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Abordagem americana e europeia na economia da Covid

Números da OCDE indicam que, enquanto Estados Unidos privilegiou a transferência de renda para os desempregados (acima até do salário anterior), Alemanha e outros países europeus financiaram mais a manutenção do posto de trabalho.

Fernando Dantas

18 de novembro de 2020 | 19h48

O grande aumento da poupança das famílias na pandemia não foi, claro, um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ele aconteceu em diversas partes do mundo, pela combinação de queda forçada de consumo de serviços e aumento de renda via benefícios.

Nos países da OCDE, por exemplo, segundo recente divulgação desta organização que reúne as nações ricas e algumas emergentes, a renda das famílias cresceu 5,3% no segundo trimestre de 2020, enquanto o PIB per capita caiu 10,6%.

A queda do PIB per capita se explica em boa parte pelo fechamento de parcela expressiva do setor de serviços por causa do isolamento social.

Um primeiro efeito importante do aumento global da poupança das famílias, como nota Bráulio Borges, economista sênior da Consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, é que esse fenômeno vai contrabalançar o chamado “penhasco fiscal” (“fiscal cliff”) na transição de 2020 para 2021.

O penhasco é a retirada dos programas excepcionais criados pelos governo para dar apoio a famílias e empresas (especialmente pequenas) durante a pandemia.

A chamada “segunda onda” da Covid-19 pode prolongar ou reavivar algumas dessas iniciativas, mas, ainda assim, a visão majoritária hoje é de que o volume total dos programas será muito reduzido.

Como explica Borges, do ponto de vista da demanda, olhando-se somente a política fiscal, desenha-se no horizonte uma contração gigantesca e assustadora, o “penhasco fiscal”.

Mas a boa notícia é que a também gigantesca poupança extra acumulada pelas famílias provavelmente vai ser gradativamente desfeita à medida que a economia se normaliza e os serviços são reabertos. O que torna o quadro menos sombrio para a economia global em 2020.

Mas há outro aspecto bem relevante na recente divulgação da OCDE de gráficos sobre a evolução na pandemia da renda e do PIB per capita de alguns dos países mais importantes da organização.

Nota-se certo duplo padrão, norte-americano e europeu, na evolução da renda familiar per capita nos meses do auge da primeira onda da pandemia.

Assim, no segundo trimestre deste ano, a renda per capita familiar subiu 11% nos Estados Unidos, e 10,1% no Canadá. Na Irlanda, Austrália (país não europeu, no caso) e Finlândia, o crescimento foi de, respectivamente, 3,6%. 2,7% e 1,1%.

Já no caso de Alemanha, França e Reino Unido, a renda per capita familiar caiu no segundo trimestre.

Mesmo nesses últimos países, no entanto, a poupança das famílias subiu, porque a queda no PIB per capita (aqui, uma aproximação para o consumo) foi muito maior do que a da renda.

Particularmente contrastante são as trajetórias dos Estados Unidos e da Alemanha.

Tomando-se os números-índice que constam dos gráficos da OCDE, o salto da renda per capita familiar norte-americana foi de 118,64 no primeiro trimestre para 131,75 no segundo. Na Alemanha, o número-índice desceu de 107,57 para 104,51 entre o primeiro e segundo trimestres de 2020.

Já os PIB per capita moveram-se na mesma direção. Tomando-se os números-índice, de 111,93 para 101,76 no caso dos Estados Unidos, e de 111,34 para 100,47 no caso alemão.

Para ambos os indicadores, o número índice 100 corresponde ao primeiro trimestre de 2007.

Aparentemente, aponta Borges, a divergência de trajetória da renda familiar per capita tem a ver com a resposta governamental à pandemia nos dois países – o que, por sua vez, pode estar ligado à abordagem típica de problemas na economia e no mercado de trabalho em cada uma dessas duas potências econômicas.

Na Alemanha, prevaleceu o esquema de “Kurzarbeit”, isto é, manutenção do vínculo de trabalho com redução de jornada e salário. O que não leva à alta da renda familiar per capita.

Já nos Estados Unidos, usou-se a plataforma do seguro-desemprego para se pagar uma parcela extra, bastante alta, a todos os desempregados, o que em muitos casos significou uma reposição mais elevada do que o anteriormente recebido enquanto se mantinha o posto de trabalho.

Outros países europeus parecem ter seguido padrões de intervenção mais próximos do alemão, enquanto o Canadá se aproxima mais dos Estados Unidos, pelo menos nos resultados.

Uma questão pertinente é saber qual modelo se provará mais adequado no pós pandemia.

Borges acha cedo para prever, mas comenta o pontos fraco e forte de cada um.

Supondo que a pandemia trará mudanças duradouras o permanentes na estrutura das economias (talvez as companhias aéreas jamais voltem a operar com o tráfego e a logística pré-pandemia), o modelo norte-americano tem a vantagem de ser mais flexível.

Empregos são perdidos, e possivelmente mais empresas desaparecem, o que é negativo, mas facilita a realocação de capital e trabalho em outras atividades.

De fato, a taxa de desemprego dos Estados Unidos deu saltos enormes para cima e para baixo durante a pandemia, enquanto o movimento do mesmo indicador em vários países europeus foi muito mais discreto.

Como observa Borges, a prioridade na preservação do posto de trabalho – bem típica da tradição mais socialdemocrata europeia – tem o risco de criar empresas e postos de trabalho “zumbis”, isto é, insustentáveis sem subsídio do governo.

Por outro lado, o modelo alemão, ao manter os postos de trabalho, preserva melhor o capital humano e organizacional da ação nefasta da “histerese” provocada pela destruição de empresas e empregos, neste segundo caso especialmente pelo desemprego de mais longo prazo.

A histerese é uma perda permanente ou muito duradoura de algo que era percebido como cíclico, com idas e voltas. Por exemplo, um trabalhador que se desatualizou durante um período de desemprego pode não conseguir ou até desistir de voltar à força de trabalho, mesmo quando o mercado estiver aquecido.

No caso do Brasil, houve tanto um grande programa ao estilo de dar renda às famílias cujo trabalho foi impossibilitado pela pandemia, o auxílio emergencial, quanto outro para reduzir jornada e salário, preservando o vínculo, o BEm.

O peso do auxílio acabou sendo bem maior, o que faz com que o Brasil se assemelhe ao caso americano e canadense, com aumento da renda das famílias e queda do consumo.

O problema, porém, é que o Brasil, ao contrário de todos os países citados, é uma economia emergente, e com o grande salto da dívida pública em função dos gastos na pandemia encontra-se agora criticamente fragilizado em termos fiscais.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/11/2020, terça-feira.

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