Animação com o Brasil

Estrangeiros ensaiam otimismo com a economia brasileira, apesar dos muitos pesares.

Fernando Dantas

08 de fevereiro de 2017 | 00h34

No site do respeitado jornal britânico Financial Time, no momento em que esta coluna era escrita, duas matérias tinham como tema a entrada de recursos externos no Brasil – uma sobre investimento direto, outra relativa ao fluxo líquido de recursos para fundos, de acordo com dados da Moody’s. A mensagem geral é a mesma: apesar de ainda enfrentar uma recessão colossal, o Brasil entrou de novo no radar dos investidores estrangeiros.

É verdade que os altos juros reais do Brasil foram um elemento fundamental da atratividade de fluxos de renda fixa em 2016, mas agora é justamente o ciclo de queda da Selic (que ainda vai permanecer alta em termos reais por muito tempo) um dos fatores principais a alimentar o otimismo com o Brasil.

Fernando Rocha, economista-chefe e sócio da gestora JGP, relata que em conversas com operadores de grandes bancos de investimento internacionais, fica claro que há um interesse crescente pelo Brasil.

“Este ano abriu com os estrangeiros mais otimistas”, ele diz, citando a queda da inflação – e, por consequência, dos juros – como o fator mais importante, acompanhado por sinais positivos em relação à estratégia política do presidente Michel Temer para aprovar a reforma da Previdência e outras medidas da agenda econômica do governo.

Tony Volpon, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), vê um forte componente comparativo na atual atratividade do Brasil.

Com vários anos de atuação profissional em Nova York, como diretor executivo e chefe de pesquisa para mercados emergente das Americas do Nomura, Volpon observa que “o investidor global sempre olha o conjunto, há uma decisão de alocar determinada quantia em mercados emergentes, e ele busca os melhores candidatos”.

O Brasil, nesse contexto, é um país que, na sua visão, se sobressai como menos vulnerável ao risco das políticas econômicas de Donald Trump, em contraste, por exemplo, com o México, a outra grande economia latino-americana. Outros emergentes de destaque, como Turquia e África do Sul, também vêm enfrentando problemas econômicos e políticos, mas “parecem estar na situação do Brasil um ano atrás”, comenta Volpon, referindo-se ao fato de que os impasses ainda não foram encaminhados.

O economista destaca também que “ao contrário do que a esquerda acha, o mercado adora queda de juros”. A explicação é que liquidamente o mercado tende a estar comprado em papéis do governo, enquanto este naturalmente está vendido, por ser o principal tomador de recursos na economia. A queda dos juros leva à alta do preço dos papeis prefixados, o que gera ganhos para os mercados.

“Num segundo momento, se a queda de juros levasse a inflação a subir, o mercado poderia mudar de posição – mas isto é uma outra conversa”, diz Volpon.

Assim, a perspectiva de um longo ciclo de queda da Selic à frente estimula a animação dos operadores e investidores e pode até fazer com que coloquem em segundo plano fatos menos alvissareiros, como a ainda não resolvida crise fiscal dos Estados, o déficit astronômico nas contas públicas federais, a ameaça da Lava-Jato pairando sobre o núcleo do governo e a possibilidade de problemas geopolíticos sérios no plano internacional, na esteira dos mandos e desmandos de Trump. Por enquanto, porém, a ordem parece ser a de aproveitar a festa, e os estrangeiros estão particularmente animados. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/2/17, terça-feira.

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