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Analistas versus governo

Fernando Dantas

30 de julho de 2014 | 13h24

Muitos analistas econômicos do mercado financeiro e das consultorias já vêm há algum tempo moderando suas críticas à política econômica do governo por temor de reações como a que se abateu sobre o Santander, depois de o banco ter enviado um texto a clientes sobre o fato de que os mercados torcem contra a reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Vários desses analistas citam como um momento emblemático, anterior ao atual episódio, a demissão em 2011 pelo Santander do seu então economista-chefe, Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, depois que este teve uma dura discussão com o ex-presidente da Petrobrás, Sergio Gabrielli, num debate público.

Fontes ouvidas por este colunista acham que agora é possível que até relatórios de circulação muito mais restrita do que o texto do Santander possam sofrer algum tipo de autocensura. E isto deve afetar sobretudo os analistas do chamado “sell-side”, que têm como atribuição justamente abastecer clientes das instituições financeiras com análises da conjuntura econômica, sendo que relatórios enviados por e-mail são uma das principais formas de fazer este tipo de comunicação.

“A partir de agora, acho que muitos vão ter que fazer suas análises verdadeiras, sem subterfúgios, em encontros diretos com clientes, e mesmo assim dentro de um contexto de confiança – vamos voltar a uma era de comunicação bem mais precária, anterior ao e-mail”, comenta um analista.

A visão é de que episódios como o do Santander “podem prejudicar a instituição em outros negócios”, como diz outro analista. Isto, em princípio, afetaria principalmente os bancos, seguidos pelos gestores de recursos e tendo em último lugar as consultorias. A reação do governo no caso Santander, porém, foi tão forte, que alguns julgam que mesmos algumas consultorias podem repensar sua estratégia de comunicação.

Um experiente analista comenta que a visão dos economistas do mercado financeiro e das consultorias não é em princípio contrária aos governos petistas, tanto que em 2006 e 2010 não houve registros de atritos significativos desse tipo. “O problema”, ele continua”, “é que o governo Dilma implantou uma nova matriz econômica que não deu certo, e levou o País a uma situação de baixo crescimento e alta inflação – as reações atuais do mercado têm uma relação direta com o fato de que esse experimento de política econômica fracassou”.

Assim, o fato de que não há sinalização da atual presidente de que vá mudar a gestão econômica soma-se às interferências de políticas públicas na gestão de estatais como a Petrobrás e a Eletrobrás para produzir concretamente um quase consenso no mercado de que a vitória da oposição será melhor para A economia e para aquelas empresas. Por outro lado, os candidatos de oposição, ao apontarem como formuladores econômicos nomes muito mais afinados com a visão dos analistas do mercado financeiro, como Armínio Fraga e André Lara Resende, fazem com que suas eventuais altas nas pesquisas de opinião influenciem positivamente os ativos do mercado financeiro.

“É uma questão de preço, não ideológica: como analistas, temos o dever de dizer para os clientes o que achamos que vai acontecer com os ativos financeiros em diferentes cenários”, explica um analista de uma gestora. Ele acrescenta que, à medida que as eleições se aproximam, “nós temos que trabalhar com cenários diferentes, indicando claramente quais são as nossas projeções em caso de vitória dos diferentes candidatos”.

Não existe nenhum fato que garanta que a visão dos economistas que gravitam em torno do mercado financeiro seja mais correta do que a dos seus colegas heterodoxos, que, de maneira geral, se atêm mais à vida acadêmica ou política. Seria até possível argumentar, dentro do típico embate político, que o mercado sobe quando a oposição melhora nas pesquisas porque esta faria um governo mais favorável ao capital do que ao trabalho (não estou afirmando que esta seja a minha opinião).

O que não faz sentido, por outro lado, é negar a realidade. Os economistas de formação mais ortodoxa e liberal que predominam nas consultorias e departamentos econômicos de instituições financeiras de fato creem que os ativos brasileiros se valorizarão com a vitória da oposição. Este movimento, aliás, já vem se anunciando de forma cristalina nas oscilações recentes do mercado. Se o governo discorda dessa visão– e tem toda a legitimidade e a base sócio-política apropriada para fazê-lo –, seria bem melhor que tentasse contestá-la por meio de bons argumentos.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 29/7/14, terça-feira.

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