A vitória de Merkel e o futuro do euro

Fernando Dantas

26 de setembro de 2013 | 11h50

A vitória da chanceler alemã, Angela Merkel, nas eleições legislativas do último fim de semana, quando seu bloco conservador (CDU/CSU) ganhou com a maior vantagem em quase 25 anos, mostrou mais uma vez que a queda-de-braço entre a visão germânica da crise do euro e uma abordagem mais keynesiana do problema ainda está longe de encerrada.

É verdade, por um lado, que o triunfo de Merkel não se traduziu numa situação muito confortável para formar o seu próximo governo, já que o Partido Democrático Livre (FDP, na sigla em alemão), parte da coalização governista, foi destroçado nas urnas, e não conseguiu eleger ninguém. Ainda assim, situações deste tipo fazem parte da complexidade habitual do sistema parlamentarista, e não há dúvida de que Merkel saiu politicamente maior da eleição do que nela entrou.

Este fato pode ser notado nos artigos na imprensa enaltecendo a curiosa “grandeza” da chanceler, que é construída justamente por discrição, pragmatismo, ausência de qualquer retórica grandiosa e, sobretudo, pela identificação com o alemão médio.

Segundo Roger Cohen, colunista do New York Times, “amarrotada, desajeitada, com sua calça comprida e blazer quase sempre um pouco apertado, Merkel pode parecer um estudo orquestrado sobre a normalidade, uma criação brilhante de estrategistas políticos antenados com a psique pós-traumática alemã”.

De forma resumida, a tese de Cohen é de que, para um país assombrado por líderes carismáticos e agressivos e uma história extremamente tumultuada, uma presidente que encarna os objetivos práticos e cotidianos da estabilidade política e da prosperidade material é exatamente o que se pede. Cohen também crê que Merkel “caminhou numa tênue linha entre a exigência de prudência fiscal por parte dos alemães e a salvação do euro”.

O que parece agradar muitos analistas é justamente essa aparente capacidade da chanceler alemã de fazer a difícil intermediação entre o contribuinte alemão, que não quer desperdiçar os seus impostos ajudando países “menos disciplinados”, e, por outro lado, as nações em crise da periferia do euro, que bem ou mal ainda estariam de pé com a política de apoio financeiro e exigências de austeridade, da qual a Alemanha foi a principal arquiteta.

No fundo, é como se Merkel estivesse vencendo a guerra para construir uma zona do euro mais ao feitio alemão, mas ao mesmo tempo extraindo dos seus eleitores as concessões mínimas para que o país central não se isole completamente, provocando a explosão do bloco. Sem dúvida nenhuma, um feito digno de estadista.

Essa visão fica muito clara, por exemplo, no artigo de Gideon Rachman, o principal analista de relações internacionais do Financial Times. Ele começa por se opor à ideia de que Merkel se resuma a uma pragmática cautelosa, que atrai os eleitores justamente por não ter nada de extraordinário. Segundo Rachman, a chanceler é uma “visionária política”, que “em meio de uma crise cambial por vezes aterrorizante, redefiniu a relação da Alemanha com a União Europeia (UE) – numa base nova e mais sustentável”.

Para o analista, Merkel mostrou que tomar conta dos interesses do contribuinte alemão não vai contra garantir a sobrevivência do euro. Na sua visão, aliás, a primeira é condição imprescindível para a segunda. Ele lembra que Merkel conseguiu empurrar goela abaixo do eleitor alemão (e depois se reeleger) compromissos financeiros com a periferia equivalentes a um ano de Orçamento federal, além da aceitação de políticas “heterodoxas” pelo Banco Central Europeu (BCE) que foram criticadas pelo Bundesbank (BC alemão, que integra o BCE).

O problema de toda essa abordagem – de Rachman e de outros analistas que cobriram a chanceler de elogios depois da sua vitória eleitoral do fim de semana – é que ela deixa mais ou menos subentendida que a situação da zona do euro melhorou e caminha para uma solução.

Nesse sentido, é um balde de água fria ler o artigo, também no Financial Times, de Martin Wolf, principal analista econômico do jornal inglês. É curioso notar como estão em campos diametralmente opostos os principais pensadores de relações internacionais e de Economia do FT.

Para Wolf, se Merkel conseguir de fato uma zona do euro ao estilo alemão, isto será “um espetáculo profundamente deprimente”. Em seguida, o articulista cita o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, para quem os pessimistas estavam errados e o mundo deveria se alegrar com os sinais de recuperação da zona do euro.

“Se depressões e desemprego em massa são um sucesso, então o ajuste da Europa é de fato um triunfo. Mr. Schäuble acusa seus críticos de viver num universo paralelo. Eu prefiro isto do que viver no dele”, ataca Wolf.

O articulista apresenta números devastadores sobre a atual realidade dos países problemáticos do euro. São economias com PIBs que ainda estão entre 7,5% (Espanha) e 23,4% (Grécia) abaixo do pico pré-crise, e com taxas de desemprego que variam de 12% (Itália) a 26,3% e 27,8%, respectivamente, na Espanha e na Grécia. Na zona do euro como um todo, o desemprego é de 12%, e o PIB está 3% abaixo do pico pré-crise e 13% abaixo de onde estaria se a tendência anterior à crise tivesse se mantido. Ele lembra também que todos os países problemáticos da zona do euro vão acabar com dívidas públicas acima de 100% do PIB, em qualquer cenário.

Wolf tem a visão keynesiana de que o duríssimo ajuste imposto aos países da periferia não vai funcionar porque ele omite a questão crucial da demanda. Com um superávit em conta corrente de 5,9% do PIB, a Alemanha está, para ele, “exportando falência e desemprego”. Na visão do articulista do FT e de outros economistas, como o prêmio Nobel Paul Krugman, a Alemanha teria de estimular a sua demanda doméstica (o que reduziria o superávit externo) para puxar os seus parceiros do euro para fora da depressão.

Dessa forma, a ideia é de que Merkel de fato comandou uma política econômica que satisfez o eleitor alemão, mantendo as características básicas da economia do país (austeridade, ênfase industrial exportadora, superávits externos), ao mesmo tempo em que conseguiu canalizar alguma ajuda para os países periféricos. Mas a segunda parte da premissa dos defensores de Merkel é mais questionável: ela está conseguindo construir uma zona do euro ao feitio alemão, sim, mas o resultado final pode ser a implosão do bloco ou, como colocou Wolf, “um espetáculo profundamente deprimente”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast, em 25/9/13, quarta-feira.