Aécio e o difícil ajuste da economia

Fernando Dantas

23 de maio de 2014 | 18h32

A pesquisa do Ibope divulgada ontem, mesmo mostrando crescimento das intenções de voto na presidente Dilma Rousseff, apontou maiores chances de segundo turno. Adicionalmente, o candidato tucano Aécio Neves teve um substancial avanço no primeiro turno. Desta forma, parece que a candidatura do senador mineiro está definitivamente consolidada como uma alternativa competitiva.

Esse fato soa como música aos ouvidos do mercado financeiro. Aécio, de fato, parece ser o candidato tucano desde o fim da era FHC que de forma mais explícita se aproximou do ideário liberal na condução da política econômica. Isto fica claro não tanto no que ele diz, mas sim em seus conselheiros. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, já foi apontado como futuro ministro da Fazenda caso o tucano vença. E economistas de viés fiscalista como Samuel Pessôa e Mansueto Almeida estão entre os interlocutores de Aécio.

Uma visão bastante comum no mercado é de que o tucano, caso eleito, vai colher uma enorme melhora de expectativas simplesmente pelo fato de contar com pessoas como as mencionadas acima na sua equipe. A partir deste trunfo inicial, conseguirá implantar um ajuste rápido e drástico dos desequilíbrios da economia, a tempo de colher os frutos de uma inflação contida e do PIB e do emprego em retomada ainda no seu primeiro mandato.

O cientista político Octavio Amorim Neto, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), da FGV-Rio, vem estudando cenários de vitória dos diferentes candidatos e faz um alerta: se Aécio se sagrar vencedor, vai ser muito mais difícil do que parte do mercado prevê.

“Alguns economistas parecem esquecer que a capacidade de fazer política econômica depende das condições políticas”, ele lembra.

Amorim Neto centra sua análise em dois vetores: tamanho do mandato popular obtido e apoio parlamentar caso Aécio ganhe a eleição. Ambos dependem da folga com que o tucano vencer, o que não é alvissareiro para o PSDB, de acordo com as indicações sobre as eleições até agora.

A projeção consensual é de que Dilma chegue em primeiro lugar no primeiro turno, que ocorre simultaneamente à eleição de deputados federais e senadores. É duvidoso que, por melhor que Aécio se saia, e mesmo conquistando a vaga para o segundo turno, o senador mineiro consiga puxar votos suficientes para alterar significativamente a minguada bancada tucana de 44 deputados na Câmara e 11 senadores, o que corresponde a, respectivamente, 8,6% e 13,5% de cada uma das Casas do Congresso.

Amorim nota, em relação à Câmara, que o nível atual é bem menor do que os 17,2% detidos hoje pelo PT ou os pouco mais de 20% do PSDB na era FHC. Já a redução da representação do DEM, o tradicional aliado político dos tucanos, é tão aguda que Amorim Neto diz que o partido deve se preocupar até com a sua simples sobrevivência.

Do ponto de vista do apoio popular, é difícil antever uma vitória esmagadora ou pelo menos folgada de Aécio no segundo turno. E uma vitória apertada significará um país polarizado, em que não será difícil tomar medidas duras e potencialmente impopulares.

Amorim Neto acha que, pelo histórico de Aécio, uma aliança com o PMDB não seria difícil. O PSB de Kassab também parece cooptável. Porém, para ampliar a sua base e formar uma maioria sólida e confortável, sem a qual governar o Brasil é muito arriscado – o cientista político cita os casos de Collor e o início do governo Lula, que desembocou no Mensalão –, Aécio se veria na difícil escolha de atrair ou não o que Amorim Neto chama de “a direita varejista”. São partidos como o PTB e o PR, sempre sequiosos dos privilégios de ser governo.

Campos e Marina

Um passo adicional seria atrair o PSB de Eduardo Campos, ao qual Marina se aliou. O cientista político vê como uma conquista muito importante para um eventual governo Aécio. “Se ficar apenas com PMDB e a direita varejista, o governo tucano vai começar com uma cara muito triste, excessivamente conservadora – o PSB traria uma vertente mais à esquerda e daria uma feição mais arejada”, ele diz.

O problema, continua Amorim Neto, é que não é certo que Aécio consiga atrair Campos e Marina, que podem, baseados na sua defesa de uma política sem os vícios tradicionais (se de fato fazem isso ou não é outra questão), recusar a aliança.

Mas seja qual for a base parlamentar costurada por Aécio caso vença, o ajuste econômico propugnado pelos economistas ortodoxos e liberais será dificílimo do ponto de vista político.

“Liberar os preços represados pode ser uma catástrofe em termos de popularidade”, alerta o cientista político, lembrando que, com o enorme aumento da frota de veículos particulares na esteira dos incentivos e do combustível com preço controlado, um grande aumento da gasolina pode ser explosivo.

Na seara da política industrial, Amorim Neto contrasta o evangelho anti-intervenção pregado pelos economistas tucanos com o simples fato de que a Fiat – que, como uma das principais montadoras no Brasil, foi beneficiária da política de incentivos petista – tem sua principal base industrial em Minas Gerais.

Para o cientista político, “Aécio vai ouvir com muita atenção os seus assessores econômicos, mas, como conhece a questão política como ninguém, pode tergiversar no ajuste da economia se perceber que não há condições políticas para medidas excessivamente duras”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada hoje, 23/5/2014, sexta-feira, pela AE-News/Broadcast

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