A vida complicada do BC

Num momento difícil para o BC, Gustavo Loyola aponta comunicação vacilante e Samuel Pessôa diz que missão teria de ir além de colocar inflação na meta: Banco Central deveria forçar ajuste de preços relativos para reduzir déficit externo que fragiliza o país.

Fernando Dantas

24 Fevereiro 2015 | 22h06

A evolução da conjuntura econômica vai tornando a vida do Banco Central (BC) crescentemente complicada. As perspectivas de atividade são cada vez piores, e algumas projeções quase catastróficas já começam a surgir para 2015 em caso de racionamento energético severo – o que em condições normais de temperatura e pressão levaria a autoridade monetária a abrandar a política de juros.

Mas o quadro de inflação também é muito ruim. A conta inflacionária daquilo que o próprio BC chamou de “ajuste de preços relativos”, isto é, a correção cambial e dos preços administrados, também está cada vez mais elevada. Segurar os efeitos secundários dessa pancada no IPCA e conduzir a inflação para o centro da meta de 4,5% em 2016 depois um longo período acima de 7% (em 12 meses) é uma tarefa que nada tem de trivial. Certamente a missão exige que a Selic continue a ser aumentada.

Essa angustiante duplicidade de riscos reflete-se no ziguezague da comunicação do BC, entre momentos mais ‘hawkish’ (duros com a inflação) e mais ‘dovish’ (preocupados com a atividade).

“Acho que o maior pecado do Banco Central é a comunicação, que tem sido absolutamente errática, ora sinalizando um maior aperto, ora sinalizando uma atitude parcimoniosa”, diz Gustavo Loyola, sócio-diretor da consultoria Tendências.

Ele lembra que houve a alta surpresa de 0,25 ponto porcentual da Selic depois da eleição seguida de uma aceleração do ritmo para 0,5 na reunião de dezembro. Mas a ata desta segunda reunião incluiu a palavra “parcimonioso”, no que foi seguida por um Relatório de Inflação mais “hawkish”. A ata da reunião de janeiro (em que também houve aumento de 0,5) foi mais “dovish, na sua avaliação. Mas recentes declarações do novo diretor de Política Econômica, Luiz Awazu, apontam novamente na direção do rigor anti-inflacionário.

“Está difícil antecipar a leitura do BC sobre a conjuntura e quais os passos seguintes da política monetária e aí as expectativas não reagem, ninguém acredita muito na convergência para o centro da meta nesse prazo (2016)”, continua Loyola. Para ele, “o Banco Central tem que abandonar o discurso etéreo, e manter o compromisso de buscar a convergência em 2016”.

Ajuste de preços relativos

O economista Samuel Pessôa, da gestora Reliance e do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), tem uma visão mais complexa do papel do Banco Central na atual conjuntura econômica, que vai além do cumprimento das metas de inflação.

Para ele, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, recebeu a delegação de fazer o ajuste fiscal, mas “até onde a vista alcança” o Brasil deve ter déficits em conta corrente anuais na casa de US$ 80 bilhões a US$ 90 bilhões, o que fragiliza o País – especialmente levando em consideração o crescimento nulo – diante de eventuais pioras do ambiente externo.

A atual desvalorização nominal da taxa de câmbio não vai fechar o buraco externo, na sua opinião, e apenas o ajuste fiscal não resolverá o problema. A questão é que, para que o déficit em conta corrente seja substancialmente reduzido, é preciso haver uma correção de preços relativos: a inflação dos produtos não negociáveis internacionalmente (non-tradables), que são basicamente os serviços, tem que ficar muito mais baixa que a dos produtos comercializáveis (tradables, como as manufaturas) por um período razoável de tempo. Dessa forma, o Brasil ficaria mais barato e competitivo para vender produtos tradables (os salários são uma espécie de non-tradable) e ajustaria fortemente a balança comercial.

Com toda a desvalorização nominal do real desde 2011, o ajuste de preços relativos ainda nem começou, nota Pessôa. A inflação dos serviços ainda corre bem acima da inflação dos tradables.

O problema é que, para que esse ajuste ocorra, o BC tem que praticar uma política monetária muito dura que leve a uma taxa de desemprego bem maior que a atual. Pessôa não crê que a atual equipe econômica tenha delegação para isso. O Copom teria que impedir qualquer repasse aos salários do duplo choque sobre os índices de inflação da desvalorização do câmbio nominal e da correção de preços administrados, o que o economista não acha que ocorrerá.

Para Pessôa, o grande problema da não correção do desequilíbrio externo é o de deixar a economia brasileira frágil às mudanças de humor do cenário externo. “É inconsistente achar que o mundo vai nos financiar em US$ 80 bilhões a US$ 90 bilhões por ano com a economia parada e um óbvio desequilíbrio de preços relativos – pode chegar um momento em que o dinheiro para de entrar e aí nós vamos para uma correção forçada”, ele conclui. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast        

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 19/2/2105, quinta-feira.