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Amor incondicional… pelos EUA

Na manifestação sobre assassinato de Qassem Suleimani, Itamaraty deixou de lado lições preciosas da história diplomática brasileira: defender duramente os interesses nacionais nas negociações com os Estados Unidos não é antiamericanismo, mas apenas bom senso. Conversei com o cientista político Octavio Amorim Neto.

Fernando Dantas

08 de janeiro de 2020 | 10h51

Não seria muito difícil para a diplomacia brasileira redigir uma nota sobre o assassinato do general iraniano Qassem Suleimani que não desagradasse nem gregos nem troianos. Platitudes sobre a importância de reduzir tensões neste momento e um apelo a que as partes em desavença buscassem soluções diplomáticas dariam mais do que conta do recado.

O próprio presidente Jair Bolsonaro foi bastante comedido em seus comentários, reiterando a importância das relações comerciais com o Irã e deixando entrever que o Brasil não tem muito a acrescentar numa briga remota e perigosa como essa.

Mas o Itamaraty de Ernesto Araújo não perdeu a oportunidade de atravessar a rua para escorregar na casca de banana na outra calçada. Numa nota confusa, conseguiu-se o prodígio de tentar ser elíptico e ao mesmo tempo denotar de forma muitíssimo clara que o Brasil se alinhou aos Estados Unidos na justificação do assassinato de Suleimani em nome da luta contra o terrorismo.

O Irã, de forma previsível, pediu explicações ao Brasil, e, agora, Bolsonaro diz que vai pedir explicações a Araújo.

O Brasil, obviamente, não tem absolutamente nada a ganhar nessa história. O País tem superávit comercial com o Irã. A corrente de comércio Brasil-Irã é modesta, mas não há razão para desestabilizar as relações com este mercado.

Adicionalmente, o Brasil nunca foi, de forma significativa, alvo de organizações terroristas do Oriente Médio, e não é visto como parte do imbróglio entre os muitos grupos armados da região e os principais países ocidentais. Para que mexer com essa casa de marimbondos?

Mas o que espanta em particular o cientista político Octavio Amorim Neto, da Ebape/FGV, é o alinhamento automático de Bolsonaro com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos. O que o Brasil ou seu presidente ganham com isso? – ele se pergunta.

Há, é claro, a ala “ideológica” do governo de Jair Bolsonaro, com seus posicionamentos mirabolantes sobre os perigos comunista e globalista. É sabido que Araújo admira o caricatural Olavo de Carvalho, guru ideológico do bolsonarismo.

Talvez o governo ache importante alimentar a fidelidade do exército “olavista”, que com certeza não é relevante numericamente, em termos eleitorais, mas que pode ser útil na artilharia do marketing político permanente das redes sociais – que foi um dos ingredientes da vitória de Bolsonaro em 2018.

Mas tudo tem limite, evidentemente. Amorim nota que a postura anti-China de Bolsonaro na campanha eleitoral foi praticamente abandonada ao longo do governo, por motivos óbvios.

E é por isso que a persistência do alinhamento automático aos Estados Unidos, como no caso da nota sobre a morte de Suleimani, intriga o pesquisador. Ele chega a cogitar se Bolsonaro veria na proximidade com Trump uma escora internacional de peso caso o mandato do brasileiro viesse a ser ameaçado por um processo de impeachment – a destituição antes do fim do mandato, na visão de Amorim, é um dos terrores de Bolsonaro.

Seria irônico, porque o próprio presidente americano sofre um processo de impeachment, mas que deve ser abortado no Senado. Porém, independentemente das motivações, o alinhamento automático com Trump traz um risco enorme, nota o cientista político: E se Trump for derrotado por um candidato democrata em novembro?

Nesse caso, Bolsonaro e o Brasil teriam relações entre frias e hostis com quase todos os países tradicionalmente mais importantes para a diplomacia nacional: Brasil, Argentina e potências europeias como França e Alemanha.

Amorim Neto de forma alguma defende uma posição antagônica do Brasil em relação aos Estados Unidos. Mas ele observa que alguns dos melhores momentos da diplomacia nacional foram quando o País soube defender arduamente seus próprios interesses em negociações com os Estados Unidos.

Getúlio Vargas, por exemplo, vendeu bem a entrada na Segunda Guerra Mundial no campo dos aliados e a permissão para os Estados Unidos instalarem uma base militar no Nordeste. Além de Volta Redonda, os Estados Unidos ajudaram o Exército nacional a se modernizar e reequipar.

Mas também houve decepções, com os americanos entregando menos do que se esperava. Foi, segundo o pesquisador, o caso quando o Brasil, depois do conflito mundial, quis adquirir navios de guerra dos Estados Unidos para a marinha nacional, em condições camaradas, para estabelecer hegemonia naval na América do Sul, tendo em vista principalmente a Argentina, então rival geopolítica na região.

Os americanos, porém, não atenderam ao desejo brasileiro, preferindo o equilíbrio entre as principais forças sul-americanas.

“Foi uma frustração enorme e uma lição de como é difícil negociar com os Estados Unidos, mas parece que estamos perdendo esta noção agora”, diz Amorim Neto.

Como é sabido, o Brasil de Bolsonaro já atendeu a interesses dos Estados Unidos, como abrir mão do status de país em desenvolvimento na OMC, mas vem tendo surpresas negativas quando é hora da retribuição americana. Os Estados Unidos titubearam no apoio à entrada do Brasil na OCDE e recentemente ameaçaram impor tarifas sobre o aço e alumínio brasileiro (é verdade que a medida não entrou em vigor, e, em conversa com Bolsonaro, Trump teria desistido definitivamente da ideia).

De qualquer forma, fica a pergunta: o que o Brasil ganha alinhando-se automaticamente a Trump, um presidente americano particularmente desgostado em muitas partes do mundo e que não se sabe se permanecerá no cargo a partir de 2021?

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/1/20, terça-feira.