Algum alívio no front econômico

Desde o final de março, houve discreta melhora de indicadores do mercado financeiro e econômicos, o que não quer dizer que situação do Brasil não permaneça crítica.

Fernando Dantas

06 de maio de 2021 | 20h28

Os ativos brasileiros vêm dando alguns sinais de tranquilização recentemente, mas ainda sujeitos a fortíssima volatilidade.

O câmbio recuou de R$ 5,7 em 21 de março para R$ 5,28 hoje (no momento em que esta coluna foi concluída). O Ibovespa veio de 112 mil pontos em 24 de março para quase 120 mil agora.

A curva de juros pelo menos parou de empinar desde o fim de março. O CDS (medida de risco) brasileiro de cinco anos recuou de 220 no fim de março para cerca de 190 agora.

Esse alívio sem nenhuma dúvida tem grande componente externo. Não por coincidência, o DXY, o índice que mostra a cotação do dólar contra a cesta das principais moedas para o comércio exterior dos Estados Unidos, recua desde o final de março, saindo de mais de 93 para aproximadamente 91.

Também pode ser considerado como vento externo benéfico a aceleração da economia global, nas asas da recuperação espetacular da economia chinesa e da retomada dos Estados Unidos turbinada por gigantescos estímulos fiscais.

No final de março, a Organização Mundial de Comércio (OMC) projetou que o comércio global em volume deve crescer 8% este ano, após recuo de 5,3% em 2020.

Esse quadro internacional combina-se com o real fortemente desvalorizado para condicionar um robusto superávit comercial do Brasil este ano – que pode atingir a faixa de US$ 70/80 bilhões. O efeito principal vem pelo lado das commodities em alta muito forte, mas até em manufaturados se registra reação das exportações brasileiras.

Em termos de fluxos financeiros a situação também melhorou. Já há projeções até de ligeiro superávit em conta corrente este ano e de uma situação bem mais tranquila no balanço de pagamentos.

No front da vacinação, o Brasil já aplicou uma dose a quase 16% da população e as duas a ligeiramente mais do que 8%. Na comparação internacional, é um ritmo bastante medíocre, e o nível ainda está muito longe de fazer uma diferença decisiva nos números totais de novas infecções e mortes.

Por outro lado, a média diária de mortes registradas pelo sistema do Ministério da Saúde em sete dias consecutivos caiu de um recorde desde o início da pandemia de 3124 em 12 de abril para 2316 ontem.

É errado dizer que o pior já passou, já que pode haver novas ondas. Mas dá para afirmar que, ao menos momentaneamente, a trajetória de queda das mortes nas três últimas semanas representou um pequeno alívio em relação aos momentos de máximo dramatismo da Covid-19 no Brasil até agora.

Saindo-se desses fatores sobre os quais a política econômica tem nenhuma ou mínima influência, adentra-se a questão mais difícil: será que também as ações do governo no sentido amplo, incluindo o Legislativo, evoluíram recentemente numa direção um pouco menos aflitiva para os investidores?

É muito difícil de saber. Mas há a impressão de que o desfecho do imbróglio do orçamento de 2021 não foi tão terrível quanto pintam os fiscalistas mais rigorosos.

É verdade que o orçamento em termos microeconômicos está cada vez pior, como argumentou em recente Carta do Ibre Luiz Guilherme Schymura, diretor do think tank.

As emendas parlamentares explodiram, pulverizando de forma não coordenada recursos públicos que poderiam ser alocados de forma centralizada e racional em investimentos e gastos de custeio que ajudassem a impulsionar a economia.

Por outro lado, do ponto de vista macroeconômico, o ferrolho do teto dos gastos, aos trancos e barrancos, foi mantido. É verdade que estão excetuados do limite mais de R$ 100 bilhões de gastos relativos à pandemia – mas os fundamentalistas fiscais queriam o quê?

É impensável não fazer os gastos médicos necessários num contexto de pandemia, não gastar com vacinas, deixar à mingua informais que não podem sair à rua para batalhar o pão de cada dia ou assistir impassível à quebradeira de pequenas e micro empresas porque seus setores de atuação estão “desligados” temporariamente.

O fato é que em 2021 o governo federal contará com o menor orçamento para custeio e investimento desde 2009, quando o dado começou a ser calculado. O risco de shutdown é real. É lamentável que, em termos microeconômicos, torre-se quase todo o dinheiro federal em folha, transferências, subsídios e emendas, mas do ponto de vista macrofiscal não se chutou o pau da barraca.

Chega-se finalmente à política monetária, pela qual o Banco Central enfrenta o maior pepino até agora – a alta da inflação – causado pela combinação de pandemia e desgoverno.

Ontem, o Copom buscou ajustar o tom da comunicação sobre o ciclo de alta da Selic em curso, e a reação do mercado hoje parece ter sido positiva – embora muito do que ocorre vem direto de fora.

O problema do BC é sério, já que a inflação vai estourar muito a meta este ano (pode até superar o limite de tolerância) e a percepção hoje é de que também o IPCA de 2022 ficará acima da meta. Não se configura por enquanto, contudo, uma situação de descontrole completo ou a “antessala da dominância fiscal”.

Tudo somado, parece que o cenário econômico já esteve pior do que está no momento (o que não quer dizer que esteja bom). Houve até elevação da projeção de crescimento para 2021 nos últimos dias por uma ou outra instituição.

O grande problema permanece, como desde 1º de janeiro de 2019, a absurda insensatez do presidente Jair Bolsonaro que, a qualquer momento, pode cismar de fazer mais uma rodada de tiros nos próprios pés.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/5/2021, quinta-feira.