Covid-19

Bill Gates tem um plano para levar a cura do coronavírus ao mundo todo

Alerta dos ex-presidentes

Quatro ex-presidentes latino-americanos (incluindo FHC), ex-autoridades econômicas da região e prestigiados acadêmicos divulgam documento sobre como a região deve reagir ao coronavírus, e fazem alerta contra populismo e demagogia.

Fernando Dantas

17 de abril de 2020 | 10h40

Quatro ex-presidentes latino-americanos, além de acadêmicos de prestígios e ex-autoridades econômicas da região, estão lançando um documento que alerta para o risco de políticas populistas, demagógicas e divisivas na reação da América Latina à crise do coronavírus. O documento foi preparado para a reunião da primavera do FMI e Banco Mundial esta semana (que será virtual).

“Vários governos [latino-americanos] reagiram [à Covid-19} prontamente, fazendo da proteção à saúde pública seu objetivo principal. Infelizmente, outros tenderam a minimizar o risco da pandemia, desinformar os cidadãos e desconsiderar tanto a evidência científica quando as recomendações dos seus próprios [do governo] especialistas. Em vez de mobilizarem todos os recursos à sua disposição, alguns líderes escolheram jogar com políticas populistas e divisivas em meio a esta tragédia. A América Latina merece muito mais”, escreveram personalidades como Fernando Henrique Cardoso e os ex-presidentes Ricardo Lagos (Chile), Juan Manuel Santos (Colômbia) e Ernesto Zedillo Ponce de León (México).

Além deles, também são signatários do documento ex-autoridades econômicas como Mauricio Cárdenas (ex-ministro das Finanças da Colômbia), Andrés Velasco e Rodrigo Valdés (ex-ministros das Finanças do Chile), José de Gregorio (ex-ministro da Economia, Mineração e Energia e ex-presidente do BC do Chile), Ilan Goldfajn (ex-presidente do BC no Brasil) e Federico Sturzenegger, ex-presidente do BC da Argentina.

E há ainda acadêmicos de prestígio internacional como Ricardo Hausmann, de Harvard, Eduardo Yeyati, da Universidade Torcuato di Tella (Buenos Aires) e Robert Chang, da Rutgers University (EUA).

Segundo o documento, intitulado “Imperativos éticos e econômicos em confrontar a Covid-19: A visão da América Latina”, a principal prioridade dos governos da América Latina deveria ser a de minimizar as infecções e as mortes pela Covid-19.

Assim, tarefas de primeira ordem são ampliar e melhorar os sistemas de saúde, transferir recursos para hospitais, fazer hospitais de campanha e aumentar drasticamente a testagem da população.

Os autores notam que, além do maciço choque econômico que afeta o mundo inteiro, países latino-americanos sofrem em particular com o recuo de volumes e preços de exportação, queda do turismo e das remessas de expatriados e grande fuga de capital.

Assim, as recomendações econômicas são – em linha com o que já vem sendo feito em vários países, Brasil e inclusive – de usar recursos públicos para sustentar renda familiar, empregos e empresas.

Os signatários alertam para o risco de “colapso econômico” se uma onda descontrolada de falência atingir o sistema bancário.

Particularmente vulneráveis são pequenas e médias empresas, que devem ser ajudadas com deferimento de impostos, rolagem de dívidas e crédito subsidiado. Recomenda-se também a atuação de bancos públicos “bem capitalizados e bem geridos” .

Um problema particular, segundo o texto, é que a expansão fiscal necessária agora é muito maior do que durante a grande crise financeira global, mas situação das contas públicas dos países da região está mais apertada.

Dessa forma, é preciso compensar o aumento de despesas com cortes em áreas de baixa prioridade e coordenar Executivo e Legislativo para reordenarem as finanças públicas num horizonte temporal razoável, de forma a reduzir o risco e a ameaça de “downgrades” de crédito.

Mas os signatários do documento não acham que os esforços devam se limitar à esfera doméstica de cada país latino-americano.

Deveria haver um esforço coordenado dos chefes de Estado da região em âmbito internacional, com diversos objetivos: lutar por mais financiamento a Organização Mundial de Saúde; por mais coordenação global em termos de produzir e administrar testes e buscar vacina e cura; e mais suporte financeiro internacional para países em que a Covid-10 possa levar a uma crise externa, especialmente algumas nações pequenas e mais pobres da região.

O documento alerta para a possibilidade de que, com déficits tanto do governo quanto do setor privado, os déficits em conta corrente cresçam em meio à maior fuga de capital da história moderna dos mercados financeiros.

Assim, o apoio financeiro oficial externo (tipicamente, do FMI) tem que aumentar muito e ser muito mais ágil. Os signatários fazem uma série de recomendações ao Fundo em termos de aumentar seus recursos (uma nova emissão de direitos especiais de saque, a “moeda” do FMI, no valor de US$ 1 trilhão); adaptar os programas já existentes para elevar e agilizar os repasses e reduzir condicionalidades; e criar novos programas se e quando for necessário.

Também se recomenda que os principais bancos centrais do mundo, que emitem moeda com poder de reserva, ampliem o acesso às suas linhas de swap para os outros BCs. E os bancos centrais domésticos, naturalmente, devem usar todo o seu arsenal (ou até aumentá-lo) para garantir a liquidez nas moedas domésticas.

Finalmente, bancos multilaterais como o Banco Mundial e o BID deveriam dobrar sua exposição líquida com os países latino-americanos, captando o que for preciso nos mercados globais superlíquidos pelas ações dos grandes BCs. Em casos extremos de países que percam totalmente o acesso aos mercados internacionais, suspensões do serviço da dívida poderiam complementar o apoio dos bancos oficiais.

O documento conclui com a recomendação de que “confiança mútua, transparência e razão – e não populismo e demagogia – permanecem como os melhores guias nestes tempos incertos”. Para os signatários, a crise do coronavírus não deveria levar a um enfraquecimento da “democracia duramente conquistada” na região, mas sim se transformar numa oportunidade de fortalecê-la e de mostrar o que ela poder oferecer aos cidadãos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/4/2020, quinta-feira.

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