Alta “modesta” do déficit externo

Mudança metodológica, cuja divulgação está prevista para esta quarta-feira (20/4/15), deve produzir alta "modesta" no déficit em conta corrente, que será automaticamente acompanhada por elevação correspondente do financiamento.

Fernando Dantas

21 de abril de 2015 | 19h24

O déficit em conta corrente do Brasil deve subir de forma “modesta” com a divulgação, prevista para esta quarta-feira (22/4), das estatísticas do setor externo de acordo de acordo com a sexta edição do Manual de Balanço de Pagamentos e Posição Internacional de Investimento (BPM6) do Fundo Monetário Internacional (FMI). Paralelamente, de forma automática, o financiamento do déficit em conta corrente também subirá na mesma proporção, com o aumento de rubricas como o investimento externo direto (IED) e os investimentos de portfólio em renda fixa. As informações sobre os efeitos da BPM6 são de fontes da equipe econômica.

O BPM6 leva em consideração desenvolvimentos econômicos e financeiros globais dos últimos quinze anos, e harmonizam-se com a nova metodologia das Contas Nacionais, recém-introduzida no Brasil (SNA 2008).

A mudança nas contas externas coroa um esforço de dois anos do Banco Central, sendo que as primeiras considerações sobre a questão iniciaram-se há cinco anos. Na prática, na divulgação mensal dos dados das contas externas pelo BC, haverá uma série de mudanças em termos de aberturas, quadros, tabelas e séries, que passarão a refletir melhor a participação dos estrangeiros na economia brasileira. Na quarta-feira, serão apresentadas as contas externas pela nova metodologia de março de 2015, e retroativamente desde janeiro de 2014.

Uma das mudanças mais significativas ocorrerá no IED. As contas externas já captavam a parte do lucro derivado de IED que era remetida para fora, mas não tinha fonte para os lucros que ficavam no País e eram diretamente reinvestidos em reais. Pela nova metodologia, esta parte interna dos lucros reinvestidos passa a ser considerada IED, o que aumentará o investimento direto. Simultaneamente, esses recursos passam a ser contabilizados como um pagamento de renda sobre o capital estrangeiro aqui investido, o que amplia o déficit em conta corrente. De maneira muito simplificada, é como se os lucros do IED diretamente reinvestidos em reais no País fossem considerados ao mesmo tempo um aumento das rendas pagas a estrangeiros e uma ampliação do investimento direto estrangeiro no País.

Um processo bem semelhante ocorrerá com o financiamento do déficit em conta corrente por emissões de renda fixa, no qual a participação dos não-residentes saltou de 1% em 2006 para aproximadamente 20% hoje. Neste caso, os juros pagos para não-residentes pelo critério de caixa em reais – tipicamente em emissões que pagam cupons, e que são automaticamente reinvestidos – serão contabilizados como juros pagos (o que aumenta o déficit em conta corrente) e reinvestidos (o que amplia o ingresso de capitais em investimentos de portfólio de renda fixa). Segundo a fonte da equipe econômica, esse fluxo “era captado de forma muito residual, e agora será captado de forma mais apropriada”. A fonte nota que são fluxos em reais, que não pressionam diretamente o câmbio, e que levam a um aumento das despesas com juros que é automaticamente refinanciado.

Outra das várias mudanças é que os empréstimos feitos por subsidiárias de empresas no exterior a suas matrizes no País passam a ser considerados IED, e não um abatimento do investimento brasileiro direto no exterior.

A expectativa da equipe econômica é que a nova apresentação das contas externas brasileiras seja bem recebida pelos analistas, inclusive pelo maior grau de racionalidade e transparência que dará aos fluxos entre o País e os estrangeiros.

A visão é de que algum aumento do déficit em conta corrente será percebido como uma questão eminentemente contábil, e que traz consigo um aumento equivalente automático das fontes de financiamento. Em termos de comparabilidade internacional, a nova metodologia, cujo manual foi editado em 2010, já foi adotada por países como Estados Unidos, várias nações da Europa, Canadá, Austrália, Coreia do Sul e Malásia. Na América Latina, apenas Chile e Colômbia já a adotaram.

A fonte da equipe econômica nota que a divulgação das contas do balanço de pagamentos brasileiro tem um nível de desagregação muito maior do que o de economias comparáveis, como o México, além de ter frequência mensal, o que é raríssimo no panorama mundial. Isso fez com que a adoção do BPM6 demorasse mais. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 20/4/15, segunda-feira.