Agenda não pode ser só da Fazenda, diz Lisboa

Ex-companheiro do ministro Joaquim Levy quando Antonio Palocci era o titular da Fazenda, Marcos Lisboa, atual vice-presidente do Insper, critica populismo econômico dos últimos seis anos e diz que agenda econômica não pode ser só da Fazenda, tem que ser do governo.

Fernando Dantas

17 Fevereiro 2015 | 19h00

Marcos Lisboa, vice-presidente do Insper, ex-executivo do Itaú-Unibanco e ex-presidente do IRB, formou com Joaquim Levy, atual ministro da Fazenda, a dupla de ataque de colaboradores do ex-titular da pasta, Antonio Palocci. Era o início do governo Lula, num momento econômico delicado, e os dois ajudaram a consolidar as bases para os melhores momentos da gestão do popular ex-presidente.

Lisboa mantém intacta sua admiração por Levy: “É difícil imaginar alguém mais qualificado para essa posição neste momento do que o Joaquim”, ele diz. Mas, para o vice-presidente do Insper, existe uma pedra muito difícil de contornar no caminho de Levy: “O problema é que a agenda dele não é uma agenda de ministro da Fazenda, é uma agenda de governo – o Ministério por si só não tem os instrumentos para fazer um ajuste do tamanho necessário”.

O economista nota que a agenda inclui medidas duras, como cortes de benefícios sociais, e precisa passar pelo Congresso e ser vendida à sociedade como um remédio necessário. “A dificuldade é que tudo vai na contramão da campanha – o governo tem de explicar a necessidade e a relevância das medidas mas garantiu durante as eleições que não era necessário”. Para piorar, ele acrescenta, “boa gestão política não parece ser um atributo do atual governo”.

Lisboa observa que, em que pesem as posições assumidas por Levy, a atitude do governo como um todo em relação ao ajuste ainda é de ambiguidade: “É na base do ‘não é bem assim’, ‘não é ajuste’, ou de dizer que o número que sai não quer dizer bem aquilo”. Um problema imediato dessa esquizofrenia entre ações e discursos é que as expectativas não melhoram, o que afeta negativamente variáveis como investimento, inflação, etc.

Mesmo do lado das ações concretas, porém, o economista considera que ainda está faltando muito. O roteiro fiscal da equipe econômica está sendo alvejado pela danosa combinação de resultado primário pior que o esperado em 2014, restos a pagar processados que têm que ser pagos, queda na arrecadação proveniente do despencar da atividade e da mudança de tributação da folha para o faturamento (que é pró-cíclico), aumento do salário mínimo e a constatação de que as medidas de restrição de benefícios sociais (seguro-desemprego, pensão por morte, abono salarial) terão um efeito bem menor a curto prazo que os R$ 18 bilhões almejados.

“Numa conta conservadora, supondo que as MPs (sobre benefícios sociais) sejam aprovadas sem grandes alterações, tudo o que já foi anunciado nos leva apenas a um terço do caminho – ainda estamos muito longe”, avalia Lisboa.

E, como se o quadro não fosse suficientemente ruim, há ainda a perspectiva do racionamento de água e de energia e o desenrolar dos problemas da Petrobrás.

Numa perspectiva mais longa, Lisboa acha que a maior parte dos problemas atuais da economia brasileira deriva de seis anos de populismo depois do período de reformas que abarcou parte das décadas de 90 e de 2000. Para ele, todo o processo de melhora do arcabouço macroeconômico, do ambiente regulatório e do quadro institucional foi desperdiçado. Na sua visão, hoje o Brasil está mais frágil e mais vulnerável ao cenário externo do que nos anos 2000. “Estamos voltando a ser fracos, qualquer coisa lá fora nos afeta, desperdiçamos os ganhos acumulados por causa dessa política populista”.

O economista não vincula suas críticas apenas ao governo federal do PT. Ele acha que o Brasil em diversas esferas e instâncias, viveu a fase populista com a ideia de que “não há restrições, seja de recursos públicos, de energia, de água, etc – o populismo é generalizado”. Agora, todas as restrições estão se impondo simultaneamente.

Assim, Lisboa também é crítico do governo estadual paulista, do tucano Geraldo Alckmin, por não ter iniciado um racionamento hídrico bem antes (ele frisa que o problema não se limita a São Paulo), assim como vê a tentativa de reforma do setor elétrico da presidente Dilma Rousseff como uma operação desastrada que insuflou a demanda num cenário de riscos à oferta.

O economista acha que erros de política pública combinados a fatores climáticos adversos explicam tanto a crise energética de 2001 como a atual. A diferença, para ele, está na reação, que foi acertada na época – com uma ação coordenada e transparente, que conseguiu o engajamento da população, levando a ajuste na demanda sem cortes de fornecimento – e hoje continua falha e incompleta (ele inclui à reação à crise hídrica nesta crítica).

De maneira ampla, seja na macroeconomia, na eletricidade ou na água, Lisboa diz que, na falta de uma correção voluntária, ajustes impostos pelas circunstâncias acabam ocorrendo. A diferença é que estes últimos são mais longos e mais profundos.

“O custo do populismo na campanha sai caro, porque não se faz o que tem que ser feito e agrava-se ainda mais o problema”, ele diz. Para o economista, um ajuste macro na hora certa poderia ter sido feito em um semestre, mas agora ameaça se desenrolar por muito mais tempo, num quadro em que “a economia não cresce de forma relevante há anos”. O risco maior, ele conclui, é que a piora econômica venha a ameaçar até os avanços sociais brasileiros das últimas décadas. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 13/2/15, sexta-feira.