As duas marchas da economia

Produção industrial de junho confirma que, por enquanto, indústria está se recuperando melhor da pandemia do que serviços. Mas será que essas "duas marchas" da economia podem se alternar até o fim do ano?

Fernando Dantas

05 de agosto de 2020 | 11h20

O resultado da produção industrial em junho veio um pouco melhor do que a mediana das estimativas do Projeções Broadcast, com alta de 8,9% em relação a maio, na série dessazonalizada, e queda de 9% ante junho do ano passado. As medianas das projeções foram de, respectivamente, +7,8% e -9,9%.

Esse resultado é um sinal positivo (dadas as circunstâncias) para o PIB de 2020, validando, por enquanto, as apostas da ponta mais otimista, de queda em torno de 5%. Quem está com resultado substancialmente pior que esse possivelmente vai pensar em ajustá-lo para uma queda menor.

Porém, para se ter um quadro melhor de como deve ser a atividade econômica até o fim do ano, e as perspectivas iniciais para 2021, é preciso levar em conta o “PIB em duas marchas”, expressão mencionada por dois entrevistados para esta coluna: Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, e a economista Luana Miranda, especialista em atividade do FGV-Ibre (que também conversou hoje [terça-feira, 4/8], com Thaís Barcellos, do Broadcast).

No momento, a indústria vem “batendo as metas”, isto é, tendo desempenho acima do que se imaginava nos momentos mais alarmantes, em termos econômicos, da pandemia. Já os serviços desapontam.

A produção industrial cresceu 8,2% em maio (o resultado foi revisado hoje pelo IBGE; na divulgação inicial foi de 7%) e 8,9% em junho, na série em que se compara com cada mês anterior, em termos dessonalizados.

É um ritmo de marcha batida de recuperação do enorme tombo da pandemia (mesmo com o resultado de hoje, a indústria ainda cai 10,9% em 2020 e 5,6% em 12 meses).

O comércio, bastante ligado à venda dos bens produzidos pela indústria, também exibiu bom ritmo de retomada ante o pior momento da pandemia.

Os serviços, porém, que são responsáveis por cerca de 70% do PIB, não engrenaram. Em maio, o volume de serviços em termos nominais ainda apresentou queda de 0,9% ante abril, na série dessazonalizada – decepcionando o mercado, cuja previsão mediana, segundo o Projeções Broadcast, era de avanço de 5,75%.

É por isso que Luana, do Ibre, acha que todos estarão muito atentos ao resultado da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de junho, relativa ao volume de serviços, que será divulgada em 13/8, quinta-feira da semana que vem. A Pesquisa Mensal de Comércio (PMS) de junho, também importante para clarear mais o cenário, terá divulgação na quarta, 12/8.

Tanto Rocha quanto Luana consideram que um dos fatores possivelmente centrais na determinação do desempenho da indústria e do comércio (e, portanto, influenciando o PIB) até o fim do ano é o cronograma de desembolsos do auxílio-emergencial.

Esse programa de transferência de renda, criado para proteger os trabalhadores informais durante a pandemia, é tão gigantesco – comparado a outros benefícios assistenciais – que a massa de rendimentos no Brasil deve crescer no segundo e terceiro trimestres, e no ano. Na maior recessão em muitas décadas, e com o desemprego subindo, há mais dinheiro na praça para comprar bens.

O problema é que, exatamente por ser supercaro em termos fiscais, o auxílio-emergencial não pode se eternizar (a não ser que o Brasil resolva ter uma crise de solvência aguda e inflacionar a economia, caso em que o valor real do benefício seria corroído pela aumento do custo de vida).

A grande questão, portanto, é como a economia reagirá quando não houver mais benefício emergencial para turbinar a demanda.

Haverá um “despenhadeiro” à frente? Isto é, uma redução maciça e abrupta do volume de recursos injetados pelo benefício, que provoque mais um forte impacto negativo na economia?

Por enquanto, o auxílio são cinco parcelas de R$ 600, cujos beneficiários começaram a receber em abril, maio ou junho. Há um escalonamento, baseado na data de nascimento, das duas últimas parcelas, de forma que até em dezembro haverá um pagamento residual (muito pequeno).

Rocha, baseado em informações mais precisas do governo até julho, e menos precisas daí em frente, fez um gráfico sobre os desembolsos do auxílio emergencial até o fim do ano. Ele alerta que teve que fazer algumas inferências nos dados a partir de agosto, e, portanto, pode haver erro.

De qualquer jeito, nesse exercício a injeção de dinheiro do auxílio tem um pico em junho, julho e agosto, quando a média mensal é de pouco menos de R$ 45 bilhões. E, de fato, em seguida, no mês de setembro, sofre certa “queda no abismo”, indo para R$ 18 bilhões. Em dezembro, o número já e de apenas R$ 1,9 bilhão.

Existe, claro, a discussão no governo sobre mais uma extensão do programa, com parcelas de R$ 200, uma ideia que possivelmente está ligada ao temor do despenhadeiro na massa de rendimentos. E também há mais uma liberação do FGTS no “pipeline”.

E, finalmente, como nota Rocha, há outra possível fonte de compensação para a perda de demanda com a progressiva redução do auxílio emergencial.

Para compreendê-la, ajuda ter em mente um esquema bem simplificado de como a pandemia mexeu com o consumo dos diversos extratos de renda no Brasil.

De início, todos ficaram em caso. Mas, em muitos lares pobres, a renda aumentou com o auxílio emergencial. Essa faixa da população normalmente tem um consumo relativo de bens bem maior (na comparação com os serviços), e possivelmente engrossou a demanda por alimentos, materiais de construção para pequenas obras em casa e mesmo a compra de eletroeletrônicos e mobiliário.

Já a classe média-alta e os ricos consomem muito mais serviços do que bens. A quarentena, em que se tornou impossível gastar em muitos serviços (viagens, restaurantes, shows etc.), representou uma poupança forçada para essas pessoas.

Agora, porém, à medida que a economia for reabrindo, é possível que a camada mais rica da população volte, com os bolsos cheios, a fruir com certo entusiasmo de serviços dos quais teve que fazer jejum – o que será mediado, claro, pelo medo ainda persistente de contrair o coronavírus.

Assim, poderia haver um rebalanceamento das “duas marchas” da economia: o consumo de bens desacelerar, com a saída – abrupta ou gradativa – do auxílio emergencial de cena, e o de serviços sair da letargia, com a gradual reabertura da economia ao longo dos próximos meses. E supondo que uma nova onda virulenta da Covid-19 não ocorra.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/8/2020, terça-feira.