Americano gostou de trabalhar de casa

Artigo acadêmico mostra que quatro em dez americanos, que puderam trabalhar de casa na pandemia, buscarão outro emprego se empresas pedirem para que voltem a trabalhar o tempo todo no local de trabalho pós-pandemia.

Fernando Dantas

23 de julho de 2021 | 11h19

Uma das grandes interrogações sobre a economia pós-pandemia se refere ao trabalho de casa.

Como se sabe, essa prática cresceu exponencialmente por causa do isolamento social, com pessoas e empresas se adaptando como puderam ao trabalho remoto. Em muitos casos, porém, o trabalho em casa funcionou tão bem que, pelo menos em parte, pode haver uma mudança permanente nessa direção.

O difícil é saber quanto do trabalho retornará aos escritórios, lojas etc. e quanto permanecerá remoto. Isso, por sua vez, dependerá da vontade dos trabalhadores e dos planos das empresas.

Recente artigo acadêmico (ver link no final da coluna), para o caso dos Estados Unidos reporta que há, de fato, uma tendência em curso que deve aumentar a parcela de trabalho em casa de forma permanente ou duradoura pós-pandemia.

O artigo tem o título provocativo de “Let me work from home, or I will find another job (Deixe-me trabalhar de casa, ou vou achar outro emprego)”.

Os economistas Jose Maria Barrero, Nicholas Bloom, e Steven J. Davis constataram que quatro em dez americanos que hoje trabalham em casa pelo menos uma vez na semana declaram que iriam procurar outro emprego se o empregador demandasse que voltassem a trabalhar integralmente no ambiente de trabalho.

Adicionalmente, 55,9% dos americanos empregados dizem que aceitariam uma oferta de trabalho de mesmo salário se o empregador permitisse que trabalhassem em casa de duas a três vezes por semana.

Os pesquisadores incluíram perguntas sobre o tema do trabalho em casa na edição de junho da Survey of Working Arrangements and Attitudes (Pesquisa de Arranjos e Atitudes sobre Trabalho, SWAA na sigla em inglês).

A pesquisa cobre 50 mil americanos em idade de trabalhar desde maio de 2020. Edições anteriores da SWAA também foram usadas pelos economistas para retratar os desejos dos trabalhadores e os planos dos empregadores relativos ao trabalho remoto no período pós-pandemia.

Na consulta de junho, perguntou-se aos entrevistados o que fariam caso, pós-pandemia, o empregador determinasse que eles teria que voltar a trabalhar no local de trabalho nos cinco dias úteis da semana, com três opções de resposta.

Uma parcela de 57,8% dos respondentes disse que obedeceria a demanda da empresa e voltaria a trabalhar naquelas condições. Outros 35,8% disseram que obedeceriam, mas começariam a procurar outro emprego que permitisse o trabalho em casa. E 6,4% declararam que pediriam demissão, mesmo sem outro emprego.

Os autores notam que, em maio, a taxa de pedidos de demissão atingiu nos Estados Unidos o nível de 2,5%, o mais alto desde pelo menos 2000. Eles especulam que é possível que o aumento dos pedidos de demissão esteja ligado à busca por empregos que permitam o trabalho remoto.

Na pergunta sobre a atratividade de uma oferta de emprego de mesmo salário que a posição atual do respondente, mas com dois ou três dias de semana de trabalho em casa, as mulheres ainda são um pouco mais favoráveis (57,8%) do que os homens (54,1%); e as pessoas vivendo com filhos de menos de 18 anos ainda mais (63,9%).

Barreiro, Bloom e Davis notam, entretanto, que aquilo que vai acontecer com o trabalho de casa pós-pandemia também depende dos planos das empresas. Eles relatam que há sinais, em matérias na mídia, de que o mercado de trabalho muito aquecido nos Estados Unidos (impulsionado pelos estímulos fiscais do presidente Joe Biden) está aumentando o poder de barganha dos trabalhadores, inclusive na questão do trabalho de casa.

Os pesquisadores encontram que, em média, os trabalhadores querem trabalhar 2,4 dias por semana de casa no período pós-pandemia, e os empregadores têm planos para que seus funcionários trabalhem 1,2 dia em casa no mesmo período. Há, portanto, uma queda de braço a ser travada.

Mas a disposição dos empregadores em relação ao trabalho em casa está aumentando. Em julho de 2020, eles diziam planejar uma média de um dia em casa por semana para o período pós-pandemia.

Os autores notam, finalmente, que, assim como os pedidos de demissão, a criação de novos postos de trabalho nos Estados Unidos também está em nível recorde. Pode haver vários motivos para isso, como o simples fato de o mercado de trabalho estar aquecido, ou desencontro entre capacitações requeridas e localização de empregos frente à oferta de trabalho.

Mas a onda de pedidos de demissão e criação de vagas pode também refletir a dinâmica entre pessoas buscando trabalhos que possam ser realizados parcialmente de casa, e empresas que aceitam ou não esse tipo de arranjo.

Link para o paper mencionado: https://bfi.uchicago.edu/wp-content/uploads/2021/07/BFI_WP_2021-87.pdf

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/6/2021, quinta-feira.