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Alimentos, a pedra do sapato do Banco Central

Fernando Dantas

27 de março de 2014 | 13h00

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, costuma chamar a atenção para o fato de que, num país que é um dos principais celeiros do mundo, a inflação de alimentos ao longo dos últimos anos transformou-se numa das piores pedras no sapato do Copom. Assim, o conjunto alimentação domiciliar do IPCA foi de 10,4% em 2010, 7,2% em 2011, 9,9% em 2012 e 8,5% em 2013.

Para 2014, havia alguma expectativa de que a alimentação pudesse afinal dar algum refresco. Mas problemas climáticos – como secas no Brasil, Austrália e Estados Unidos – estão levando a inflação dos alimentos novamente para terreno desconfortável. Entre analistas, já há quem esteja prevendo 9% este ano.

A carne bovina em São Paulo, por exemplo, subiu 5,6% entre 24 janeiro e 25 de fevereiro, e outros 6,1% entre 25 de fevereiro e 25 de março. Na terça-feira, era cotada a R$ 127,71 a arroba, com um avanço de quase 30% em relação a cotação há um ano.

O problema climático atinge não só o Brasil, mas também a Austrália e os Estados Unidos, onde há relato de gado morrendo no Texas.

No caso do leite, houve deflação dos principais itens do IPCA em diferentes momentos do segundo semestre, e há risco agora de alta mais forte, com elevações consideráveis já ocorrendo nas últimas semanas.

“Quando fazemos o balanço do risco da nossa projeção de alimentação, está tudo apontando para cima”, diz Vinicius Botelho, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV-Rio, que hoje prevê alta de 7% para o grupo alimentação no ano (o número anterior, que ainda está para ser oficialmente ajustado, era de 5,5%).

Tomás Brisola, economista-chefe do banco BBM, considera que o problema da alimentação tem um componente climático e outro cambial. No primeiro caso, como é típico deste setor, ele acha que a pressão tende a se reverter mais adiante. Já o câmbio é um fator mais duradouro.

É verdade que o real apreciou-se recentemente para próximo de R$ 2,3, e as projeções do BBM ainda embutem uma cotação de R$ 2,45 até o final do ano. Brisola nota que o câmbio de hoje pode ajudar, se for mantido por um período significativo, mas lembra que “o ajuste que julgo necessário para reequilibrar a economia brasileira envolve justamente um câmbio mais desvalorizado – então, mesmo ajudando um pouco na inflação, o câmbio de hoje não é necessariamente uma coisa boa”.

As projeções do BBM são inflação de alimentos no domicílio entre 7,5% e 8% em 2014, e fora do domicílio de 11% (neste caso, porém, trata-se de um serviço, e está ligada à pressão geral neste setor).

Brisola observa que o novo choque de alimentação, mesmo que possivelmente não tão forte quanto o de 2012, atrapalha o Banco Central por ser a gota d’água num cenário inflacionário já bem adverso, com inflação de serviços pressionadas, pressão altista do câmbio não só na alimentação mas nos produtos comercializáveis internacionalmente (“tradables”) em geral e represamento dos preços administrados.

O BBM prevê IPCA de 6,7% em 2014, estourando o teto da meta, de 6,5%. “Há uma chance de mais de 50% de que o teto seja ultrapassado”, diz Brisola.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada ontem, quarta-feira, 26/3/14, pela AE-News/Broadcast.

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