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Abalo no otimismo

Crescimento decepciona e projeções de maior expansão em 2017 entram em xeque.

Fernando Dantas

21 de outubro de 2016 | 19h08

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, relata que, quando foi divulgado o PIB do segundo trimestre, ele chegou a pensar que o resultado do terceiro poderia ser de uma leve alta, em torno de 0,2%, na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior. Agora, sua projeção é de queda de 0,7%.

Esse caso de forte mudança de expectativa ilustra bem um movimento mais geral de desânimo com o ritmo da retomada econômica. Não é só que o terceiro trimestre aparentemente não será mais o “ponto de virada” em que a atividade econômica na margem deixará de ser negativa. Na verdade, já há vários analistas que consideram que isso pode não ocorrer nem no quarto trimestre, o que piora o carregamento estatístico para 2017, para o qual a ponta mais otimista do mercado, que previa crescimento de 2%, tornou-se menos segura deste prognóstico.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, ainda mantém a projeção de 2% para 2017, mas acrescenta que já esteve mais confiante e que foi bastante surpreendida pelos dados do terceiro trimestre, como a queda de 3,8% da indústria em agosto na comparação dessazonalizada com o mês anterior.

“Agora já tenho dúvidas sobre a possibilidade de o quarto trimestre ser positivo”, diz Solange, que deixará revisões de prognósticos para depois da divulgação do PIB do terceiro trimestre, que será acompanhada de revisão de séries.

Uma característica enervante deste final de recessão, depois de um dos maiores mergulhos da atividade na histórica econômica brasileira, é o sistemático descompasso entre os indicadores de confiança e os dados da economia real. Mesmo entre o componente de expectativas para seis meses à frente e o componente da situação atual dos índices de confiança persiste a incômoda defasagem.

Solange acha que a “quebradeira dos Estados”, com o não pagamento de funcionários e aposentados e impactos negativos no crédito consignado, pode ser um fator a explicar por que a economia rateia e a retomada vai sendo adiada.

Ela acrescenta também que o fato de que vários meses tenham se passado antes que o primeiro importante passo do programa fiscal do novo governo – a aprovação em primeiro turno da PEC 241 na Câmara – tenha ocorrido também pode ter travado a recuperação. “Eu entendo que o governo queria esperar o impeachment e as eleições municipais, mas o tempo político não é necessariamente o tempo econômico”, observa.

Junto com a largada lenta da política fiscal, também se atrasou a política monetária, com o aguardado ciclo de redução da Selic devendo se iniciar somente a partir de amanhã, ao final da reunião do Copom.

Rocha, da JGP, vê dois discursos no mercado a sustentar a visão mais negativa de crescimento em 2017, em torno de 0,5% ou pouco mais, e a mais otimista, que projeta aproximadamente 2%. O primeiro grupo dá ênfase em fatores como o mercado de crédito ainda combalido, com muita desalavancagem das famílias ainda por ocorrer, e o mercado de trabalho que vai continuar a piorar, afetando negativamente a renda. Assim, o consumo, o principal componente da demanda, fica sem condições de fazer a economia decolar.

Os mais otimistas, por sua vez, consideram que a retomada pode ser puxada pelos investimentos, que já estão sendo estimulados por melhoras na agenda regulatória e de concessões, afetando setores como o de petróleo e gás e a infraestrutura em geral. O problema é que a enorme capacidade ociosa em setores vitais da economia – a indústria automobilística não está usando nem metade da sua capacidade instalada – não contribui para a história da economia liderando a retomada.

Rocha, particularmente, acha que a base de comparação está tão deprimida que as projeções de crescimento em torno de 0,5% para 2017 talvez também sejam pessimistas demais. Quando conversou com o colunista, no meio da semana, sua projeção era de 1,5%. Ele nota que há correlação entre expressivas altas da bolsa e investimentos.

Um analista de uma gestora de recursos acrescenta que, quando foi divulgado o péssimo resultado da produção industrial em agosto, alimentou-se a esperança de que poderia ter sido um desvio ocasional da tendência, mas os indicadores de setembro não estão sinalizando nenhuma recuperação compensatória. Parece haver cola no fundo do poço da grande recessão brasileira. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/10/16, terça-feira.

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