As chuvas de outubro

Cenário energético ficou um pouco melhor com chuvas na média histórica no último mês (que devem continuar até o fim do ano), reduzindo, mas não eliminando, risco de racionamento.

Fernando Dantas

05 de novembro de 2021 | 21h11

Em outubro as chuvas no Brasil estiveram perto da média histórica, com destaque para os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste, os mais importantes na oferta de energia no País.

Assim, como nota Bráulio Borges, economista-sênior da LCA e pesquisador associado do Ibre-FGV, na contramão da sazonalidade, a armazenagem de água subiu nos reservatórios entre o final de setembro e de outubro.

O período chuvoso na maior parte do Brasil vai de novembro a abril.

Borges nota que algumas consultorias estimaram há algum tempo o risco de racionamento em 2021 ou 2022 em 20% a 30%, mas as chuvas de outubro – e projeções da Câmara de Compensação de Energia Elétrica (CCEE) de que o ritmo próximo a 100% da média histórica persista em novembro e dezembro – devem ter reduzido significativamente essa probabilidade.

A CCEE também projeta novo recuo para cerca de 70% da média histórica de janeiro a abril de 2022. Porém, ainda assim, os reservatórios chegariam ao fim do período chuvoso (final de abril) no próximo ano em 52%, um avanço substantivo ante os 42% este ano para o mesmo indicador – crucial para se avaliar o risco de racionamento.

Em resumo, o risco de racionamento parece ter caído recentemente, e mais ainda considerando 2022.

Ainda assim, o risco não desapareceu, e Borges, utilizando um modelo de pequeno porte, estimou os efeitos potenciais sobre a economia brasileira de um racionamento compulsório.

O economista faz duas importantes ressalvas sobre seu exercício. Ele não estimou a probabilidade de racionamento, nem, caso haja racionamento, qual seria sua dimensão.

Seu exercício foi o de supor cenários com cortes compulsórios de energia de 5%, 10% e 20% de janeiro a junho de 2022 (em relação ao mesmo período do ano anterior) e vigorando em todo o País.

Em termos do crescimento do PIB de 2022, haveria perda de 0,5 ponto porcentual (pp) com racionamento de 5%; de 1pp com 10%; e de 1,9pp com 20%.

Como o cenário da LCA sem racionamento é de crescimento de 1% em 2021, os três cenários acima (do mais suave ao mais forte) levariam a crescimento do PIB no próximo ano de, respectivamente, 0,5%, zero e -0,9%.

Em termos de câmbio, o racionamento mais intenso (20%) levaria o dólar a R$ 6,7 no início de 2022. Já no IPCA de 2022, o racionamento de 5% levaria a uma alta adicional de 0,4pp; o de 10%, 0,8pp; e o de 20%, 1,6pp. Haveria também algum impacto no IPCA de 2023 nos três cenários.

O que, naturalmente, iria bater na Selic, que poderia ir para um nível máximo nesse ciclo de alta de cerca de 1,7pp acima do cenário sem racionamento, e por um longo período entre 2022 e 2024, no caso de racionamento de 20%. O racionamento de 10% elevaria o nível máximo da Selic em 0,5pp, e por um período menor; o de 5%, em cerca de 0,25pp, e ainda um pouco menor.

A modelagem de Borges projeta a demanda por energia levando em conta não apenas a atividade econômica, mas também o preço da energia e o clima (variável importante, já que o pico de consumo no Brasil se dá no começo do ano, muito ligado ao uso de ar condicionado).

Algumas observações de Borges, paralelas à simulação em si, são bastante interessantes.

O que trouxe o Brasil à atual situação é a absoluta predominância de chuvas abaixo da média histórica há pelo menos 10 anos, culminando com um recorde de 25% abaixo dessa média em 2021.

Uma diferença em relação à crise de 2001 é que hoje a dependência das hidrelétricas está em torno de 60%, comparado a 90% naquela época. Mas 60% ainda tornam o Brasil vulnerável diante de um quadro hidrológico tão ruim quanto o atual.

Um problema adicional desde 2020 foi a pandemia, que mudou a composição do PIB, na direção de bens industriais e em detrimento de serviços. Isso fez com que a intensidade energética do PIB aumentasse ou, como coloca Borges, que houvesse uma piora da “produtividade energética” do PIB.

Dessa forma, o PIB caiu em torno de 4% em 2020, mas o consumo de energia elétrica só recuou 1,4%. Tomando-se a relação histórica entre essas variáveis, o consumo de energia provavelmente teria caído um pouco mais que o PIB.

Nos dados mais recentes, essa discrepância está diminuindo, mas ela prevaleceu por quase todo o ano de 2020 e na primeira metade de 2021, pressionando a oferta de energia.

Pelo lado positivo, o economista destaca o papel crescente da energia eólica, que gerou 9% do total consumido pelo Brasil em 2020 e 15% no período de junho a outubro de 2021.

Na verdade, esse segundo número está ligado também à sazonalidade da energia eólica, com a temporada de ventos mais fortes concentrando-se de junho a outubro, o que cria uma complementariedade bastante útil com a sazonalidade das chuvas.

A energia eólica é concentrada no Nordeste, mas hoje pode ser exportada para outras regiões por linhas de transmissão que não existiam na crise de 2021. Mas Borges ressalva que as empresas do setor eólico afirmam que há ainda muitas restrições, e que essa exportação poderia ser bastante ampliada.

De qualquer forma, esse é um setor em expansão, com aumento de capacidade projetado em 50% até 2024, sendo que metade disso deve entrar em operação em 2022.

Dessa forma, a energia eólica deve, na visão do economista, crescentemente exercer um papel de redução de risco de racionamento criado pela “dependência de São Pedro”.

“É um ‘game changer’, já a partir de 2022 e nos próximos três a quatro anos”, ele conclui.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/11/2021, sexta-feira.