Agora vai com a inflação?

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora de recursos JGP, está mais otimista com a estratégia anti-inflacionária do Banco Central.

Fernando Dantas

24 Novembro 2016 | 17h32

A divulgação em 23/11, quarta-feira, do IPCA-15 de novembro de 0,26%, um pouco abaixo da mediana das expectativas (0,29%), reforçou o otimismo no front inflacionário. Pela primeira vez, Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, acha que há chances de a inflação de 2017 ficar na meta de 4,5%. A sua projeção oficial é de 4,9%, mas ele diz que “0,4 ponto porcentual está dentro da margem de erro”.

Para 2016, a projeção caiu para 6,6%, o que significa que é até possível que o teto de tolerância de 6,5% seja preservado, caso em que Banco Central se pouparia do incômodo de escrever a carta aberta ao Ministério da Fazenda justificando por que o limite foi rompido. Esta possibilidade, continua Rocha, também era impensável há alguns meses. O próprio BC, no Relatório Trimestral de Inflação de setembro, chegou a uma projeção central de IPCA de 2016 de 7,3%.

Entre os 7,3% e a projeção de 6,6% da JGP, registra-se um recuo de 0,7 ponto porcentual (pp), que não é muito diferente da melhora das expectativas do mercado em geral num breve espaço de tempo.

“Num cenário muito desafiador, pelo menos a inflação parece ser algo que está indo para o lugar”, diz o gestor.

As projeções da JGP pressupõem a continuidade do ciclo de corte da Selic, que iria para 10% ao fim de 2017 – com um primeiro corte agora de 0,25 ponto porcentual (pp), na reunião de novembro, seguido de uma sequência de cortes de 0,5 pp a cada reunião até a de dezembro do ano que vem, quando a redução voltaria a ser de 0,25 pp.

Mesmo nesse cenário de expressivo ciclo de relaxamento monetário, o IPCA iria para 4,3% em 2018, um pouco abaixo da meta, portanto. Dessa forma, nota Rocha, se o ciclo for bem menor e mais gradual, haveria um “undershooting” da meta bastante significativo.

A surpresa positiva da inflação nos últimos dois meses, de mais de meio ponto porcentual para 2016, deriva da forte queda dos alimentos, algo bastante conhecido e comentado, mas também de uma desaceleração relevante dos produtos “tradable” (negociáveis internacionalmente). Neste segundo caso, excluindo alimentos, a inflação dos tradables acumulada em 12 meses recuou de um pico recente de 7,6% em abril para 6% em novembro.

O dólar, que chegou a quase R$ 4,2 em janeiro, recuou até níveis próximos a R$ 3,1 no final de outubro, e agora está em torno de R$ 3,4, com o choque da eleição de Donald Trump. Para Rocha, o recuo dos tradables é uma reação gradual ao ciclo de apreciação do real até o final de de outubro.

Com a atividade econômica ainda muito enfraquecida, um fator crucial para o atual processo desinflacionário, o gestor acredita que um dólar que se estabilize em R$ 3,30 ou até R$ 3,40, por conta do efeito Trump, não muda significativamente seus prognósticos otimistas sobre a inflação. No caso, porém, de que o câmbio fosse para R$ 3,80 ou R$ 4,00, haveria um impacto sobretudo na inflação de 2017, cujos efeitos primários Rocha acha que o BC poderia acomodar (neste caso, a meta do ano que vem não seria cumprida) com uma boa justificativa, e sem comprometer a credibilidade. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/11/16, quarta-feira.