As causas do freio no varejo

Inflação alta, câmbio desvalorizado e "ressaca" da onda de consumo de bens do final do ano passado ajudam a explicar recuos nas vendas do comércio.

Fernando Dantas

11 de novembro de 2021 | 20h16

As vendas do varejo, com queda de 1,3% em setembro (ante agosto, na série dessazonalizada), foram mais uma má notícia num front econômico já carregado de nuvens. A mediana do Projeções Broadcast estava em -0,6%.

Também o varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, decepcionou, com recuo de 1,1% em setembro (na mesma comparação), ante mediana do Projeções Broadcast de estabilidade (0,0%).

Tanto as vendas no varejo restritas como as ampliadas se recuperaram quase tão velozmente quanto caíram no pior momento da pandemia, tendo a maior parte de ambos os movimentos ocorrido no segundo trimestre do ano passado.

O varejo restrito se reaqueceu até bater num nível mais de 5% superior à tendência pré-pandemia (2017-2019) no final de 2020. O varejo ampliado também superou a tendência pré-pandemia na mesma época, mas por menor margem.

Agora, as vendas do comércio tanto num conceito como no outro se situam abaixo da tendência pré-pandemia, e, novamente, de forma mais acentuada no caso do varejo ampliado.

Analistas e o próprio IBGE chamaram atenção para o impacto negativo da inflação muito alta nas vendas do varejo.

Mas a elevação muito forte dos preços de parte do varejo também deriva da mudança de preços relativos ligada ao fato de que o câmbio se depreciou cerca de 40% (desde 2018), com grande parcela desse movimento a partir da pandemia. A depreciação afeta inevitavelmente o preço dos tradables, que compõem parte expressiva das vendas do varejo.

Outro fator relevante no enfraquecimento das vendas do varejo é justamente o fato de que o setor atingiu níveis muito aquecidos no final do ano passado, como apontado acima.

Esse fenômeno está ligado à mudança do mix de consumo em função da pandemia, um fenômeno global. As quarentenas e o distanciamento social forçaram um virtual fechamento de boa parte do setor de serviços, desviando o consumo para bens.

Adicionalmente, as quarentenas levaram a reformas e reaparelhamento dos domicílios, sejam a criação e ampliação de escritórios domésticos e a compra de computadores e outros equipamentos para aparelhá-los; sejam as melhoras e aquisição de novos utensílios na cozinha, pelo aumento das refeições em casa; sejam novas, maiores e melhores TVs para quem se vê confinado em casa por longos meses.

Porém, como não se compram computadores, TVs, fogões, panelas e geladeiras todos os meses, ou como não se fazem reformas em casa o tempo todo, é natural que haja alguma “ressaca” agora no consumo desses itens. É o efeito da antecipação de consumo e da saciedade depois de um momento muito intenso de compras.

É algo, inclusive, que pode contribuir para domar as pressões inflacionárias, especialmente se a mesma tendência estiver se fazendo sentir mundialmente, no mercado globalizado que define em boa parte o preço dos tradables. Também é um movimento que, dando tempo ao tempo, pode vir a aliviar os nós logísticos e de oferta que atingem a indústria em todo o mundo, pela falta de semicondutores e outros insumos.

A pior explicação para a decepção do varejo brasileiro, naturalmente, é a perda de fôlego da recuperação econômica, com o PIB “andando de lado” desde o segundo trimestre deste ano, e o mercado de trabalho ainda em estado desanimador.

Uma nota positiva parcial é que os materiais de construção permanecem num nível aproximadamente 10% acima do que prevaleceu no pré-pandemia, o que talvez tenha alguma ligação com a perspectiva da classe média alta para cima de que parcela do trabalho de casa vai se manter pós-Covid. O que pode contribuir para manter o ritmo das reformas e estimular o mercado residencial.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/11/2021, quinta-feira.