentes), o panorama se dividiria em dois grupos.

O primeiro é formado pelos que relaxaram os padrões da política macroeconômica, fecharam suas economias e criaram comprometimentos fiscais excessivos com políticas sociais bem focalizadas ou não. Estes, como Brasil, Argentina e Venezuela, caíram de volta, em cheio, na armadilha da renda média, já a partir de 2011 no caso brasileiro.

O outro grupo, que inclui Chile, Peru, Colômbia e México, tentou manter ou melhorar o arcabouço institucional liberal herdado dos anos 90, e será capaz de retomar, ainda que mais lentamente, o processo de convergência em relação ao mundo avançado.

Essa narrativa tem vários complicadores, como o fato de que o México também está crescendo lentamente e até o Chile enfrenta uma situação desafiante, com significativo déficit em conta corrente e desaceleração econômica (embora de níveis bem superiores ao Brasil).

De qualquer forma, está claro que o Brasil viva uma encruzilhada econômica de enorme importância histórica, e que o debate eleitoral deste ano teria tudo para ser um dos mais ricos e relevantes das últimas décadas. Bacha, tucano assumido, aponta na entrevista ao Estado a abertura econômica (precedida de uma reforma tributária) como a mudança estrutural crucial, que induziria todas as outras.

Seria extremamente útil que Aécio assumisse sem subterfúgios a plataforma de Bacha e que Dilma Rousseff e a dupla Eduardo Campos/Marina Silva apontassem, de forma clara, quais são as suas estratégias para evitar que o Brasil se argentinize no sentido mais profundo: isto é, que nos atolemos definitivamente na renda média.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada ontem, segunda-feira, 17/3/14, pela AE-News/Broadcast

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