Apesar de Guedes, não há crise no câmbio

Declaração desastrada do ministro da Fazenda não que dizer que Guedes queira piorar a vida das domésticas (ao contrário), mas revela preconceito de classe. No câmbio em si, há uma mudança de patamar, que até agora é benigna.

Fernando Dantas

13 de fevereiro de 2020 | 22h36

Como já amplamente analisado, a incontinência verbal do ministro da Economia, Paulo Guedes, deu de bandeja à oposição um trunfo a ser explorado eleitoralmente: a “confirmação” de que o objetivo dos economistas liberais no Brasil é prejudicar os pobres e ajudar os ricos.

Isso é falso, obviamente. O sentido da mensagem de Guedes não foi o de que a vantagem do câmbio desvalorizado é impedir a ida de domésticas à Disney. O que ele quis dizer é que é ruim para o desenvolvimento do País – e, portanto, para a melhoria da vida dos pobres, incluindo domésticas –  um câmbio excessivamente valorizado.

Mas a forma como ele resolveu exemplificar traiu um preconceito de classe comum aos ricos no Brasil. O câmbio estava (no passado recente) tão valorizado que “mesmo os pobres” conseguiam ir para a Disney, o que se tornou “uma festa”.

O estrago político está feito, mas a declaração desastrada remete a um problema real.

A defesa do câmbio desvalorizado normalmente é mais a praia dos economistas heterodoxos e desenvolvimentistas, muito preocupados com a competitividade industrial.

Mas os economistas liberais, ao defenderem primordialmente o ajuste fiscal, no fundo lutam por um modelo de inflação e juros baixos que leva, como se assiste agora no caso brasileiro, à depreciação cambial.

Não há nada de errado com isso, pelo contrário, desde que a inflação não suba – como não tem subido até agora no Brasil.

Em tese, numa perspectiva de médio e longo prazo, à medida que a economia acelere com o modelo de fiscal apertado, juro baixo e câmbio desvalorizado, capitais estrangeiros são atraídos para o País e o câmbio gradativamente se fortalece. A própria perspectiva de uma gradual valorização cambial torna os investimentos no Brasil mais atraentes, do ponto de vista estrangeiro.

Também à medida que a balança comercial reage à desvalorização, contribuindo para fechar o déficit em conta corrente, a pressão pela depreciação da moeda se enfraquece.

Mas a economia no mundo real é muito mais acidentada do que em teoria. Assim, no Brasil, apesar de juro baixo e câmbio desvalorizado, nem a atividade está ganhando tração como se suporia, nem a balança comercial está reagindo.

E, como nota Alexandre Ázara, sócio e economista-chefe da gestora Mauá Capital, “os estrangeiros não estão excitados para entrar no Brasil”.

Ázara acha que a história do câmbio nos últimos dias é em grande parte mais do mesmo da história das últimas semanas e de uns meses para cá.

Primeiro, a queda dos juros no Brasil acabou com o “carry-trade”, a arbitragem da diferença entre o juro internacional e o doméstico. Agora, empresas estão trocando dívida externa por interna e investidores brasileiros ampliam a porção externa dos seus portfólios.

A mudança de portfólios desvaloriza o real por uma questão de fluxos que, apesar de ser um ajuste em direção a um novo equilíbrio, pode demorar, na sua visão.

Porém, para Ázara, efetivamente as únicas preocupações cambiais do BC devem ser com dias de mercado disfuncional, quando cabe intervir, ou se a desvalorização afetar as expectativas inflacionárias, o que mexe com o plano de voo para a Selic.

A “prova” de que a situação cambial está longe de uma crise é o risco-país, que permanece em níveis historicamente baixos. O CDS (medida de risco Brasil) de cinco anos hoje era cotado a 97, em queda em relação a ontem e perto das mínimas históricas.

Livio Ribeiro, pesquisador do Ibre/FGV, e que trabalha com um modelo que tentar captar os componentes externos e internos das variações do risco e do câmbio, diz que, até o dia 7/2 (última data para a qual fez essa estimativa), “os exercícios não sugerem que eventos domésticos estejam pesando [na cotação do real]”.

Ribeiro observa que há uma tendência global de fortalecimento do dólar, casada com uma contrapartida de enfraquecimento do euro. Recentemente, houve movimento de busca de proteção no dólar, nos juros dos títulos longos americanos, no ouro e em outros ativos de baixo risco.

Ele ressalva que seu exercício (de componentes externos e internos do câmbio) ainda não abrangeu os últimos dias, quando “comentários feitos no Brasil pelo ministro da Economia e outros membros do governo podem ter gerado desconforto e pressionado o real”.

Mas Ribeiro acrescenta que também há uma questão mais de médio prazo. O déficit em conta corrente brasileiro vem aumentando mesmo com a desvalorização em curso do real. Alguns problemas específicos contribuem para isso, como o enfraquecimento das economias chinesa e argentina, grandes compradoras das exportações brasileiras de, respectivamente, commodities e manufaturados.

As formas de equilibrar os fluxos cambiais, nota o economista, são três:  melhora de perspectiva de crescimento, que atrai capitais; maior retorno das aplicações em reais (alta de juros); ou barateamento da economia brasileira, via desvalorização do câmbio. Outra opção é o BC segurar o câmbio vendendo reservas (mas tem um limite).

Aparentemente, o canal da desvalorização está funcionando meio sozinho no momento. Ribeiro é meio cético em relação à história de fluxos de capitais entrando em abundância no sempre prometido ciclo de privatizações e concessões alardeado pelo governo.

O economista nota que, num momento em que se implementam e se propõem tantas reformas, como previdenciária, trabalhista, tributária, é muito difícil para o investidor estrangeiro visualizar quais serão as regras do jogo no médio e longo prazo. Assim, cria-se incerteza (mesmo se a perspectiva for de melhora) e é difícil para o investidor estimar a rentabilidade dos projetos, o que pode fazer com que retarde sua entrada no País.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/2/20, quinta-feira.

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