Agro e investimento são destaques no PIB

Crescimento da economia no 1° tri veio forte e acima das projeções. Alguns pontos, porém, permanecem obscuros, como as razões para uma demanda bem menor que a produção.

Fernando Dantas

02 de junho de 2021 | 11h55

O PIB do 1º trimestre veio acima da mediana do Projeções Broadcast tanto na comparação (dessazonalizada) com o 4º tri (+1,2%) como comparado ao 1º tri de 2020 (+1%).

Um primeiro destaque do PIB do primeiro trimestre, como indica o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, foi a agropecuária, que cresceu bem acima do esperado, registrando 5,7% ante o 4º tri, na série dessazonalizada, e 5,2% na comparação com o 1º tri de 2020.

Schwartsman observa que, tomando-se o valor adicionado em termos absolutos, já dessazonalizado, o PIB trimestral saiu de R$ 1,761 trilhão no quarto trimestre do ano passado para R$ 1,778 trilhão no primeiro trimestre deste ano, com um aumento de R$ 17 bilhões. Desse acréscimo, a agropecuária contribuiu com R$ 9 bilhões, ou seja, pouco mais da metade. Serviços e indústria contribuíram com aproximadamente R$ 5 bilhões e R$ 2 bilhões.

Já Luana Miranda, economista da gestora Gap Asset, no Rio, chama a atenção para o desempenho dos investimentos (alta de 4,6% ante o 4º tri e de 17% ante o 1º tri de 2020), que já está 19% acima do nível pré-crise, isto é, do quarto trimestre de 2019, na série dessazonalizada.

Há uma grande discussão entre os economistas sobre até que ponto esse ótimo resultado pode ter sido influenciado por questões meramente contábeis sobre a forma como plataformas de petróleo são incluídas nas Contas Nacionais – forma esta que sofreu mudanças.

Miranda destaca essa questão, que lança alguma dúvida sobre o verdadeiro grau da retomada do investimentos, mas diz que ainda assim é provável que o desempenho do segmento tenha de fato sido bastante bom.

Ela nota que a produção de bens de capital da pesquisa da produção industrial do IBGE (PIM-PF) aponta uma alta de 20% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o 4º tri de 2019, na série dessazonalizada.

“Pode ter a questão das plataformas? Pode, mas a produção de bens de capital está bem acima do nível pré-crise”, comenta a analista.

Há, entretanto, outro ponto de dúvida na interpretação dos dados do PIB do primeiro trimestre.

Como nota Schwartsman, o PIB cresceu 1,2% no primeiro trimestre, ante o quarto na série dessazonalizada, mas a demanda, na mesma base de comparação, contraiu-se em 0,6%.

“Não é que isso nunca aconteça, só que é raro e a discrepância está grande”, diz o economista.

A demanda é a soma do consumo das famílias, consumo do governo, investimentos (mais tecnicamente, formação bruta de capital fixo) e exportações, subtraída das importações.

A interpretação desse disparidade ainda não está clara para Schwartsman. Ele nota que, em termos contábeis, se a produção foi maior que a demanda, a diferença são estoques. Mas há que se ver o que ocorreu na economia real.

Na agropecuária, por exemplo, seria possível que a produção num trimestre fosse exportada no seguinte, do ponto de vista do registro nas Contas Nacionais. Isso configura uma situação diferente de um acúmulo de estoques que sinaliza freio na produção.

De qualquer forma, tanto Miranda quanto Schwartsman chamam a atenção que o  “carregamento estatístico” para o ano ficou muito alto, próximo a 5% (dependendo da metodologia, poderia ser um pouco menor, em torno de 4,5%, diz a economista).

Traduzindo o economês, o carregamento significa o crescimento do PIB em 2021 caso não haja mais expansão na margem nos três trimestres que faltam para o ano. Em outras palavras, um nível próximo a 5% pode começar a parecer piso para o PIB do ano, com as projeções tendendo a ir daí para 5,5%, quem sabe até 6% entre os mais otimistas.

Há uma ressalva, claro, como coloca Schwartsman. Isso pode mudar “se acontecer alguma coisa horrorosa em termos da crise sanitária ou da hidrologia [referência à possibilidade de apagão]”.

Revelador do viés de cada economista, ambos os ouvidos nesta coluna veem um crescimento do PIB na margem no segundo trimestre próximo a zero, mas Miranda “no positivo”, e Schwartsman, no negativo.

Não há muita coisa divulgada já sobre o segundo trimestre, mas o consultor chama a atenção sobre a possibilidade de o consumo continuar fraco (caiu 0,8% ante o 4º tri na série dessazonalizada) e diz que “em abril a indicação é que foi meio de lado”.

Já Miranda destaca bons índices de confiança em maio, e sinais positivos como venda de veículos e indicadores de mobilidade.

Em relação ao segundo semestre, a economista considera que os resultados ainda fracos de segmentos como serviços do governo e outros serviços podem até indicar espaço para novas surpresas positivas de crescimento, se a vacinação contiver a pandemia.

A razão é que o setor de serviços como um todo corresponde a cerca de 2/3 do PIB, e assim o seu “religamento” completo poderia ter um efeito positivo muito significativo no resultado final do ano.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/6/2021, terça-feira.