Acelerar o corte da Selic?

Já se discute no mercado a possibilidade de o Banco Central cortar a taxa básica de juros, hoje em 13,75%, em 0,75 ponto porcentual (pp) na reunião do Copom de janeiro, em vez de cortar 0,50 pp.

Fernando Dantas

19 de dezembro de 2016 | 17h25

A possibilidade de um corte de 0,75 ponto porcentual (pp) da Selic, para 13%, na reunião do Copom de 10 e 11 de janeiro entrou no radar de mercado.

“Entrou no mapa, com certeza”, diz Alexandre Pavan Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, no Rio. Ele ainda mantém a sua previsão de corte de 0,50 pp na próxima reunião, mas acha possível que a redução seja de 0,75 pp.

Para tratar do assunto, Póvoa prefere iniciar criticando o que chama de reações “meio rasteiras e emocionais” por parte dos analistas que consideram que o rigor anti-inflacionário do novo presidente, Ilan Goldfajn e sua equipe é uma das causas pelo desapontamento com a recuperação da economia brasileira.

Ele recorda que, quando Ilan assumiu, em junho, a credibilidade da política monetária estava destruída, as expectativas estavam desancoradas e havia uma enorme inércia inflacionária. Para o gestor, a postura conservadora do BC – que não cortou os juros imediatamente e depois iniciou o processo gradativamente, com duas reduções de 0,25 pp até agora – foi decisiva para reancorar as expectativas e criar as condições para um ciclo mais intenso de corte de juros, sem comprometer a convergência da inflação para a meta.

Agora, portanto, vive-se uma segunda etapa do desafio do BC. Como a economia não se recuperou como se esperava, em boa parte pelo pesado endividamento de empresas e famílias, o BC pode participar mais ativamente da solução para este problema, cortando com vontade as taxas de juros. É neste contexto que entra a alternativa de acelerar o ritmo para 0,75 pp.

Mas Póvoa ressalva que há a questão de Trump no caminho dessa decisão. Na sua interpretação, os mercados globais estão fazendo uma leitura benigna do que vai ser a política econômica do próximo presidente norte-americano, o que ele chama de “Trump light”.

Nesta ótica, Trump daria efetivamente um expressivo impulso fiscal inicialmente, o que ajudaria a atividade nos Estados Unidos a “pegar” de vez, com efeitos positivos para toda a economia global. Mas o novo presidente seria mais responsável com as contas públicas em termos de médio e longo prazo, e menos protecionista do que se vendeu durante a campanha.

O resultado é que as economias da Europa e da China, que já vêm dando alguns sinais positivos, também ganhariam tração. O mundo aceleraria, mas de forma ordenada, e o Federal Reserve (Fed, BC americano) prosseguiria num processo bem controlado e seguro de alta de juros, mas sem provocar grandes sustos e solavancos nos mercados globais. Seria um cenário em que Trump causaria mais crescimento que inflação.

O cenário ruim é aquele em que Trump radicaliza tanto na política fiscal frouxa quanto no protecionismo, causando mais inflação que crescimento, e levando o Fed a puxar o freio da elevação de juros de forma mais abrupta e assustadora, provocando turbulência nos mercados globais.

Para Póvoa, como a posse do novo presidente americano só será em 20 de janeiro, não necessariamente estará claro na reunião do Copom de 10 e 11 se o mundo caminha para um cenário de “Trump light” ou de Trump radical. Pode ser até que pronunciamentos do presidente eleito antes da posse esclareçam um pouco mais seus caminhos, mas não é garantido. Assim, é possível que o BC brasileiro prefira cortar a Selic em 0,5 em janeiro, preventivamente.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, também projeta ainda corte da Selic de 0,5 em janeiro, mas diz “que não seria nenhum despautério se o corte for de 0,75”. Ela nota que indicadores que sairão neste meio tempo de atividade e inflação podem influenciar esta decisão.

Tanto Solange quanto Póvoa frisam que uma das razões para a eventual aceleração do ritmo de corte da Selic para 0,75 seria controlar o nível de juro real (levando em conta a queda das expectativas de inflação), que o BC pode querer baixar ou pelo menos não deixar subir em relação a níveis do passado recente.

Solange nota ainda que, caso o BC opte por acelerar o ritmo de corte da Selic para 0,75 por algumas reuniões, ele poderia antecipar os efeitos de estímulo à atividade econômica. Neste caso, a autoridade monetária poderia até interromper o ciclo de relaxamento num nível um pouco mais alto da taxa básica (em relação ao ciclo com cortes de 0,5 por reunião), algo em torno de 10%, e esperar para ver os efeitos na economia.

No caso de manter um ritmo de corte de 0,5 pp por reunião, o risco, para a economista, é que o BC chegue ao final do ano num nível até mais baixo (a sua projeção atual é de 9%), mas sem que a economia ainda tenha retomado satisfatoriamente, o que provocaria efeitos adversos na política fiscal (via arrecadação) e na percepção de solvência pública e risco País.

“O problema é que, numa economia que não cresce, nem a aprovação dessa reforma da Previdência tal como ela foi enviada – e considerei a proposta muito boa – é suficiente no médio prazo”, comenta Solange. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/12/16.