América Latina desacelera

Fernando Dantas

14 de maio de 2014 | 18h51

Segundo o relatório LatAm Macro Monthly, do Itaú, de maio de 2014, o crescimento na América Latina permanece fraco, mesmo com condições favoráveis de recuperação americana combinadas a taxas de juros internacionais ainda excepcionalmente baixas. No Panorama Econômico Regional do FMI sobre o Hemisfério Ocidental, de abril deste ano, a previsão é de crescimento de 2,5% para a América Latina e o Caribe, com o ritmo caindo ano a ano – 4,5% em 2011, 3% em 2012 e 2,75% em 2013.

Apesar da recente divisão das principais nações latino-americanas em grupos com diferentes tipos de política econômica e de desempenho, a desaceleração é bastante generalizada. Naquela visão, Chile, Peru, Colômbia e México seguem o “modelo do Pacífico”, mais liberal e com economias mais abertas, enquanto Brasil, Argentina e Venezuela, com o modelo do Atlântico, apostaram em mais fechamento e intervencionismo.

Esse tipo de interpretação pode ser notado, por exemplo, em recente resposta que Willem Buiter, economista-chefe do Citigroup, deu ao celebrado colunista inglês Martin Wolf, quando este lhe perguntou sobre as perspectivas da América Latina. Segundo Buiter, o México está bem, talvez até ótimo, desde que aumente a sua taxa de investimentos até 25% do PIB. Chile, Peru e Colômbia estão bem; Equador, Paraguai e Bolívia, razoáveis; Brasil, medíocre; Argentina, sofrível; e Venezuela, desastrosa.

A análise do Itaú, porém – ainda que mais conjuntural –, reduziu as projeções de crescimento do México e do Peru, e manteve previsões abaixo do potencial para Brasil e Chile. A exceção positiva é a Colômbia, onde a economia aquecida levou o banco central a elevar os juros em abril.

No México, o Itaú reduziu a projeção de crescimento de 3% para 2,7% em 2014, mantendo a previsão de 3,8% para 2015. Há otimismo em relação ao trâmite da reforma do setor de energia no Congresso, mas os benefícios em termos de crescimento ainda estão por ser colhidos.

A produção industrial mexicana teve recuo de 0,1% em maio, comparada ao mês anterior, abaixo das expectativas do mercado. Ainda que a alta tenha sido maior que a esperada na comparação com março de 2013, relatório do Nomura nota que o setor manufatureiro teve contração e conclui que “permanece o fato de que os sinais de forte crescimento ainda estão ausentes”.

No Chile, segundo o Itaú, a economia cresceu abaixo do potencial no primeiro trimestre de 2014, com diversos indicadores de consumo piorando, e surpresas negativas na inflação. A projeção é de crescimento de 3,3% em 2014, com retomada de 4% em 2015.

Para o Peru, o Itaú reduziu a projeção de crescimento do PIB em 2014 de 5,6% para 5,3%, em função de revisões para baixo na produção mineral. A previsão para 2015, porém, foi ampliada de 5,6% para 5,9% em 2015. O Peru ainda é claramente uma estrela em termos de desempenho econômico na América Latina, mas com uma situação política complicada: a popularidade o presidente Ollanta Humala está em recordes de baixa, ligeiramente superior a 20%.

Como se vê, o quadro latino-americano é complexo, com boa parte da região afetada pelo fim do boom de commodities, e países diretamente dependentes dos Estados Unidos, como o México, ainda à espera de uma retomada total da economia americana. Por outro lado, isso levaria a uma alta das taxas de juros internacionais, que poderia afetar países com déficit em conta corrente que se misturam no grupo do Pacífico e do Atlântico: Brasil, Chile, Peru, entre outros.

Se há uma lição clara na última década latino-americana é que experimentos heterodoxos radicais como os da Venezuela e da Argentina são uma receita para o desastre. O caminho contrário, porém, da busca do desenvolvimento com receitas mais tradicionais e moderadas, continua se revelando difícil e penoso. A América Latina ainda permanece como um estacionamento de economias no patamar da renda média.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na segunda-feira, 12/5/14.

Tendências: