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Alta da comida, do atacado ao varejo

Alimentos (mas não só eles) têm sido o canal de transmissão entre a fortíssima alta do IPA, índice de preços do atacado, e o IPCA, índice de inflação ao consumidor que serve de meta para o Banco Central.

Fernando Dantas

14 de outubro de 2020 | 10h54

O principal canal de transmissão entre o índice de preços ao atacado (IPA), que disparou, e o IPCA são commodities agropecuárias importantes como soja, milho, trigo e carnes – nesse último caso, aves, suínos e bovinos vivos.

Nos 12 meses de outubro de 2019 a setembro de 2020, o IPA atingiu o valor estratosférico de 26,03%, sendo que, apenas em 2020, acumulou 20,77%. Já os bens finais no IPA tiveram alta de 13,19% em 12 meses, e de 7,71% no ano.

As inflações em 12 meses, no IPA, de bens intermediários e matérias primas brutas assumem algumas cifras impressionantes: farelo de soja, 66,5%; soja em grão, 75,44%; arroz (em casca), 123,30%; milho (em grão), 72,46%; bovinos, 59,22%; suínos, 76,16%.

Não são surpresa, portanto, as fortes altas de alimentos (embora em outro patamar, claro) no IPCA. No índice oficial da meta, em setembro, o item alimentação e bebidas subiu 2,28%, sendo responsável por 0,46 ponto porcentual do IPCA cheio de 0,64% do mês passado. Na alimentação domiciliar, os alimentos semielaborados e processados subiram, no IPCA de setembro, respectivamente, 5,3% e 2,09%. Os in natura recuaram 0,75%, mas sobem 13,97% no ano.

Como explica o economista André Braz, especialista em inflação do Ibre/FGV, a alta do preço das commodities alimentícias aliou-se à desvalorização do real para aumentar fortemente o custo dessas matérias primas, que servem à produção de diversos bens finais no segmento de alimentação.

O cenário internacional também contribui para a pressão nas matérias primas da indústria de alimentos. Com a intensa desvalorização do real, o Brasil, grande produtor de commodities, tornou-se um vendedor de matérias primas ainda mais competitivo.

À medida que o impacto econômico negativo da Covid-19 vai ficando para trás, e as economias se normalizam, a China e outros países aumentam suas compras do Brasil, reduzindo a oferta doméstica dos produtos. As carnes, em particular, sofrem em cheio esse efeito.

Como observa Braz, “é bom para a balança comercial, mas vira um desafio a mais no front da inflação”.

Outros economistas vêm notando que, possivelmente, há um aquecimento mundial do mercado de alimentos, já que programas de sustentação da renda, como o auxílio emergencial, foram implementados em diversos países.

Normalmente, era de se esperar que a perspectiva de melhora na balança comercial fosse um fator de valorização do real, mas, no atual cenário, isso não vem acontecendo. A principal explicação é o temor do descontrole fiscal, após um ano de gastos, déficit e aumento da dívida extraordinários.

Braz acrescenta que, embora a alimentação seja o principal canal de pressão do IPA sobre o IPCA, outros setores também preocupam, à medida que a economia vai retomando.

Um caso bem evidente é o dos insumos da construção civil. Segundo o economista do Ibre, esse segmento também sofre a pressão do dólar, já que itens como vergalhões de aço, esquadrias de alumínio, cimento, tubos e conexões e tintas são dolarizados.

E, finalmente, há, no IPA, produtos domésticos elétricos e eletrônicos que também sofrem pressão, com elevadas inflações no ano, como o caso de fogões de cozinha (5,56%), fornos de micro-ondas (17,12%), refrigeradores e freezers (13,52%), televisores (9,42%) e computadores pessoais (14,53%).

Uma combinação de fatores pode explicar essas altas, segundo Braz. A pandemia, que impossibilitou o consumo de serviços, criou uma poupança, especialmente da classe média para cima, que pode estar levando a aquisições para renovar os equipamentos domésticos. E a necessidade de trabalhar em home office pode ter impulsionado a compra de celulares e computadores. Além disso, a própria alta do minério de ferro, de 71,63% em 12 meses, encareceu as chapas de aço usadas na fabricação de eletrodomésticos.

A grande questão é saber se essas fortíssimas pressões vindas do IPA podem provocar um descontrole maior da inflação ao consumidor e das expectativas inflacionárias.

Por enquanto, Braz não vê muito risco de um cenário como esse, já que a economia permanece muito desaquecida e dependente da retomada do mercado de trabalho. Outro fator desinflacionário que pode se apresentar mais adiante é o fim da poupança extra criada durante a pandemia, à medida que os gastos normais das famílias retornam (como o pagamento integral de mensalidades escolares).

De qualquer forma, o BC deve estar monitorando com atenção qualquer possibilidade de contágio das expectativas pelo significativo impacto psicológico de altas fortes da inflação corrente de importantes itens da cesta de consumo dos brasileiros. E, por enquanto, sem qualquer contribuição do câmbio para aplacar pressões inflacionárias.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/10/2020, terça-feira. 

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