A volta do emprego

Apesar de riscos, incerteza e da má qualidade de muitos postos que se abrem, mercado de trabalho avança na retomada.

Fernando Dantas

31 de agosto de 2021 | 21h08

A taxa de desemprego da Pnad Contínua (PNADC) do trimestre findo em junho, de 14,1%, surpreendeu positivamente os analistas, que esperavam um número pior.

Porém, como ressalta Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, mais significativo que a desocupação é o crescimento da população ocupada na PNAD de junho. A expansão foi de 2,5% (ou mais de 2,1 milhões de pessoas) ante o primeiro trimestre deste ano.

E, como nota Donato, o crescimento da população ocupada ante o trimestre encadeado anterior (março, abril e maio) foi de mais de 1 milhão de pessoas.

O economista projeta que a PO retome o nível pré pandemia em dezembro de 2021, e prevê taxa de desemprego de 12% na PNADC de dezembro (último trimestre), com uma média de 13% em 2021.

É uma previsão otimista, assim como a de José Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos (Grupo Plural), no Rio, que projeta taxa de desemprego de 12,5% na PNADC de dezembro.

Camargo pensa que o bom resultado da PNADC de junho reflete uma maior aderência à realidade (que, para ele, já aparecia no Caged), possivelmente ligada à volta gradativa das entrevistas presenciais na coleta da PNADC.

A causa óbvia para a retomada do mercado de trabalho é a volta da economia, especialmente dos serviços, com o avanço da vacinação e o abrandamento da pandemia.

“Tenho a hipótese de que essa volta vai ser uma euforia, as pessoas estão loucas para voltar a consumir serviços, ir a restaurantes, estádios de futebol etc.”, avalia Camargo.

Ele ressalva que a condição básica para isso é que a pandemia continue a retroceder de acordo com a atual tendência, o que está longe de ser uma previsão.

“Pode inverter tudo amanhã em termos de pandemia, esse cenário supõe que a queda continue”.

Donato, da LCA, observa que, do ponto de vista dos efeitos da pandemia na economia, é preciso levar em conta que, em 2021, o Brasil manteve um nível relativamente alto de mobilidade mesmo no auge da segunda onda, quando a média de mortes em sete dias chegou a superar 3000 (está em 675 agora).

Em outras palavras, uma terceira onda em função da variante delta teria que ser muito violenta – do que não há sinais até agora – para provocar um efeito econômico contracionista mais intenso.

Já Bruno Ottoni, economista da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, também vê a PO e a força de trabalho “engrenando”, mas ressalva que a retomada é muito puxada pelos conta própria.

Essa categoria foi responsável por quase 1 em 2 dos 2,1 milhões de brasileiros que engrossaram a PO entre o primeiro e o segundo trimestres deste ano. E os responsáveis foram os conta própria sem CNPJ, isto é, informais.

O próprio Ottoni ressalva que em parte esse movimento é natural, já que o estrago da pandemia no mercado de trabalho foi bem mais forte nas ocupações de pior qualidade. Assim, é esperado que a volta desses empregos também se dê em maior volume.

Isso explica também, segundo o economista, por que não deve ser visto como negativo o fato de que o rendimento médio das pessoas ocupadas caiu 3% entre o primeiro e o segundo trimestres. São mais trabalhadores de baixa renda de volta ao batente, puxando para baixo a média.

Mas o economista considera que esse movimento de retomada puxado em boa parte por empregos de menor qualidade possa também refletir o quadro de muita incerteza econômica, com o peso de riscos fiscais, inflacionários e sanitários ainda se fazendo sentir no no mercado de trabalho.

Já Camargo, da Genial, destaca a alta de 618 mil empregos com carteira assinada entre o primeiro e o segundo trimestres. Além da retomada, ele vê efeitos da reforma trabalhista barateando o custo do trabalho ao reduzir os litígios. O economista também crê que o avanço dos conta própria possa estar ligado à maior terceirização permitida pela reforma.

Uma palavra de cautela sobre a PNADC de junho vem do economista Daniel Duque, pesquisador do Ibre-FGV.

Tomando a PNADC mensalizada e dessazonalizada, ele nota que houve uma significativa desaceleração da alta da PO em junho.

Segundo o economista, não se trata de “jogar um balde de água fria” na animação com a retomada do mercado de trabalho, mas sim notar que “ela está vindo em surtos, com certa descontinuidade, em vez de uma aceleração contínua”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/8/2021, terça-feira.