A visão sombria de Ricardo PB

Um dos maiores especialistas do Brasil em política social e mercado de trabalho vê enormes problemas de longo prazo para o país.

Fernando Dantas

25 de agosto de 2015 | 00h30

O economista Ricardo Paes de Barros, do Insper, grande especialista em questões sociais, vem apresentando recentemente um quadro de longo prazo da economia brasileira profundamente desanimador. O pesquisador é conhecido por ter feito – junto com outro respeitado especialista na área, Marcelo Neri – as análises mais detalhadas e profundas sobre a era de ouro dos avanços sociais da década passada. Tanto PB (como é conhecido por todos) quanto Neri trabalharam no governo Dilma, mas já se afastaram.

O economista do Insper hoje aponta dificuldades de gigantesca magnitude que, vistas do momento presente, parecem ultrapassar a capacidade da sociedade brasileira de enfrentar desafios. É verdade que ele também é uma usina de sugestões e agendas para enfrentar os diversos problemas brasileiros, e que seu tom nunca é derrotista. Mas o significado geral do quadro de longo prazo que aponta é indiscutivelmente negativo.

Na visão de PB, o Brasil está praticamente no auge do “superávit” de pessoas em idade de trabalhar produzido pelo chamado bônus demográfico. Esta é uma fase em que normalmente os países crescem aceleradamente. “Um estrangeiro que olhe para esse dado não vai entender nada ao constatar que o País não está crescendo”, ele diz.

A projeção é de que em 2020 haja 65 milhões a mais de brasileiros em idade ativa (15 a 59 anos) do que fora dela (menos de 15 ou mais de 60). Em 1970, a diferença era de menos de dez milhões. O bônus demográfico é justamente a fase em que a PIA cresce mais rápido do que o resto da população, o que abre aquela diferença. Em termos proporcionais, 2020 também será o pico da PIA, que atingirá 65% da população, 30 pontos porcentuais a mais do que os 35% de crianças e idosos. Em 1970, a diferença era de cerca de dez pontos porcentuais.

A questão demográfica, por um lado, apresenta um problema fiscal de longo prazo gravíssimo. O Brasil está entrando num processo de envelhecimento que deve ser seis vezes mais rápido do que o da França. A população de 60 anos ou mais deve subir de cerca dos 12% atuais para quase 30% em 2050. Em 2060, 34% da população terá mais de 60 anos e 20% mais de 70. Já a população de até 15 anos deve cair de pouco menos de 25% para próximo de 15% em 2050 e 13% em 2060. Como o Estado brasileiro gasta muito mais com cada idoso do que com cada criança, as regras atuais serão impossíveis de cumprir à medida que o envelhecimento se aprofunde.

“Não há mudança de regra da Previdência que dê jeito, é preciso criar regras mais flexíveis que possam ir sendo adaptadas à medida que o processo de envelhecimento ocorra”, alerta PB.

Mas as dificuldades vão além das contas públicas. O economista nota que, apesar de hoje o Brasil estar muito próximo do ponto em que terá provavelmente o maior contingente de jovens em termos absolutos de todos os tempos – passados e futuros –, o País não está preparando bem esta juventude. Um dado que evidencia bem isso é que o número de séries (anos) concluídos com sucesso na faixa etária entre 18 e 22 anos está estagnado em torno de 1,2 ano desde a segunda metade da década de 90.

Adicionalmente, essa massa juvenil recorde, da qual dependerá crucialmente o País nas próximas décadas, aparentemente se sente desmotivada tanto para estudar quanto para trabalhar. Entre 15 a 18 anos, mais de 20% dos alunos que iniciam uma série escolar no Brasil abandonam a escola até o fim do quarto trimestre.

Desde 2009, cresce a proporção dos jovens que não estudam nem trabalham ou procuram emprego (os chamados “nem-nem-nem”), que hoje já atinge 17%. PB testou várias hipóteses que poderiam explicar esse fenômeno sem significar desinteresse pelos estudos ou trabalho, mas isso não trouxe nenhum alívio. As nem-nem-nem mulheres que não têm filho também crescem no mesmo ritmo, e o mesmo ocorre com os nem-nem-nem que não fazem trabalhos domésticos (e também com o grupo que nem tem filho nem faz trabalhos domésticos). Isto é, não é ter filho ou ajudar em casa que faz com que cresça os números de jovens que não trabalham nem estudam.

“O jovem brasileiro parece querer estudar numa universidade sueca, e fazer carreira numa empresa na Coreia – o que se oferece aqui para ele não é atraente”, diz o economista.

Finalmente, um dos fatos que mais vêm intrigando PB é que aparentemente o avanço da escolaridade brasileira nas últimas décadas – apesar dos dados ruins citados acima, ela inegavelmente ocorreu em termos gerais – está tendo muito pouco ou nenhum impacto na produtividade do trabalho. A produtividade, com exceção de um salto de cerca de 10% entre 2006 e 2010, está estagnada desde pelo menos o início da década passada.

Para o pesquisador, o crescimento da renda do trabalho acima da produtividade foi o principal combustível do enorme avanço social da década passada. Mas tanto PB quanto Neri acham que este ciclo se esgotou e agora é imprescindível aumentar a produtividade para retomar os ganhos sociais. Entender aquele aparente paradoxo econômico – mais educação deveria se traduzir em maior produtividade do trabalho – é, portanto, fundamental. O fato de a escolaridade crescente não estar elevando a produtividade é mais um dos nós a serem entendidos e desfeitos para que o Brasil possa retomar o desenvolvimento social e econômico. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast.

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 21/8/15, sextaq-feira.

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