Ajuste forçado e swaps

Fernando Dantas

30 Dezembro 2014 | 09h40

O debate econômico recente no Brasil girou muito em torno de haver ou não um forte ajuste a partir de 2015. Uma corrente apostava que apenas a oposição, caso vencesse as eleições deste ano, empreenderia a correção de rumos necessária. Nesta visão, a presidente Dilma Rousseff, ligada à visão heterodoxa que deu as cartas da política econômica no seu primeiro mandato, “tocaria com a barriga” ou até mesmo “dobraria a aposta”.

Uma outra abordagem da mesma questão não acreditava que a ideologia fosse guiar os acontecimentos, mas sim a conjuntura internacional. Esta corrente lembrava que tanto o ajuste de 1999 quanto o de 2003 não decorreram de escolhas voluntárias do governo.

Na verdade, foi o estrangulamento do financiamento internacional que quebrou o regime de câmbio semifixo, na primeira ocasião, e levou o dólar a R$ 4 na segunda. Tanto numa como noutra ocasião, o disparo da crise foi dado pela combinação de fragilidades internas com um ambiente externo menos complacente.

A partir daqueles dois episódios de desvalorizações selvagens, o roteiro do ajuste veio como reações quase inevitáveis da política econômica e suas consequências: drástica alta de juros, aperto fiscal de emergência e aguda piora do mercado de trabalho viabilizando o reequilíbrio entre os preços relativos dos produtos não negociáveis internacionalmente, que tiveram de cair, e os negociáveis, que subiram.

O raciocínio por trás da visão do cenário internacional como vetor básico do ajuste é o de que nenhum governo voluntariamente adota um receituário tão danoso à sua própria popularidade.

Ao escolher o ortodoxo Joaquim Levy como seu ministro da Fazenda para o segundo mandato, Dilma provavelmente convenceu aqueles que veem a ideologia como o motor básico da política econômica de que o ajuste de 2015 vai ser para valer. Mas agora, com a crise russa contribuindo para que o dólar chegasse a R$ 2,70, a corrente que vê o cenário internacional como determinante também deve nutrir maiores expectativas de que a economia brasileira passe por uma forte correção no próximo ano.

Na verdade, além da possibilidade de que a situação russa se agrave ainda mais – e que haja contágio mesmo com as flagrantes diferenças para pior deste país em relação a outras economias vulneráveis, como o Brasil –, há o espectro no horizonte do início do processo de alta dos juros básicos americanos. Existe uma intensa discussão no mercado sobre quando o aperto começará, mas supondo que os analistas que veem uma alta em meados de 2015 estejam corretos, coloca-se mais um elemento do cenário que contemplaria uma potencial tempestade perfeita. Se, a curto prazo, seus efeitos seriam nefastos no Brasil e em outros países, na perspectiva de um ajuste profundo da economia brasileira uma turbulência mais forte poderia ser o empurrão decisivo, como ficou demonstrado em 1999 e 2003.

Nesse contexto, um elemento crucial da política econômica do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff são os swaps cambiais. Numa visão crítica, trata-se de uma tentativa de frear a fundamental mudança dos preços relativos, e fadada a fracassar se de fato o cenário externo ficar muito hostil. Uma interpretação benigna é a de que os swaps buscam apenas suavizar a inevitável trajetória de desvalorização do real.

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central confirmado para o segundo mandato, sinalizou que a política de aumento líquido do estoque de swaps vai continuar em 2015, mas num ritmo igual ou menor ao atual.

Para um ex-membro da equipe econômica, crítico da duração e do tamanho que a política de swaps alcançou desde que foi lançada em meados de 2013, para fazer frente à turbulência da época, “o ideal era que o BC iniciasse uma redução gradual, mas o melhor momento para isso já passou”. A fonte acha que, agora, será necessário proceder com extremo cuidado, mas não se deve perder o sentido de que os swaps são uma medicação com efeitos colaterais nocivos – frear o ajuste e nublar os sinais dos preços justificáveis pelos fundamentos.

Nesse sentido, continua, uma forte sinalização ortodoxa na política fiscal e de juros permitiria que mais rapidamente se recriassem as condições para a saudável redução gradual do estoque de swaps. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada na AE-News/Broadcast em 17/12/14, quarta-feira.