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Alarme da tempestade perfeita, de novo?

Fernando Dantas

10 de setembro de 2014 | 23h36

O Brasil caminha para uma tempestade perfeita em 2015? A primeira coisa a ser dita diante desta pergunta é que ela já havia sido formulada em relação a 2014, e nada de terrível aconteceu até agora. Assim, à medida que o alarme soa e o mundo não acaba, os alarmistas vão perdendo poder de persuasão.

De qualquer forma, o quadro é suficientemente complicado para merecer uma análise cuidadosa. A mudança ontem de perspectiva do rating do Brasil pela Moody’s, de estável para negativa, indica que há preocupação internacional com a sustentabilidade da economia nacional. Caso venha a ser rebaixado, o Brasil ainda se manterá no território do grau de investimento, mas em seu degrau mais baixo. Na S&P, o Brasil foi rebaixado para BBB-, o mínimo para se ter grau de investimento, em março deste ano.

Em condições normais de temperatura e pressão, as ações das agências de rating costumam ser pausadas. Segundo a Moody’s, o prazo para decidir se rebaixa ou não o Brasil é de 12 a 18 meses. Mas é bem sabido que, no caso de uma deterioração rápida do cenário doméstico ou internacional, ou uma combinação dos dois eventos, as agências podem acelerar suas decisões. O que está claro é que o Brasil caminha na direção da fronteira perigosa do grau de investimento, e no sentido oposto ao que trilhou ao longo dos vários anos exitosos do governo Lula e do início da gestão de Dilma.

Um elemento crucial, entretanto, para saber quão fortes podem ser as trepidações daqui em diante, é a evolução da liquidez internacional. Com taxas de juros internacionais baixíssimas, como vem prevalecendo nos últimos anos, todos os gatos são pardos em termos das exigências que os capitais internacionais fazem para financiar as diferentes economias emergentes.

Isso, porém, pode mudar, à medida que uma parcela importante do mundo rico firmar sua recuperação econômica e engrenar uma alta de juros.

Um economista do mercado financeiro de grande prestígio entre seus pares avalia que os países desenvolvidos passam por uma situação dicotômica. Estados Unidos e Reino Unido estão próximos de dar início ao processo de elevação dos juros básicos, enquanto a Europa continental e o Japão ainda se arrastam na estagnação. Para ele, o Banco da Inglaterra (banco central) pode atuar no início de 2015, e o Federal Reserve (Fed, BC americano) no segundo trimestre do ano que vem.

No caso britânico, porém, há o imbróglio do referendo sobre a separação da Escócia, que agora ameaça de fato levar à saída do país setentrional do Reino Unido. “É muito difícil prever quais as consequências econômicas e nas taxas de juros da vitória do ‘sim’, temos de esperar para ver o que vai acontecer”, diz o economista.

De qualquer forma, o sentido da liquidez nos países anglo-saxões está dado, e é na direção restritiva. Na União Europeia, o analista nota que Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), não tomou até agora nenhuma decisão verdadeiramente bombástica em termos de afrouxamento quantitativo (aumento da liquidez por estratégias não-convencionais). A sua sensação é que a aposta europeia é numa desvalorização do euro, como fator de impulso à demanda externa do bloco, quando Estados Unidos e Reino Unido começarem a subir os juros.

O economista ressalta que, do ponto de vista do Brasil e da maior parte do mundo emergente, com exceção da periferia do euro, o que os Estados Unidos fazem com seus juros é mais importante que o mesmo na zona do euro ou no Japão. Em outras palavras, é para se preocupar, sim, com as condições de liquidez internacional a partir de 2015.

Já Samuel Pessôa, economista-chefe da gestora Reliance em São Paulo, concorda que o aperto monetário anglo-saxão deve começar em 2015, mas ressalva que o processo “deve ser menos intenso do que imaginávamos até algum tempo atrás”.

Estagnação secular

Por causa de complexas razões que vêm sendo intensamente discutidas no âmbito do debate sobre uma possível “estagnação secular” do mundo rico, Pessôa crê que as taxas reais de juros americanas de longo prazo possam subir até um nível de 1% a 1,5%, comparado com uma média histórica no período anterior à grande crise global por volta de 2% a 2,25%.

Por algum tempo, a própria Europa pode contribuir para esfriar o mundo e possivelmente a economia americana, na visão do economista, já que insiste em sair da estagnação pelo impulso da demanda externa. Assim os europeus vêm exportando poupança (que é o mesmo que ter superávits externos) no ritmo de dois pontos porcentuais do seu PIB por ano. Este movimento significa um aumento da oferta mundial de produtos e serviços que tem efeito deflacionário e puxa para baixo as taxas de juros internacionais. Evidentemente, se o euro se desvalorizar ante o dólar, os Estados Unidos pagarão parte do pato da recuperação europeia.

Ainda assim, Pessôa está muito preocupado com as chances de uma tempestade perfeita a partir de 2015. “Se a política econômica não mudar, o risco aumenta bastante”, ele diz (o economista é assessor do candidato tucano à presidência, Aécio Neves).

Segundo seus cálculos, o superávit primário recorrente, que desconta Refis, outorga e bônus de assinatura de concessões e antecipação de dividendos, deve cair para algo em torno de 0% do PIB este ano, tendo encolhido à taxa de 0,7 ponto porcentual do PIB desde 2011, quando foi de 2,1%. Em 2008, era de 3,5% do PIB.

“Há um piora vegetativa do primário, e não porque Dilma tenha aberto as burras, mas sim por questões mais estruturais – a nova presidente ou o novo presidente já partirá no ano que vem de uma projeção de déficit primário de 0,7% do PIB se não houver grandes mudanças”, ele prevê.

Dessa forma, a combinação possível de perda de grau de investimento e alta de juros internacionais colheria o Brasil num momento de debilidade fiscal, e com pouco espaço institucional para reforçar as contas públicas e as perspectivas de solvência do País.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast.

Esta coluna foi publicada em 10/9/14, quarta-feira, pela AE-News/Broadcast

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