As coisas podem acalmar, mas será que Jair quer?

Um maré de notícias relativamente boas (apesar de problemas graves que persistem) dá algum fôlego adicional ao governo no início do segundo semestre. Resta saber o que Bolsonaro fará com isso.

Fernando Dantas

02 de julho de 2019 | 10h32

Fechamento de acordo entre União Europeia e Mercosul, otimismo quanto à aprovação de uma boa reforma da Previdência (embora aqui tenham surgido dificuldades de última hora), perspectiva de um novo ciclo de queda da Selic, juros do mercado privado em recorde histórico de baixa. Tudo parece indicar que Jair Bolsonaro, aos seis meses de governo, está ganhando um fôlego adicional, depois de passar por momentos delicados que até sugeriam a possibilidade de um impeachment ainda no primeiro tempo do seu mandato.

É verdade que ainda há problemas graves, que podem recolocar o presidente em situação extremamente difícil: a recuperação econômica, que praticamente estancou, ainda com 13 milhões de desempregados; a popularidade presidencial, que sofreu forte queda no primeiro semestre de governo, e ainda caía na última pesquisa do Ibope; e o próprio estilo de governar de Bolsonaro, que rejeitou a formação de uma sólida base parlamentar e tem uma maneira toda própria de criar crises para si mesmo.

Em relação aos dois primeiros fatores, entretanto, pode-se dizer que há tênues sinais de luz no fim do túnel. Se é verdade que as projeções inferiores a 1% para o crescimento do PIB em 2019 não ajudam em nada o presidente, também é fato que vão se consolidando as condições para que o governo coloque em campo um kit completo de medidas para reverter este quadro.

A prevista aprovação em primeiro turno na Câmara da reforma da Previdência se não decepcionar, risco que parecia afastado, mas se insinuou novamente nos últimos dias agora em julho ou no início do segundo semestre abre as portas para que o BC inicie um novo ciclo de cortes da Selic, que levará as taxas de juros reais no Brasil para níveis de baixura nunca dantes navegados, pelo menos desde o plano Real.

Adicionalmente, a perspectiva, com a aprovação da reforma, de uma melhora na solvência pública de médio e longo prazo abre espaço para o governo ser menos estrito do arrocho fiscal e parafiscal. E, finalmente, há o efeito de redução de incertezas e aumento da confiança que pode estimular o consumo e o investimento privado.

Em relação à popularidade presidencial, as notícias tampouco são 100% negativas. Apesar de ainda ter caído na última pesquisa do Ibope, é nítido que o ritmo de queda vem diminuindo e é possível que esteja se tendendo a uma estabilização (num nível bem baixo para início de mandato, é certo, mas não ainda desastroso).

Parece haver um núcleo duro de apoiadores do presidente que não está disposto a abandoná-lo mesmo diante das mil e uma trapalhadas políticas, dos episódios bizarros (como vários protagonizados pelo ministro e ex-ministro da Educação, por exemplo) e do mau desempenho da economia. As manifestações a favor de Moro nesse último fim de semana deram um sinal da capacidade de mobilização desse segmento.

O momento um pouco mais tranquilo na política e na guerra de facções dentro do governo – que pode, claro, ser revertido a qualquer momento, a julgar pela capacidade de Bolsonaro de arrumar confusões a partir de quase nada – e uma eventual melhora da economia podem, na verdade, até levar a alguma recuperação da popularidade presidencial junto a segmentos fora do núcleo de bolsonaristas fervorosos.

Há, em resumo, um conjunto de fatores e sinais que mostra existir uma razoável chance de que o segundo semestre do governo Bolsonaro seja um pouco mais tranquilo que os tumultuados seis primeiros meses.

Mas permanece uma interrogação sobre como o presidente vai aproveitar essa que seria uma situação desejável para quase qualquer chefe de Executivo em qualquer país do mundo.

Há quem creia que Bolsonaro e seu grupo mais íntimo, incluindo principalmente os filhos, preferem um ambiente político polarizado e em ebulição à estabilidade. Nessa visão, o bolsonarismo tiraria toda a sua força política da polarização e da confrontação permanente. Se isso for verdade, é bem possível que o próprio governo faça o barco voltar a balançar.

Por outro lado, é óbvio que a combinação de alguma melhora da economia com certa calma política aumenta a governabilidade – que ajuda Bolsonaro a lutar pela sua pauta conservadora de costumes – e amplia a popularidade, pela adesão de parte do eleitorado menos politizado. Esse é um ganho óbvio, que pode estar à mão, e que mesmo os mais radicais e ideológicos entre os políticos dificilmente iriam ignorar.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/7/19, segunda-feira.