América Latina na rabeira

Conjunto de países latino-americanos e caribenhos tem a pior projeção regional de crescimento em 2022 do FMI. Leste Asiático, em contraste, sai mais forte da pandemia.

Fernando Dantas

01 de dezembro de 2021 | 20h11

A América Latina e o Caribe são a região do mundo com menor projeção de crescimento em 2022, de acordo com os últimos números do World Economic Outlook (WEO, na sigla em inglês, Panorama Econômico Global) do FMI.

A previsão do WEO de crescimento para o mundo no próximo ano é de 4,9%, enquanto a da América Latina é de apenas 3%, atrás dos países avançados (4,5%), da Ásia emergente (6,3%), da Europa emergente (3,6%), do Oriente Médio e Ásia Central (4,1%) e da África Subsahariana (3,8%).

Para analisar o desempenho das regiões frente à pandemia, é preciso levar em conta todo o período desde o início de 2020. Os números acima não significam, portanto, que a América Latina seja a região que se saiu pior, mas fica claro que o ano à frente será bem difícil.

O Brasil, em particular, tem uma previsão de crescimento para 2022 de apenas 1,5% pelo WEO.
E mesmo esse número reflete a defasagem típica de uma instituição como o FMI que apresenta suas novas projeções em bloco para quase todos os países do mundo.

Pela pesquisa Focus, do BC, junto a participantes do mercado, o Brasil deve crescer apenas 0,58% em 2022.

Carlos Kawall, diretor da Asa Investiments, nota que a inflação se elevou mais em vários países emergentes, com destaque para a América Latina. Dessa forma, há necessidade de os bancos centrais agirem mais cedo e de forma mais firme, o que é prejudicial ao crescimento no curto prazo.

Adicionalmente, alguns países emergentes tiveram excesso de gasto fiscal na pandemia, como o Brasil e o Chile, embora este último tenha bem mais gordura nas contas públicas. Essa reação, porém, variou, com o México sendo o exemplo de país que manteve a política fiscal mais arrumada durante a pandemia.

No caso específico do Brasil, o economista cita ainda o “desmanche do arcabouço fiscal”  – diferente do aumento de gasto na pandemia – e a incerteza política, sendo que esta última afeta também outros países latino-americanos (como o Chile).

“Em termos de vacina, a América Latina está ok comparada com os Estados Unidos e a Europa; o problema é que os fundamentos pioraram e, no Brasil, se não fossem o fiscal desarranjado e a eleição, poderíamos crescer de 1,5% a 2% no ano que vem”, diz Kawall.

Na verdade, a reação dos países à pandemia variou bastante e agora as consequências estão chegando.

No Leste Asiático, não só os países de forma geral atuaram com mais disciplina e eficiência na contenção do vírus, como houve muito menos transferências fiscais para apoiar empresas e famílias. Essa contenção fiscal se soma, como mostra recente artigo do Financial Times, do jornalista Robert Harding, ao fato de que a eficiência no combate ao vírus acabou levando a quarentenas mais curtas e menos amplas na Ásia.

A alta na renda devido às transferências e a adaptação das residências a quarentenas longas, com a aquisição de diversos tipos bens (de computadores a utensílios de cozinha), são apontadas como razão para explosão de demanda por produtos físicos na pandemia.

Pelas razões mencionadas acima, houve, entre os asiáticos, forte mitigação desse salto no consumo de bens, um dos principais motores inflacionários no ocidente, provocado pelo desvio do consumo de serviços para bens. Assim, hoje a Ásia de maneira geral não está sofrendo a explosão inflacionária “global”, bem mais característica dos países ocidentais, como mostra Harding.

No Brasil, muito se comemorou a gigantesca transferência de renda do auxílio emergencial em 2020, que de fato contribuiu para atenuar a queda do PIB. Na tradição nacional de focar no benefício e ignorar o custo, o sucesso foi tão grande que agora ampliar transferências de forma crescente parece ser um novo consenso político entre as diferentes correntes partidárias.

Mas o Brasil está saindo da pandemia como país novamente com alta inflação e elevados juros reais, economia parada e enorme desemprego (boa parte do qual herança do pré-pandemia), problemas fiscais crescentes e perspectivas desanimadoras de crescimento.

A pandemia parece ter aumentado a distância entre o sucesso asiático e o fracasso latino-americano – e o brasileiro, em particular.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/11/2021, segunda-feira.