Apreciação “made in Brazil”?

Solidez das contas externas e resolução do imbróglio orçamentário (ainda que não da melhor forma) poderiam indicar que há fatores internos na recente valorização do real. Mas o especialista Livio Ribeiro não crê nessa hipótese.

Fernando Dantas

28 de abril de 2021 | 10h22

O dólar caiu de um pico recente de R$ 5,72 em 12 de abril para R$ 5,42 nessa terça-feira, 27/4 (quando a redação da coluna foi concluída). Em duas semanas, portanto, o real se valorizou em aproximadamente 5,5%.

É uma boa notícia para a equipe econômica, se não for apenas mais uma oscilação rápida seguida de nova desvalorização. Um real menos depreciado pode ajudar no complicado front inflacionário, arrefecendo a alta de preços de bens industriais e contrabalançando em reais a elevação da cotação internacional  das commodities, em dólares.

O valor do real depende de fatores internos e externos. Os primeiros, claro, estão mais na alçada da política econômica que os últimos.

Recentemente, alguns fatos positivos domésticos sugerem que o real pode estar usufruindo de algum apoio na sua própria casa.

O setor externo vai muito bem, obrigado. Esta semana, uma mudança metodológica do Banco Central aumentou o déficit em conta corrente em 12 meses. Porém, além de ser uma questão meramente contábil, mesmo o novo número não assusta – 1,26% do PIB.

A projeção mediana do sistema Focus de saldo comercial este ano está em US$ 59 bilhões, mas há casas com números bem maiores.

O Asa Investiments, por exemplo, projeta US$ 75 bilhões de saldo comercial em 2021, como recentemente relatado em coluna para o Broadcast por Carlos Kawall, diretor daquela instituição.

No artigo, Kawall, que prevê um pequeno superávit em conta corrente de US$ 6 bilhões este ano, percorre diversas óticas do balanço de pagamentos e da contabilização dos fluxos externos para o Brasil para desenhar uma situação potencialmente confortável para a moeda brasileira – ainda assim atingida e ameaçada pela fragilidade fiscal do País.

Mas é justamente nesse front das contas públicas que é possível interpretar a evolução recente dos acontecimentos como moderadamente favorável.

O imbróglio orçamentário, combinando negociação confusa do Executivo com irresponsabilidade do Legislativo na hora de turbinar a conta das emendas parlamentares, acabou tendo um desfecho não totalmente ruim.

Os gastos relacionados à pandemia ficaram de fora do teto das despesas e do resultado primário, mas ainda assim este será um ano de aperto sem precedentes no custeio do governo. E o arcabouço do teto, a grande âncora fiscal para o mercado, sobreviveu por enquanto, ainda que com alguns arranhões.

Assim, seria possível pensar que, para essa mais recente valorização do real, a cena doméstica contribuiu, junto com fatores externos, claro.

O economista Livio Ribeiro, do Ibre-FGV, que vem trabalhando há alguns anos com um modelo para discernir influências externa e internas na evolução do risco e do câmbio no Brasil, acrescenta mais uma peça que pode ser usada para a conclusão otimista acima (mas com a qual ele não concorda, como se verá adiante).

Tomando-se a evolução do real e de uma cesta de moedas de países emergentes (que serve como um “real sintético”), é possível ver como a moeda brasileira teve pior desempenho a partir de dezembro de 2020.

No entanto, de 12 a 23 de abril (até quando vai o exercício), o real se valorizou 3,6%, enquanto a cesta de emergentes permaneceu exatamente no mesmo nível.

Mas Ribeiro, como já mencionado, não compra a história da melhoria doméstica. Ele observa de início que no período bem recente de melhora relativa do real houve uma piora muito grande da lira turca, que pode estar distorcendo para pior a cesta como um todo.

Por outro lado, o analista vê “um alinhamento favorável dos astros” para moedas emergentes como o real no cenário internacional a partir do fim de março.

Ribeiro cita a elevação das commodities, uma “pequena descompressão do juro longo americano que pelo menos parou de subir” (embora haja havido aqui uma nova alta nos últimos dias), um modesto enfraquecimento do dólar antes moedas dos principais parceiros e redução do risco de emergentes em diversas métricas.

“A maré global melhorou um pouco e o real foi junto, mas nossos problemas domésticos continuam e podem voltar a afetar a moeda”, conclui o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)