Alhos e bugalhos no papel dos BCs

Fernando Dantas

09 de agosto de 2013 | 17h20

O novo presidente do Banco da Inglaterra (BC), o canadense Mark Carney, decidiu que a taxa básica britânica vai permanecer no seu atual nível baixíssimo, de 0,5% (o menor em 319 anos da instituição), pelo menos até que a taxa de desemprego do país caia do seu nível atual de 7,8% para 7%. Ele próprio estimou que este processo possa durar mais três anos, o que levaria a política de juro quase zero para um mínimo de sete anos de duração, já que a taxa básica caiu para este nível no início de 2009.

Essa política pode ser revertida em algumas circunstâncias, como uma alta perigosa das expectativas de inflação do público, ou uma previsão do BC inglês de que a inflação subirá acima de 2,5% em 18 a 24 meses, ou algum risco para a estabilidade financeira.

Carney presidiu o Banco do Canadá (BC) entre 2008 e junho de 2013, iniciou o seu mandato à frente do Banco da Inglaterra com um passo ousado, sinalizando firme disposição de tirar o país do marasmo econômico pós-crise global.

A sua decisão de vincular a política monetária britânica a uma meta de desemprego vem na esteira de decisão semelhante do Federal Reserve (Fed, BC americano), que vai manter o juro básico em quase zero pelo menos até  que o desemprego caia para 6,5% ou a inflação passe de 2,5%.

Esta volta do controle do desemprego como objetivo explícito de dois dos mais importantes BCs do mundo está sendo saudada por alguns analistas como um triunfo do keynesianismo sobre o monetarismo.

Este é o caso, por exemplo, do economista e jornalista Anatole Kaletsky, baseado na Grã-Bretanha, e que escreve regularmente para importantes veículos da imprensa internacional.

Ele abre um artigo para a Reuters, com data de hoje no site da organização, com a frase bombástica de que “a era do monetarismo laissez-faire acabou”. No texto, Kaletsky diz que “um após o outro, os governos e os bancos centrais nas principais economias estão aceitando a responsabilidade de gerenciar o desemprego que eles abandonaram nos anos 70, durante a contrarrevolução monetarista contra o keynesianismo”.

Não há dúvida nenhuma de que a grande crise global de 2008 e 2009 tirou os bancos centrais do mundo inteiro da sua zona de conforto, encerrando uma fase em que havia uma ideia de que a missão básica da autoridade monetária (à parte da fiscalização, que pode ou não ser feita no âmbito do BC) era o de usar um instrumento, a taxa básica de juros, para perseguir um objetivo, a meta de inflação (explícita ou implícita). É claro que se tentava minimizar as oscilações do produto e do emprego neste processo, e que se cuidada também da estabilidade financeira, mas o combate à inflação  dos preços ao consumidor ganhou uma centralidade muito forte na fase que culminou na crise global.

No mundo pós-crise, uma série de questionamentos começou a ser feita, numa reflexão que envolveu os principais órgãos do establishment financeiro internacional, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Será que os BCs também não deveriam se preocupar também com a disparada do preço de ativos, que é um sintoma de bolhas? Até que ponto a regulação deve ser macroprudencial, isto é, não olhar apenas para a saúde individual das instituições financeiras, mas levar em conta também os riscos encadeados e o papel que o regulador pode ter de se contrapor ao crescimento de bolhas de ativos.

Todos os bancos centrais do mundo incorporaram essas questões ao seu dia a dia e, se ainda estamos longe de respostas definitivas, é certo que nenhuma autoridade monetária hoje pensa o seu papel da forma extremamente circunscrita que prevaleceu no momento de ouro do sistema de metas de inflação, no período pré-crise.

Existe, porém, um grande risco em levar longe demais o apetite por mudanças nos bancos centrais na fase pós-crise. Este risco é especialmente agudo para países como o Brasil e a Turquia, cujos bancos centrais ficaram particularmente entusiasmados com a janela de oportunidade para mudanças na forma de operar. Em ambos os casos, os resultados não foram muito satisfatórios.

E isto ocorre em grande parte porque, ao se pensar o papel dos BCs no mundo pós-crise, é fundamental separar os países onde a bolha imobiliária e/ou financeira desenvolveu-se em grande escala, e depois estourou, com consequências devastadoras, e aqueles nos quais nada disto ocorreu.

Em grande parte do primeiro grupo, vive-se desde a crise a chamada “armadilha de liquidez”, com risco permanente de espirais de redução de gastos e deflação. Este é o típico mundo keynesiano, onde as lições mais conhecidas do grande economista inglês são mais válidas.

Nesse contexto, não é preciso ser extremamente heterodoxo para apoiar a meta de desemprego que Bernanke e Carney introduziram para os respectivos BCs. Muitos economistas moderadamente ortodoxos concordarão que este é possivelmente um remédio adequado para o tipo de problema que Estados Unidos e Reino Unido enfrentam na atualidade.

O caso brasileiro, porém, é inteiramente diferente. Como muitas outras nações emergentes, e particularmente as exportadoras de commodities, o Brasil, após superar o impacto inicial da quebra do Lehman, viveu um momento econômico muito favorável no período pós-crise, que só recentemente parece estar chegando ao seu fim. Os termos de troca do Brasil subiram cerca de 25% da crise até o pico mais recente, do qual já recuaram um pouco (mas ainda se mantêm em nível historicamente alto).

No ambiente brasileiro atual, as premissas clássicas do sistema de metas de inflação pré-crise permanecem quase todas de pé. É evidente que novas dimensões têm de ser acrescentadas, como a questão da vigilância sobre os preços de ativos e a supervisão macroprudencial.

Uma dificuldade específica que afetou emergentes como o Brasil no período pós-crise foi a inundação de capitais, que valorizou as moedas, na esteira do expansionismo monetário do mundo rico. Este problema reintroduziu a questão dos controles de capitais, uma discussão que o FMI também abraçou, e que foi útil. Agora, a perspectiva de normalização monetária nos Estados Unidos causa um efeito inverso, de desvalorização cambial muito abrupta.

De qualquer forma, análises como a de Kaletsky trazem o grave risco de fazer com que os incautos misturem alhos e bugalhos. A “revolução” keynesiana nos BCs centrais ocorre porque os países ricos vivem tempos keynesianos. Um mínimo de moderação e ecletismo é suficiente para entender que o atual receituário dos Estados Unidos não faz muito sentido em países como Brasil, Austrália e Turquia, para citar poucos exemplos.

É bom lembrar que a equipe econômica brasileira encantou-se de tal forma com o resgate keynesiano no período imediatamente posterior à eclosão da crise global que decidiu prolongar o festival de estímulos muito além do recomendável (em parte também pensando nas eleições presidenciais), levando ao boom insustentável de 2010 e a todos os problemas que a economia brasileira carrega até hoje. É bom manter a cabeça fria desta vez.

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News Broadcast

 

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