Arminio e as elites

Ex-presidente do BC critica justificadamente parcela das elites, mas o mais provável é que suas próprias ideias permaneçam como alvo dos populistas que atacam as elites com mais poder de persuasão.

Fernando Dantas

07 de dezembro de 2021 | 10h22

Em entrevista ao Estadão, com a jornalista Adriana Fernandes, Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, disse que, no Brasil, “as elites, com exceções, têm sido chapa-branca, curto-prazistas, oportunistas, na verdade um obstáculo ao desenvolvimento do País”.

O discurso poderia estar na boca de um candidato de esquerda às eleições de 2022, mas não o complemento que Arminio fez, ao mencionar elites que abraçaram tanto Bolsonaro como Dilma Rousseff.

Na sequência da sua resposta, o atual gestor de recursos menciona elites empresariais com “obsessão suicida de voltar a um modelo de economia fechada, com subsídios abundantes, pouco respeito à previsibilidade, ao equilíbrio macroeconômico e à desigualdade”.

A carapuça parece se ajustar particularmente ao tipo de programa favorecido pelos conselheiros econômicos mais à esquerda de Lula – que mantêm forte respaldo do ex-presidente – e por Ciro Gomes.

Bolsonaro poderia também ser incluído, mas no caso do atual presidente mais pelo quase total fiasco das propostas liberais de Paulo Guedes. Já com Lula e Ciro, o intervencionismo descrito por Arminio como ligado a “elites empresariais” parece ser o plano A.

Culpar as elites é um tipo de discurso meio na linha do “temos que combater o câncer”. Todos concordam – e é quase tautológico que, num país em que as coisas estão dando errado, a elite, que lidera, está fazendo um mau trabalho –, mas o diabo mora nos detalhes. De que elite se está falando? Quais são os erros específicos da elite?

Apesar de terem sido colocados num só saco por Arminio, a adesão de segmentos da elite ao governo Dilma e ao governo Bolsonaro são fenômenos bastante distintos.

No caso da ex-presidente, o sucesso econômico e político estrondoso do segundo mandato de Lula varreu para bem debaixo do tapete toda as restrições que o empresariado tinha ao petista e a seu campo político, a esquerda.

Houve adesão entusiasmada de empresários a todo o programa da chamada “nova matriz econômica”, da enésima tentativa de reerguer a indústria naval, passando pela Sete Brasil e a política de conteúdo local, às desonerações de automóveis e eletrodomésticos com Guido Mantega e Dilma.

A adesão de parte das elites ao governo Bolsonaro foi um fenômeno bem distinto. Quando a insustentável nova matriz ruiu de vez em 2015, o empresariado já havia abandonado o barco do petismo e retornara à sua postura tradicional antiesquerda. O que se buscava a partir do impeachment em 2016 era um candidato que pudesse derrotar o PT nas urnas (com a facilitação de Lula preso).

Bolsonaro surgiu com esse potencial, e parte das elites fez vista grossa ao fato de que era um político desqualificado de baixo clero, antidemocrático e explicitamente favorável à tortura e às mortes ilegais de oponentes pela ditadura militar.

Nesse caso, o conceito de “elites” ganha um contorno mais amplo, incluindo parte do empresariado produtivo mas também muitas vozes (não todas) do mercado financeiro, além de nacos do sistema político e uma franja dos formadores de opinião.

Evidentemente, a incorporação de Guedes, com seu liberalismo econômico militante, ao time de Bolsonaro foi um dos principais catalisadores da adesão de parte da elite ao atual presidente.

De qualquer forma, a justificada crítica de Arminio a parcelas das elites nacionais não tem o condão de popularizar a mensagem do economista.

Pelo contrário, tanto a esquerda lulista e cirista como Bolsonaro continuarão a vender os seus “projetos de país” como uma luta do povo contra diferentes tipos de elite. E com certeza, dado o histórico do discurso político-eleitoral no Brasil, venderão esse peixe bem melhor do que Arminio consegue vender o seu.

Porque a verdade é que o modelo “social-liberal” que o economista defende nunca ganhou tração afetiva no eleitorado brasileiro, e pode ser até o ponto de partida de alguns candidatos – como Moro, agora, com Pastore como conselheiro econômico –, mas quase sempre é abandonado quando a metralhadora populista dos marqueteiros de campanha entra em ação.

A direita no Brasil se nutre do discurso anticorrupção e de bandeiras primitivamente conservadoras, não de temas econômicos. Já o centro, para quem a agenda econômica liberal – ou social-liberal, como quer Arminio – é mais cara, só faz definhar.

Por enquanto não há muitos sinais de que em 2022 será diferente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/12/2021, segunda-feira.