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Argentina: a eleição e o mercado

Vitória arrasadora da chapa peronista nas prévias eleitorais provoca terremoto nos mercados da Argentina. Como se moverão os candidatos e como reagirá o eleitorado até as eleições em outubro?

Fernando Dantas

12 de agosto de 2019 | 18h34

A derrota acachapante de Mauricio Macri nas eleições primárias argentinas (vistas como prévias da eleição presidencial de outubro) dá uma mostra da dificuldade de correntes políticas centristas enfrentarem populismos (seja de esquerda ou de direita) no mundo atual e na América Latina em particular.

Macri optou pelo gradualismo para fazer o ajuste da economia argentina após o período de intenso populismo comandado sucessivamente por Néstor e Cristina Kirchner, e que abarcou todo o tempo de vacas gordas do boom de commodities.

O gradualismo é uma estrada sempre perigosa, porque depende da volátil tolerância externa a financiar países extremamente desequilibrados em termos macroeconômicos. E foi uma aposta derrotada, porque o fim abrupto da indulgência internacional com a Argentina pegou o país ainda muito desarrumado em termos fiscais e vulnerável em termos externos.

Os Kirchner na prática fecharam a Argentina aos fluxos financeiros externos, uma estratégia que funcionou em termos de crescimento por duas razões: saiu-se de uma base muito baixa, após a devastação da crise final do sistema de conversibilidade cambial, na virada de 2000 para 2001; e o boom de commodities deu um fôlego extra a países que são grandes exportadores de matérias-primas, como a Argentina.

Cortando a dependência financeira externa, a Argentina também ficou mais autônoma para usar e abusar de políticas micro e macroeconômicas irresponsáveis, como a tolerância à alta inflação e o congelamento de tarifas públicas, que podem produzir resultados imediatos em termos de atividade e satisfação popular, mas acumulam desequilíbrios para o futuro.

A partir do fim do boom de commodities, no início desta década, o modelo argentino também trouxe alguns amortecedores, igualmente de curto prazo. O endividamento externo muito pequeno da era Kirchner significou que a Argentina ficou durante algum tempo relativamente insulada das periódicas ondas de mau humor internacional. E a tolerância à inflação também deu certa latitude à manutenção por mais alguns anos de uma política econômica claramente insustentável no longo prazo.

Os ajustes brasileiro e argentino pós-boom de commodities começaram – de forma atrasada, em ambos os casos – com cerca de um ano de diferença, o que não é muito. Eleita em 2014, Dilma virou a chave da política econômica em 2015 com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Macri assumiu a presidência em dezembro de 2015 com o compromisso de fazer o ajuste.

No caso do presidente argentino, há até quem ache que praticamente não houve ajuste algum. O presidente boa pinta e sofisticado, com sua bela esposa e uma equipe econômica vistosamente ortodoxa, passou ao mundo uma imagem de confiabilidade, e em seguida raspou o tacho de novas oportunidades de financiamento externo que se abriram ao país. Muita conversa, pouco ajuste, e o resultado foi que a onda seguinte de mau humor internacional pegou a Argentina novamente endividada no exterior – e extremamente vulnerável, portanto.

Com a crise, houve uma tempestade perfeita de tudo que ajuda a oposição na Argentina: tarifas mais altas (em consequência do que houve de ajuste), inflação e dólar em disparada, recessão, aumento do desemprego e da pobreza e mais um acordo humilhante com o FMI. O resultado final está expresso no resultado das eleições prévias do último domingo.

A dinâmica política e eleitoral até as eleições de outubro na Argentina será muito interessante de observar (infelizmente à custa do sofrimento e da angústia da população do país).

Os ativos argentinos, moeda, bolsa, títulos, estão previsivelmente reagindo de forma catastrófica ao recém-inaugurado superfavoristimo da chapa peronista de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner (como vice) às eleições de outubro. Na situação para lá de delicada da economia argentina no momento, com certeza essa enorme piora do mercado – se for mantida – tornará o quadro ainda mais desesperador.

Em termos eleitorais, uma possibilidade é que a maioria do eleitorado reaja vendo essa piora como a culminância de um desastre patrocinado por Macri – um tipo de narrativa que, por exemplo, Lula com sucesso conseguiu emplacar em relação ao estresse eleitoral causado pelo seu favoritismo em 2002.

Outra possibilidade é que o eleitorado veja a piora como consequência do favoritismo peronista, e retroceda na sua preferência, voltando em parte a apoiar Macri. Naturalmente, Macri tentará de todas as formas fortalecer essa narrativa.

O balanço entre essas duas hipóteses provavelmente definirá se e quando Alberto Fernandez vai procurar aplacar de forma mais veemente o medo dos mercados, sinalizando certa continuidade em relação à política econômica de Macri (o que é bom para acalmar investidores, mas, obviamente, pode ser um disparo de canhão no pé em termos eleitorais).

Se o eleitorado comprar mais a hipótese da culpa de Macri, é provável que a chapa peronista deixe – se deixar – para acalmar o mercado um pouco adiante, num momento em que a provável vitória já esteja mais cristalizada, mas com cuidado para não deixar a turbulência grassar de forma tão intensa que coloque a situação fora de controle quando o novo governo assumir.

Se o eleitorado interpretar a piora das (já muito ruins) perspectivas econômicas da Argentina, a partir de agora, como causada pelo favoritismo peronista, Fernandez provavelmente agirá mais rápido para realçar suas credenciais moderadas e centristas (e ele de certa forma as têm).

Com a eleição de domingo, um novo jogo econômico e político começa na Argentina, e será jogado de forma frenética pela oposição favorita e pelo governo acuado no pouco tempo que resta até a eleição presidencial.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/8/19, segunda-feira.

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