Ajuste de 2015 agita debate eleitoral

A economia está em rota de ajuste, que deverá se aprofundar em 2015. Intensidade da "dor" da correção vai depender de fatores que candidatos não controlam, apesar do discurso eleitoral. Mas recuperação da confiança e acerto da política econômica ajudam, com certeza.

Fernando Dantas

09 de outubro de 2014 | 12h14

O ajuste da economia em 2015 já figura no coração do debate econômico do segundo turno. As estratégias para usar este tema como arma eleitoral parecem traçadas. Do lado do governo, como fica claro nas declarações recentes da presidente Dilma Rousseff e do ministro da Fazenda Guido Mantega, a ideia é dizer que os tucanos querem fazer um ajuste recessivo “como no passado”, com alta de juros, grande aperto fiscal, aumento do desemprego e queda da renda.

No time de Aécio, a recente entrevista de Armínio Fraga a esta coluna revelou como será o contra-ataque: a recessão já começou e vai piorar bastante, inclusive atingindo o mercado de trabalho, se Dilma for reeleita e a atual política econômica for mantida. Já no caso de vitória tucana, o ganho de confiança dos mercados será tal que tornará possível um ajuste suave e gradativo da economia, com pouca dor para muita melhora.

Na verdade, porém, a dureza da correção da política econômica em 2015 é muito difícil de determinar. Fraga tem razão em que o resgate da confiança pode ajudar, mas há dúvidas sobre o quanto de aperto fiscal e monetário – e seu impacto na atividade e no emprego – pode ser “substituído” pelo simples ganho de credibilidade. Teoricamente, Dilma reeleita poderia também tentar a via da confiança, nomeando para chefiar sua equipe econômica alguém com fortes credenciais ortodoxas. Há dois problemas, porém, com essa saída: o estelionato eleitoral, já que na campanha ela vem se batendo contra a visão liberal da economia; e o fato de que há uma percepção generalizada de que a presidente não delega muitos poderes para seus auxiliares econômicos.

O cenário externo, com os desdobramentos do processo de normalização da política monetária norte-americana e a dependência do preço das commodities do ritmo da desaceleração chinesa, será decisivo para determinar a natureza e a intensidade do ajuste no Brasil. É uma variável bastante incerta, que afetará o primeiro ano de governo de qualquer dos dois candidatos que disputam a presidência. É certo que a recuperação da confiança e uma política econômica melhor mitigarão potenciais efeitos adversos do cenário internacional, e os tucanos buscam justamente convencer os eleitores de que são os mais indicados para este desafio. Ainda assim, não há perícia e credibilidade que garantam uma travessia tranquila se houver turbulências muito fortes.

Na sua compreensível tentativa de mostrar que 2015 será um ano melhor com Aécio na presidência do que com Dilma reeleita – afinal, Fraga está em campanha –, o ex-presidente do Banco Central defendeu a ideia de que um ajuste fiscal eficaz pode ser obtido cortando gorduras ligadas à corrupção e a ineficiência, o que seria acompanhado por uma gradativa e cuidadosa revisão de desonerações e subsídios. A ideia é de que as empresas seriam beneficiadas pela melhora do ambiente macroeconômico, por uma reforma tributária que seria lançada no início do governo e pelo deslanche dos investimentos privados em infraestrutura. Neste ambiente mais saudável, a retirada de desonerações e subsídios seria muito mais indolor.

Fica claro que Fraga desenha um cenário de ajuste muito suave, em que “frutos fáceis de colher” se encarregam de mitigar em grande parte os aspectos ruins da correção.

É possível, porém, lançar dúvidas sobre esse cenário benigno. A correção macroeconômica pode ser muito rápida, mas o rescaldo inflacionário, piorado pelo ajuste de preços administrados, pode durar mais e exigir uma dose maior de medicação monetária e fiscal do que a aquela que consta nos prognósticos mais róseos. Em relação à reforma tributária, a tramitação no Congresso pode ser lenta e penosa, o que reduz os efeitos positivos mais imediatos da iniciativa. Na infraestrutura, a longa duração dos projetos também diminui os impactos de curto prazo.

Nos três casos, pode-se argumentar que uma agenda bem pensada e bem lançada pode ter impactos muito rápidos na confiança. A questão é saber qual é o poder da confiança em manter a nave no rumo antes que resultados mais concretos deem uma base mais sólida para a melhora – ainda mais se a credibilidade for quase a única arma para atravessar potenciais turbulências no curto prazo.

Outra dúvida é o ajuste fiscal pela “gordura”. Na verdade, como exaustivamente demonstrado por Mansueto Almeida, um dos assessores de Aécio, e que vem trabalhando em estreito contrato com Fraga, os gastos sociais em sentido amplo foram os grandes responsáveis pelo salto de cerca de cinco pontos porcentuais do PIB das despesas primárias da União nos últimos 15 anos. Assim, INSS, programas sociais e custeio de educação e saúde responderam por cerca de quatro pontos porcentuais do PIB do aumento, enquanto houve recuo superior a 0,5 ponto porcentual do PIB nas despesas de pessoal e de custeio administrativo – de onde teoricamente a “gordura” poderia ser cortada.

Em resumo, o ano de 2015 pode ser mais doloroso do que ambas as candidaturas vêm pintando. Por outro lado, é muito provável que o diagnóstico e a receita apregoados pela campanha governista – de que não há necessidade de ajuste e que a atual política econômica terá prosseguimento – estejam profundamente equivocados, supondo que correspondam a uma visão de boa fé. Caso Dilma seja vitoriosa, é difícil que esse discurso permaneça de pé por muito tempo.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/10/14, quarta-feira.

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